Rua XV de Novembro evolui de via residencial a entretenimento juvenil

Com 171 anos, primeira via da cidade carrega uma rica tapeçaria de histórias

Giovanna Paixão

Apesar de abrigar uma face menos reconhecida pelos mais antigos, a XV de Novembro ganha uma nova essência para jovens. As residências tradicionais, outrora lares de famílias, transformaram-se em vibrantes estabelecimentos. Bares e restaurantes agora ocupam esse espaço, infundindo na noite uma nova vitalidade, com estilos, perspectivas e estéticas únicas, gerando um significado especial e uma comunidade própria.

No passado, os estabelecimentos tinham uma atmosfera regional, incluindo lugares como Caneleiros, O Farol e Bar do Olimpio. Com o passar do tempo, a rua viu suas características evoluírem, distanciando-se do conceito original. Surgiram então novos pontos na cidade, como Happy Hour, Plataforma 16, Casa de Madrinha e Crafter!, que foram precursores, pavimentando o caminho para que tudo pudesse florescer nos dias atuais.

Rua XV em um desfile de 7 de setembro, nos anos 1960 (foto: Museu Virtual de Imperatriz)

Estilo Musical

No Meeting Jr., o rock ressoa no ar, criando uma atmosfera envolvente. A música alta preenche o espaço, enquanto duas televisões exibem alternadamente esportes como MMA, skate, basquete e clipes. A imersão é uma experiência única, na qual a energia do rock é o fio condutor. Quando se olha para seu antecessor, o Meeting Pub, percebemos sua própria identidade marcante. Com uma extensão generosa, era um espetáculo visual com led colorido, pinturas expressivas, mesas de sinuca e máquinas de fumaça, criando um espaço multifacetado e atrativo.

Charles Russo, um dos sócios, comenta sobre a relação de igualdade que mantém com os clientes, sempre lembrando que todos recebem o mesmo tratamento. “O juiz bebe no mesmo balcão que o vigia de carros, todos eram aceitos e atendidos com o mesmo tratamento”. Ele ressalta uma das frases escritas nas paredes do pub anterior: “Aqui todo mundo é baixa patente”.

Segundo o cliente Marcelo do Carmo, o lugar abraçou o estilo musical alternativo em uma região antes dominada por gêneros como pagode e sertanejo. O ambiente underground, com sua estética dark, promove uma sensação agradável aos olhos.

Calçada do Meeting Jr. movimenta a rua (foto: @gabriel.fortz)

Estes novos estabelecimentos que surgiram por volta de 2017 foram preenchendo e ganharam características da geração Z. O Pub Fiction destaca-se por sua iluminação cuidadosamente planejada do ponto de vista arquitetônico, incorporando uma estética industrial. Suas mesas de madeira retráteis adicionam versatilidade ao espaço.

A cartela de drinks vai desde clássicos, como o Dry Martini, até opções mais intrigantes, como Gin Fiction, e reflete a preocupação em oferecer opções acessíveis e inovadoras. O contexto acolhedor é acentuado não apenas pela atmosfera visualmente atraente, mas também pela escolha cuidadosa de uma playlist excepcional. Brunna Cunha, uma das proprietárias, comenta que a estética e o estilo musical não foram algo pré-estabelecido. “Foi criado ao decorrer do tempo pelo público que ia frequentando. Está em torno do indie, do rock, do pop, principalmente”.

Estabelecimento durante Copa do Mundo de 2022 (foto: @pubfictionitz)

Uma das características do contexto do público é o apoio LGBTQIA+. Brunna enfatiza que o ambiente tranquilo e livre de julgamentos atrai a atenção. “Eu diria que 70% dos frequentadores são da comunidade. Fico feliz com isso, embora não considere uma temática, já que nós (os donos) não fazemos parte dela. No entanto, somos muito gratos pelo público se sentir à vontade aqui”.

Identidade visual

No Casarão, as mesas mais disputadas ficam no quintal: um ambiente arborizado, a céu aberto, com ventiladores e grande circulação de pessoas. A iluminação colorida nos banheiros, as mesas de carretel e as cadeiras de plástico compõem o cenário inicial, rodeado por pinturas de artistas locais nas paredes escuras. Murais “instagramáveis” adicionam um toque especial, o diferencial das cervejas “litrão” e hambúrgueres batizados com nomes de carros antigos se harmonizam com a singularidade do espaço.

Ambiente rústico simula espaço de um “Casarão” (foto: @casarao1986)

Clezio Naodoph, que gerencia o estabelecimento desde o seu princípio, comenta que durante sua experiência percebeu a transformação com o crescimento das opções de entretenimento. “Aqui é um parque de diversões, você pode começar no Casarão com uma cerveja, seguir para o Pub Fiction para um drink, curtir um rock no Meeting e continuar explorando as possibilidades”.

Ele aponta a visão que tem sobre os consumidores. “Os alternativos são o público mais de boa que tem. Nada contra outros estilos, pois têm seu respaldo, mas é muito raro que aconteça confusões, discussões e bagunça”, comenta. Também classifica esse perfil de cliente como diversificado, “que se respeita e enxerga além da superficialidade e do julgamento.”. Conta que apesar de sua preferência pessoal por rock, o estilo musical é notavelmente eclético. Ele observa que, por incluir rap, MPB, pop,rap, e por um certo período, xote, a seleção atende tanto ao gosto do proprietário quanto do público. “Cada momento é marcado por um estilo musical”.

Jairton Sousa, frequentador assíduo, compartilha sua perspectiva sobre a mudança de estilo da XV.  “Sempre fui fã de música alternativa. Durante um período em que o lugar que eu costumava frequentar fechou, o Meeting tornou-se uma espécie de refúgio. Além de ser esteticamente agradável, atraiu pessoas que compartilhavam do mesmo gosto musical.”

Brunna menciona que um cliente expressou apreço pelo estabelecimento. Ao contrário de outros ambientes onde se sente inibido, neste local, ele acredita ser verdadeiramente aceito, pela postura de acolhimento, independente de cor, religião ou orientação sexual.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto também é notícia”, ou “Meu canto também tem história”, desenvolvido por estudantes do primeiro ano de Jornalismo da UFMA de Imperatriz. A intenção foi desenvolver as técnicas de pauta, apuração, entrevista, redação e edição com temas locais. Esta também é a primeira publicação individual desses e dessas estudantes.

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