Ressocialização:

Uma nova chance

Dyonnathas: reabilitação com pallets

Matheus Lopes e Júlio Araújo Na Penitenciária Regional de Imperatriz, também conhecida como PRITZ, localizada no bairro Itamar Guará, existem diferentes projetos de ressocialização e a promessa da criação de outros. Um desses projetos é a malharia, onde a roupa confeccionada é destinada tanto para os internos da unidade prisional como para outras penitenciárias da região. Tem ainda padaria, que serve para a produção do próprio alimento consumido no café da manhã. Mas, atualmente, talvez o que esteja mais em evidência seja o projeto Construarte, que já foi destaque na cidade, por já ter sido apresentado no Shopping Imperial, Salimp, Fecoimp e em outros eventos que expõem as peças feitas de pallets, que vão de utensílios e decoração à móveis feitos à mão. Escutar o som da serra e batidas de martelo contra o pallet logo pela manhã, é algo já comum nos dias dos internos que estão aptos a fazerem parte da ação de ressocialização encabeçada pela Construarte. Não é para qualquer um. Para participar, existe todo um preparo da equipe técnica da penitenciária junto com a diretoria e seguranças que avaliam o interno, com base no comportamento e o seu tempo de pena. Boa parte dos aprendizes do projeto Construarte cometeu algum homicídio. Hoje, em média, o projeto possui oito internos que estão passando pelo processo de ressocialização. O número é pouco expressivo se comparado à quantidade de presos do local, que chega próximo de 180 em um presídio que foi construído para ter a capacidade de receber até 210 internos, com o objetivo de aliviar a falta de vagas no sistema carcerário do estado, destinando-se a receber aqueles que cumprem diversos tipos de regime. Mas, de certa forma, é um começo. Enquanto preparamos o equipamento para fazer algumas imagens, procuramos ficar atento ao trabalho de um dos internos que trabalha na oficina da Construarte, Dyonnathas Douglas dos Santos, de 26 anos. Ao examiná-lo de longe a intento de adivinhar qual peça ele manuseava contra a serra e onde que iria ser encaixada, percebemos que estava tão centrado em seu trabalho que mal prestava atenção em quem estava próximo. Examinava a peça, serrava, andava uns três metros até onde montava um objeto, depois voltava e tornava a serrar novamente, procurando aperfeiçoar mais ainda o acabamento. Era uma coruja decorativa, de quase trinta centímetros. Aproximamo-nos, olhamos em volta e vemos renas, adegas, árvores e outros objetos variados do pallet, então perguntamos se era alguma encomenda. “São, estamos fazendo para uma feira de artesanato que vai ter”, responde. Convidamo-no para dar entrevista, e então ele começa a indagar sobre o que falar, ficando aparentemente nervoso. Manuseando as peças com cuidado, ele vai terminando de confeccionar a coruja e prepara mais uma demão de verniz.

Boa parte dos aprendizes do projeto Construarte cometeu algum homicídio. Hoje, em média, o projeto possui oito internos que estão passando pelo processo de ressocialização.

Já envolvido no projeto, Dyonnathas demonstra estar satisfeito em ter conseguido o trabalho. “Graças a Deus, consegui esse emprego aqui na Construarte, para mim aprender uma profissão, [a] de mexer com móveis planejados com pallets“, conta. Preso por homicídio, em seus três anos de prisão diz ter aprendido lições de vida e comportamento. “Neste lugar, aqui, é um lugar que a gente aprende muita coisa. A gente aprende a [como] entrar e sair, em qualquer estabelecimento. A gente aprende a se comunicar com as outras pessoas sem ignorância”, acrescenta. Àquela altura o entrevistado estava mais à vontade para continuar contando sua história dentro da penitenciária, visto que outrora estava nervoso e inseguro sobre a ideia de encarar a câmera. Segundo o Relatório Estatístico-Analítico do Sistema Prisional do Estado do Maranhão, o último disponibilizado em dezembro de 2014, das 32 unidades prisionais do estado, apenas quatro possuíam uma oficina permanente para a capacitação dos internos. Sendo: uma unidade com oficina de panificação com capacidade para 20 pessoas, e mais três unidades que executavam atividades artesanais, com capacidade para 36 pessoas. Embora o trabalho já seja conhecido por uma parcela da população imperatrizense, ainda assim nem todos conhecem como funciona o projeto e em que contribui na unidade prisional e para a sociedade. “Como todos nós que estamos aqui nesse lugar, precisamos de uma oportunidade. Tem muitas pessoas aí fora que não acreditam em nossa ressocialização”, desabafa Dyonnathas sobre a necessidade da sociedade conhecer o trabalho de reabilitação que é feito com os internos da Penitenciária Regional de Imperatriz. Os esforços para que a ressocialização tenha êxito dependem mais ainda do empenho de quem faz parte da oficina. Ter essa ocupação dentro da penitenciária é, muitas vezes, crucial para que os internos consigam uma outra perspectiva de vida enquanto cumprem sua pena. Dyonnathas conta que aquele trabalho ajuda a manter sua mente focada em outra coisa, pois dentro da cela sem alguma distração, fica passível a pensamentos negativos. Outros internos que fazem parte do projeto relatam a mesma situação, e ressaltam que se sentem gratos por estarem ali todos os dias trabalhando na oficina de pallets. Também reconhecem que o projeto auxilia na redução de um dia da pena quando trabalham três dias. Para ele, participar das atividades dá mais ânimo para pensar em uma saída da prisão transformado: “(…) É sair daqui uma pessoa digna, de cabeça erguida e dar a volta por cima de tudo isso que a gente está passando dentro desse sistema prisional”, diz. “Então, a gente vem frisar aqui a todos vocês que todos nós que se encontra preso, a gente tem capacidade de ressocializar sim, [e estar] novamente na sociedade, depende de cada um de nós”, conta ele. Dyonnathas também tem sonho. Após cumprimento da pena, quer voltar a trabalhar com gesso, pois antes dali, exercia essa função. “Penso em montar minha fábrica, porque sou profissional; sei fazer todos os acessórios de gesso, forro, todo tipo de forro decorado, sei fazer adegas de gesso, sei fazer colunas gregas, sei fazer estante, divisória, parede. Então, sou um grande profissional nessa área”, conta ele que incluirá ainda o seu aprendizado na construção de móveis com pallets para complementar o seu ofício e renda. Arrepender-se daquilo que fez de errado, é tão humano quanto cometer algum erro. Redimir-se de seus atos em uma penitenciária leva a momentos de reflexão sobre a vida que está perdendo do outro lado dos muros. “Anoitecer e amanhecer nesse lugar aqui, longe dos familiares, dos nossos entes queridos, que a gente ama de verdade, a gente aprende. A gente aprende a poder caminhar direitinho, respeitar todo mundo para – um dia – quando a gente sair desse lugar aqui, a gente não retornar mais. Porque é doloroso. No decorrer do dia a dia, você sente saudades dos seus filhos, da sua mãe, do seu pai e você não pode ir lá onde eles estão, porque você está pagando por uma coisa que você cometeu”.

Segundo o último Relatório Estatístico-Analítico do Sistema Prisional do Estado do Maranhão (2014): Apenas quatro unidades prisionais possuíam uma oficina permanente para a capacitação dos internos. Sendo: uma unidade com oficina de panificação com capacidade para 20 pessoas, e mais três unidades que executavam atividades artesanais, com capacidade para 36 pessoas.

“Anoitecer e amanhecer nesse lugar aqui, longe dos familiares, dos nossos entes queridos, que a gente ama de verdade, a gente aprende. A gente aprende a poder caminhar direitinho, respeitar todo mundo para – um dia – quando a gente sair desse lugar aqui, a gente não retornar mais. Porque é doloroso.”

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