SOS Patas, Recanto dos Peludos e GPAI agem de forma complementar em Imperatriz
Ana Beatriz Sousa
Ricardo Reis
A causa animal em Imperatriz encontra sua base em um triângulo de esforços incansáveis, composto pelas ONGs de acolhimento Recanto dos Peludos e a SOS Patas, e pela intervenção estratégica do Grupo de Proteção Animal de Imperatriz (GPAI). Embora cada uma atue em frentes distintas, como o resgate de vítimas de maus-tratos, atropelamentos, violência e abandono, todas convergem na mesma urgência: a luta diária contra a crise financeira em um cenário de ausência de suporte público.
A dedicação começa com a paixão pessoal. “Todo tempo eu pensava em cuidar dos animais, então, aí a minha casa foi virando o lar deles”, conta Lucineide Silva de Alencar, 57 anos. Hoje autônoma, a fundadora do Recanto dos Peludos já trabalhou de faxineira e seu amor pelos bichos era tão forte que a fez sonhar em ser veterinária. Lucineide recorda que, na época em que concluiu o ensino médio, o curso de Medicina Veterinária não existia em Imperatriz. O instinto de cuidar, no entanto, a levou a transformar sua própria casa em um abrigo para animais abandonados.

Em uma de suas primeiras histórias, após Lucineide resgatar uma cadela, um jovem casal e um amigo perceberam a ação, decidiram visitar o local e fizeram uma proposta no intuito de garantir doações e ajuda. “Naquele dia eles me procuraram se podia fazer um vídeo. E aí eu vi que eu não estava mais sozinha”, lembra. Graças aos colaboradores iniciais, o Recanto foi amplamente divulgado e se popularizou nas redes, atingindo os corações dos Imperatrizenses. Inicialmente, ela recolhia, tratava, e devolvia os animais às ruas, mas eles voltavam de forma sistemática, transformando a casa da Dona Lu no abrigo que hoje hospeda cerca de 250 companheiros, operando acima de sua capacidade de 230 animais.

Emocionada, a fundadora recorda a história de uma cachorrinha que veio do estado do Tocantins. “Eu trouxe para casa, passou mais de seis meses eu lutando, fazendo fisioterapia com ela”. Após um grave acidente com um carro, o animal teve uma das patas amputadas e muitos falaram que ele nunca mais iria ser o mesmo. “Ela voltou a andar. E ainda passou seis anos comigo”, detalhou.
Rotina e Sonhos
“Aqui a gente tem animais que dependem da gente, porque são deficientes”, comenta Lucineide, que começa a trabalhar às quatro da manhã e segue até as 23h. As atividades são dividas com mais três voluntários para dar conta da medicação contínua, banho, alimentação, verificar as baias, lavar o local, além dos cuidados especiais de deficientes e paraplégicos.
“Tem mês que a gente consegue cobrir as despesas. E tem mês que não, ficam abertas as contas”, explica os desafios diários que o abrigo passa, pois não conta com uma renda fixa e depende de ajuda da população para manter a instalação com consultas clínicas, medicamentos, ração, e produtos de limpeza. “Tudo isso gera um custo muito alto, porque a gente precisa disso todos os dias”, acrescentou. A entidade busca recursos para a castração e construção urgente de baias.
“Meu sonho é construir um santuário para aqueles cães idosos, gatos doentes sem cura e deficientes. Para eles viverem lá dentro, livres”, enfatiza Lucineide. Este espaço permitiria que o Recanto voltasse a ser uma casa de passagem, cumprindo seu papel de reabilitação e doação. E os animais não adotados teriam uma melhor qualidade de vida.
SOS Patas
Em outra ponta da cidade, a corretora de imóveis Vera Lúcia Barreto Nogueira, 57 anos, também conhecida como Vera Kinney, personifica a mesma entrega. Embora a SOS Patas tenha uma diretoria estruturada para a burocracia, Vera é a única responsável pelo trabalho braçal no local. “Eu chamo de santuário, sempre preservo o espaço. Aí eles têm área para se mexer e para brincar”, enfatiza.

