Por: Ana Catharina Valle e Andre Zimbawer

Se você é um estudante nessa pandemia você já passou pelo temido ead (ensino a distância) ou ensino remoto, que apesar de parecerem a mesma coisa são diferentes na prática. O EAD (Ensino à Distância) são aulas que podem ser gravadas para assistir depois e o ensino remoto conta apenas com aulas online em tempo real. A maioria das escolas e faculdades aderiram ao ensino remoto, onde você não tem acesso às aulas gravadas e conta a presença na aula como componente importante da grade curricular.

Essas aulas remotas ajudaram a evidenciar um problema social muito comum no Brasil, as discrepâncias de classes sociais e trouxe à tona uma discussão sobre meritocracia. Onde vemos vários veículos midiáticos romantizando as dificuldades e injustiças que essas classes mais baixas sofrem, invés de denunciá-las e vê-las como um problema social a ser resolvido.

Nesta reportagem acompanhamos alunos e professores de escolas e universidades públicas e particulares como eles driblam esses problemas como: falta de celular, computador e entre outros meios tecnológicos, falta de internet, falta de local de estudo, trabalho em tempo integral e etc. E como nesses mesmos locais (universidade/escola) podemos encontrar mundos completamente diferentes.

Uma dessas pessoas é o Gustavo Soares, 23 anos, estudante de pedagogia na UFMA (Universidade Federal do Maranhão), que além de estudante era garçom e trabalhava durante a noite em uma churrascaria, com pandemia e as restrições ele veio a ficar desempregado. Segundo ele existe sim uma preocupação da universidade com os alunos de baixa renda, mas que o sistema ainda é falho e existem muitos alunos corruptos, que tentam tirar vantagem.

Gustavo Soares em seu local de estudo

“A universidade em si preocupa com pouca parte dos alunos, acho que deveria ser mais estudado o questionário socioeconômico, é muito triste as pessoas deitarem pra meritocracia, acho horrível isso. Não dizendo que a universidade apoia isto, digo: grande parte das pessoas não tem senso comum em tirar a oportunidade de quem não tem pra se favorecer. E ainda mais se tratando de um grande período de calamidade, onde o ensino ficou mais dificultoso em partes de pessoas que sofrem exclusão digital, e que não tem acesso a um meio eletrônico bom e que ajude nas atividades”

Já Virna, 18 anos, estudante do terceiro ano do ensino médio, na escola pública Imperador. Disse que o colégio não providenciou nem uma ação afirmativa para com eles, o que dificultava muito para os alunos de baixa renda que não tem acesso a internet, segundo ela a maioria da sala.

Local de estudo da Virna

É muito difícil porque só tenho como estudar pelo celular  e muitas vezes a internet daqui de casa cai, fico sem saber o que fazer. Mesmo tentando assistir todas as aulas, sinto que não tô aprendendo nada. E não é culpa dos professores nem nada, só são tempos difíceis mesmo. Muita gente da minha sala desistiu de estudar por falta de internet mesmo!

Como professora universitária Carmem Barroso relata que está trabalhando “dobrado” pois ela não só dá aula como a planeja e participa de muitas reuniões de colegiado, núcleo estrutural,  planejamentos de cursos,minicursos e atividades extensionistas, além das atividades burocráticas normais da universidade.

Com essa vivência proporcionada pela academia a Professora conta que consegue perceber a diversidade do acesso entre seus alunos e diferentes turmas:

“É algo nítido pois mesmo antes da pandemia, já se tinha noção das dificuldades que os alunos enfrentam, com a migração do ensino para o meio digital essas dificuldades se tornaram mais potentes, a ponto de dificultar a compreensão dos alunos ao ensino, com isso temos que a todo tempo repensar nossas metodologias para que se torne algo acessível e além disso existe o lado humano e compreensível, pois existem casos dos trabalhos não serem entregues na data correta e outras atitudes similares, sobre isso o importante é ter empatia”.

Sobre a diferença do acesso ao ensino a pedagoga Vitoria Nascimento relata sua experiência em escola pública onde atuou na gestão de ensino e nessa área pode constatar a dificuldade que esses alunos enfrentam, o público da escola Wady Fiquene é direcionado ao Ensino Fundamental menor e maior com foco em crianças de 6 a 14 anos.

Vitória e suas colegas apresentando o plano de gestão

“As atividades eram entregues e feitas somente pelo whatsapp assim como o acompanhamento do aluno também, na maioria das vezes eles não conseguiam acessar outro tipo de plataforma e essa era a forma mais fácil de  ensinar eles e isso é uma realidade da escola pública, nas escolas particulares eles tem uma plataforma, aulas gravadas e todo um suporte ao aluno, e era algo que eu e meus colegas ficamos chocados por que era muito comum ver um celular dividido para 4 crianças e na maioria das vezes os pais tinham que ir trabalhar, então era algo que eu sabia que não estava sendo totalmente aproveitado por mais que eu me doasse 100% para aquilo” 

Vitória conta que na época onde trabalhou em gestão nesta escola conseguiu realizar uma ação onde arrecadava celulares para crianças carentes e assim ajudar na hora do ensino:

“Primeiro eu e meus colegas fomos em assistências técnicas, relatamos aos donos dessas lojas a realidade desses alunos e eles nos apoiaram, logo após pedimos patrocínio e conseguimos, com o resultado dessa ação mapeamos os alunos que mais necessitavam, fizemos visitas domiciliares e entregamos os celulares á eles.”

Aparelhos arrecadado por Vitória

Marcelo Ricardo Souza Ferreira estudante de pré vestibular contou sua experiência com a EAD e como isso afetou seu desempenho em um primeiro momento, por mais que seu curso hoje tenha aulas presenciais de forma híbrida e horario reduzido o estudante ainda não se acostumou com os percalços que o ensino a distância o faz enfrentar.

Marcelo em seu local de estudo

“Com a normatização e regulamentação por meio do estado e município meu curso aderiu ao sistema híbrido, mas ainda ocorre falha no exercício dessa atividade em conjunto. Com a evolução da pandemia e o passar do tempo eu decidi dividir a questão do acompanhar o ead e aprender com o ead, na minha mentalidade ficar horas em frente a uma tela de computador não proporciona o mesmo acolhimento e aprendizado que um quadro branco e um professor de forma presencial. Meus professores e principalmente a instituição que eu estudo sempre tiveram apreço e preocupação em ensinar, a figura do professor na pandemia pelo ead atingiram um grau de admiração por minha parte.”