A dor silenciada: consequências da violência obstétrica

A DOR SILENCIADA: CONSEQUÊNCIAS DA VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA

POR BRENDA LIMA, ANA BEATRIZ IBIAPINO E ELDA CARVALHO

Uma em cada quatro mulheres já foi vítima de violência obstétrica, indica pesquisa.

“Quando eu estava na sala de parto, um médico com um porte físico muito maior que o meu, apoiou seus braços sobre minha barriga, empurrou com tanta força que eu quase perdi o ar, a ponto de quase perder a consciência”. Fernanda Carvalho, 26 anos.

Toda mulher ao engravidar sonha com um momento mágico da gestação, o momento do parto, como será, se vai ser tranquilo, o bebê ficará saudável.  Infelizmente, este momento tão importante para as parturientes pode ser marcado por traumas de uma violência obstétrica. É o que indica a pesquisa “Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado” realizada pela Fundação Perseu Abramo em 2010. Segundo a pesquisa, uma em cada quatro mulheres no Brasil já foi vítima de violência obstétrica.

Além disso, o Brasil ocupa o segundo lugar no mundo com os maiores números de cesarianas.  Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 55,6% dos 2,9 milhões de partos realizados no país anualmente são cirúrgicos. Somente em hospitais particulares o índice é 84, 6% de acordo com dados do ministério da saúde. Desde 1985, a comunidade médica internacional considera que a taxa ideal de cesárea seria entre 10% a 15%. A cesariana quando realizada por motivos de risco a saúde da mãe e do bebê podem reduzir a mortalidade materna e perinatal. No entanto, não existem evidencias de que a realização de cesáreas em mulheres que não necessitam da cirurgia, traga benefícios. Em alguns casos a realização da cirurgia pode ser considerada violência obstétrica.

“Eu ainda sinto muita dor na cicatriz”

Foto/Acervo Pessoal.

Em um relato difícil e marcado pelo trauma, Fernanda carvalho, 26, auxiliar de serviços gerais, descreve a violência física e psicológica que sofreu por parte da equipe médica durante o parto do seu filho na rede pública.

“um médico com um porte físico muito maior que o meu, apoiou seus braços sobre minha barriga, empurrou com tanta força que eu quase perdi o ar, a ponto de quase perder a consciência”.

Fernanda acrescenta que foi um momento difícil ver o sonho da maternidade virar um pesadelo. ” Os médicos ficavam jogando piadinhas, um para o outro. – É parto normal doutor, deixa que te ajudo’ e empurrava minha barriga”. Além da Manobra de Kristeller (prática de empurrar a barriga), Fernanda diz que o médico realizou uma Episiotomia (corte na região do períneo, entre a vagina e o ânus). “Vários cortes laterais e uso de fórceps para puxar meu filho”.

Tanto a Manobra de Kristeller como a Episiotomia são consideradas práticas incorretas e que não devem ser realizadas. A recomendação faz parte do Guia dos Direitos da Gestante .e do Bebê produzido pela UNICEF e Ministério da Saúde.

Em decorrência da episiotomia, a auxiliar de serviços gerais relata que ainda sente muita dor no local da cicatriz. Ela também diz que o medo que já tinha de ir ao hospital aumentou depois do ocorrido. “Não quero mais nem saber de regional na minha vida”, enfatiza

“Tive que esperar das 7h da manhã até às 3h da tarde para ter minha filha”

Gleyciane Silva Alves, também foi outra mulher que viveu uma experiência dramática de violência. “Tinha que fazer uma Cesária e mesmo com os papéis em mãos tive que esperar das 7 da manha ate as 3 da tarde para ter minha filha”, destaca indignada. A jovem conta que foi tratada mal pelo médico e relata uma situação de desespero, pois na pandemia ela não pode ter acompanhante. Ela diz que teve uma crise de pânico pois se sentiu sozinha naquele momento e não tinha ninguém que ela conhecia, ” eu estava sem conseguir respirar, muito agoniada, sem poder ter minha mãe, pior coisa do mundo, e eles não estão nem aí.”, relembra.

 Entendendo o conceito de Violência Obstétrica e a Lei

O termo violência obstétrico não possui uma definição fechada e ainda existem discussões sobre quais práticas são consideradas violência obstétrica. Mas há algumas definições apresentadas por alguns governos e organizações. Países como a Venezuela, Argentina e México utilizam o termo em sua legislação.

Segundo a Enfermeira Obstétrica e Doula, Agda Pisto a violência obstétrica é qualquer violência ligada a gestação, parto e pós-parto. “Ela não é só física, podendo ser emocional, com palavras, agressões e intervenções feitas sem o consentimento da mulher, ou seja, tudo que é feito sem ser explicado, e sem o consentimento dela é violação obstétrica”, pontua.

A enfermeira cita como exemplo casos de alguns médicos que estão acostumados a realizar partos da mesma maneira. Ouça o audio:

De acordo a pesquisa “Nascer no Brasil: inquérito nacional sobre parto e nascimento” realizada pela Fiocruz e publicada em 2014. Entre as 23 mil mulheres entrevistadas, 53,5% afirmaram ter passado por uma Episiotomia durante o parto.  71% delas afirmaram não ter tido direito acompanhante e 25% forma desrespeitadas na gestação e no parto.

Para com a psicóloga Bianka Azevedo Morais, a violência obstétrica pode trazer consequências psicológicas graves para as mães. Influenciando na qualidade do vínculo mãe e bebê e até criando uma barreira física e afetiva entre ela e parceiro. “Se essa mulher guarda esse trauma pra ela, no momento do nascimento do bebê. Ela pode associar que aquela situação fez mal pra ela, foi ruim. Podendo ter dificuldade de se vincular  com seu bebê, ou um medo exagerado de uma próxima gestação”, ressalta.

Em relação a lei a advogada Juliana dos Santos explica que infelizmente no Brasil não há atualmente uma legislação federal específica contra a violência obstétrica, mas há iniciativas estaduais e municipais. “Como não possui lei específica para casos de violência obstétrica, o judiciário se ampara nas leis vigentes. Neste contexto, a à violência obstétrica é regulada, mesmo que indiretamente pela constituição Federal”, destaca a advogada.

A advogada também destaca que em casos de violação da constituição, a pessoa será responsabilizada de acordo com a lei. No código de Ética da conduta Médica, Resolução n° 1.931 de 2009, do Conselho Federal de Medicina, veda aos médicos, em um capítulo dedicado aos Direitos Humanos, condutas que se encaixam perfeitamente na ocorrência de violência obstétrica:

“Art. 23. Tratar o ser humano sem civilidade ou consideração, desrespeitar sua dignidade ou discriminá-lo de qualquer forma ou sob qualquer pretexto.

Art. 28. Desrespeitar o interesse e a integridade do paciente em qualquer instituição na qual esteja recolhido, independentemente da própria vontade.”

Os médicos e enfermeiros que descumprirem tais dispositivos, estão sujeitos às sanções disciplinares que vão desde de uma advertência, à uma possível cassação do exercício profissional, pois, “a relação médico-paciente deve se basear no princípio da dignidade humana”, destaca ela.

Humanização e Protagonismo Feminino

Em meio às estatísticas assustadoras de violência obstétrica, entidades que lutam pelo direito das mulheres e profissionais da área da saúde têm buscado maneiras de incentivar e proporcionar as mulheres um parto mais humanizado e sem intervenções desnecessárias.

Se você pensou em parto humanizado, lembre-se é o priorizar o atendimento para a gestante e o bebê com respeito em atitudes pautadas no conhecimento científico, não só no parto em si. É ter a mãe como protagonista do momento, entender o que está acontecendo e poder participar do parto transformando- o em algo único.

A médica obstétrica, Larissa Cassiano, 33 anos diz, “o parto humanizado é uma forma de acompanhamento e não de nascimento, é a mulher ter seu protagonismo feminino durante a gestação até dar à luz”.

A enfermeira obstétrica e Doula, Agda Porto enfatiza que a diferença do parto humanizado está “no respeito, no protagonismo feminino. É você escutar a mulher que está parindo, ela ser a dona do processo. Médico não está ali só pra fazer, mas para escutar e realizar alguma intervenção quando for necessário”.

A doula também esclarece que o parto humanizado não é simplesmente parir em casa, na água, ou um parto que ninguém faz nada. Ouça o aúdio:

Agda Porto explica sobre assistência no parto humanizado

por Nome do Artista

A enfermeira destaca que assim como no parto tradicional, o parto humanizado também pode ter risco, porém ela enfatiza que toda a equipe está preparada para lidar com os possíveis riscos. Antes de qualquer possível intervenção, tudo é conversado e esclarecido junto com a parturiente.