A SOS Patas vive uma realidade mais precária, pois a sede da entidade é uma casa alugada por Vera, a fundadora da ONG, adaptada para dar o máximo de conforto aos quase 40 animais acolhidos até o momento, fora os outros 10, que “são alimentados, mas continuam nas ruas”. Sua batalha atual é para adquirir um terreno próprio, garantindo um espaço permanente para o santuário.
“Você vê o animal doente e não poder ajudar, porque o financeiro te impede, é complicado, e é o que mais acontece com a gente”. Vera ecoa essa dor, identificando o financiamento como a maior dificuldade da SOS Patas. Ela explica que o recurso não é apenas um entrave material, mas uma questão emocional e logística. “O financeiro é o que nos barra de muita coisa”, enfatiza. E lembra que, além de o poder público não oferecer auxílio, as doações são mínimas, fazendo com que o custo acabe recaindo sobre seu próprio bolso.

Vera, em um de seus relatos, conta a história do cachorrinho Bruce, resgatado na Vila Davi. Debilitado, ele foi diagnosticado com câncer na face (Tumor Venéreo Transmissível) e ainda realizou dez sessões de quimioterapia. Se curou, mas o processo foi doloroso. “Bruce morreu em um domingo, ao meu lado, quietinho, ele não morreu sozinho”, expôs, emocionada.
GPAI
Enquanto os abrigos lutam por acolhimento e estrutura, o GPAI atua no flanco da prevenção, focando no controle populacional. O trabalho do grupo é centrado em facilitar consultas e castrações a valores acessíveis em clínicas parceiras, além de auxiliar em procedimentos emergenciais, como cesarianas de emergência (quando a cadela ou gata não conseguem evoluir no trabalho de parto), cirurgias de piometra (pus no útero, causado principalmente pelo uso indiscriminado e inadequado de injeções anticoncepcionais), além de intervenções ortopédicas, entre outras. Seu objetivo é reduzir a fonte do problema que sobrecarrega os abrigos: o abandono.

O voluntário Francinaldo Júnior, 30 anos, explica que a GPAI precisou “regrar” suas atuações. “Quando tem essa palavra ONG, muitos já assimilam como um faz tudo para a pessoa”, manifesta. Eles mantiveram o foco na castração e fiscalização, com voluntárias comparecendo diariamente às clínicas parceiras para acompanhar consultas e procedimentos e, assim, evitar cobranças exorbitantes. A decisão veio após desativarem seu próprio abrigo em 2016, concluindo que o foco estratégico no controle populacional era mais eficiente para a cidade.
“Se tem um cachorro abandonado, um gato ferido, já tem aqueles que nos procuram como se fosse obrigação nossa, sendo que na prática é de todos”, destaca Francinaldo. Ele reforça que, se a ONG fosse atender a tudo que as pessoas procuram, muitas vezes para apenas se “livrar do problema”, a organização não conseguiria existir. A luta é, portanto, para que a responsabilidade não seja terceirizada apenas para o ombro das voluntárias, que já entregam sua vida, sua casa e seu dinheiro à causa.
O trabalho das ONGs de abrigo e do GPAI se cruza, por fim, no desafio da percepção da população. Lucineide e Vera Kinney buscam recursos para tratar os animais que a sociedade abandona, e o GPAI precisa da compreensão pública para manter seu foco estratégico.
O amanhã dessas organizações, e a vida dos mais de 300 animais que hoje dependem delas, está diretamente ligado à solidariedade da população. Colaborar é garantir a continuidade dos trabalhos de resgate, tratamento e controle populacional, fortalecendo a saúde pública e o futuro ético da cidade. Cada contribuição faz a diferença na vida dos animais e na construção de uma cidade mais solidária e responsável.
Serviço:
As doações podem ser feitas às seguintes entidades:
SOS Patas, com contribuições via Pix pela chave CNPJ 50.819.136/0001-04 e contato pelo telefone (99) 99191-1432.
Recanto dos Peludos, que recebe doações via Pix pela chave CNPJ 43.317.720/0001-98 e atende pelo telefone (99) 99114-1669.
GPAI – Grupo de Proteção Animal Independente, que aceita doações via Pix pelo número (99) 98464-9079, também disponível para contato.
Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2025.2, contou com a colaboração, nas correções finais, da aluna estagiária Milena do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul.