Voz Literária · Quem vive conta

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Renovação da Praça de Fátima provoca reações diversas

Encanto e insatisfação acompanham reforma do tradicional ponto de Imperatriz

Vitória Elisabete Costa Matos

Fundada em 1954, a Praça Nossa Senhora de Fátima, ao longo dos anos, passou por diversas melhorias em sua estrutura e se tornou um importante ponto de encontro da comunidade imperatrizense. O local abrigava, até então, Igreja Nossa Senhora de Fátima, um dos principais centros históricos e cartão postal da cidade sul-maranhense. O local reunia comércio, lazer e convivência, com quiosques de lanches, venda de roupas e feiras realizadas às quartas-feiras e aos sábados.

No entanto, o cenário mudou após a revitalização, cuja obra começou em agosto de 2023. O projeto, idealizado pela Diocese com o apoio da prefeitura, visou modernizar o espaço e ampliar a Catedral Nossa Senhora de Fátima. As mudanças também tiveram o objetivo de valorizar o patrimônio histórico e sagrado da cidade, além de promover o turismo religioso e proporcionar um ambiente organizado para moradores, fiéis e visitantes. Desde a sua reinauguração (13 de outubro de 2025), o lugar passou a contar com uma estrutura voltada para realização de eventos e celebrações religiosas.

Primeira Igreja Nossa Senhora de Fátima. Imperatriz (MA), início dos anos 1960. (foto: acervo IBGE)

Embora a Praça de Fátima fosse utilizada pela população como um espaço público, a propriedade pertencia à Diocese de Imperatriz. Durante décadas, lanchonetes e feirantes ocuparam o local, tornando-o um importante ponto de encontro da cidade. Porém, por se tratar de uma área privada, a instituição tinha autonomia para decidir sobre o terreno. Esse fator foi determinante para que o projeto pudesse ser executado em parceria com a prefeitura. A inauguração da Praça e da Catedral de Fátima revitalizadas ocorreu em outubro de 2025, recebendo a “Fonte das Aparições” posteriormente, em fevereiro de 2026.

Para que as alterações no espaço acontecessem, uma decisão difícil teria que ser tomada: a realocação dos comerciantes da Praça de Fátima. De acordo com os trabalhadores, a notícia começou como um boato, mas logo passou a preocupar aqueles que tiravam dali sua fonte de renda. Em junho de 2023, a Prefeitura de Imperatriz realizou reuniões com os comerciantes para discutir a realocação e informou que eles teriam 60 dias para desocupar o espaço.

Posteriormente, em 27 de agosto de 2023, o Município divulgou uma nota oficial afirmando que a retirada ocorria em cumprimento ao Termo de Cooperação Técnica firmado com a Diocese e que o processo só seria concluído após o encerramento do prazo.

A realocação dos comerciantes, mesmo com a oferta de remanejamento para a Praça União, o Shopping da Cidade, o Panelódromo e a Beira-Rio, tornou-se o principal ponto de debate da revitalização, gerando críticas e insatisfação entre trabalhadores que construíram sua fonte de renda e parte de sua história na praça. A administração municipal afirmou ainda que sua participação consistia em organizar a saída dos trabalhadores e oferecer espaços para que continuassem exercendo suas atividades.

Diferentes perspectivas

Porém, nem todos os trabalhadores avaliam o processo da mesma forma. Cleyton Sousa da Conceição, proprietário de uma lanchonete que costumava ficar na Praça de Fátima, decidiu continuar trabalhando nas proximidades, a fim de permanecer perto dos clientes que já conheciam seu trabalho. “Antes eles fizeram a reunião, falando que iam realocar, mas depois ficou por isso mesmo. Não teve nenhum apoio”, afirma.

De acordo com Cleyton, tinham sido prometidos outros debates para atender aos comerciantes em relação à realocação. No entanto, ao chegar ao local que foi ofertado para montar as barracas, a realidade era diferente do que a prefeitura prometera. “Lá só tá falando ‘não pode botar, não pode botar’. E disse que iam botar um local, e até agora…”, expõe. A experiência demonstra que, para alguns comerciantes, o maior desafio não foi apenas deixar a Praça de Fátima, mas lidar com as incertezas durante o processo.

Feira orgânica na Praça Nossa Senhora de Fátima, em 2018, movimentava o comércio. (foto: Assessoria Prefeitura de Imperatriz)

A mudança também foi vivida de forma emocional por quem construiu sua história na região. Maria Barbosa de Menezes costumava vender roupas na Praça Nossa Senhora de Fátima e enfrentou o desafio da saída. “Eu recebi [a notícia] com uma certa preocupação, porque naquele momento era de onde a gente tirava a nossa sobrevivência”, relata.

A comerciante trabalhou no local por quase seis anos e, quando se mudou, entrou no ramo alimentício, mas lembra com carinho do tempo que passou. “Quando a gente faz o que a gente gosta, acaba sentindo falta, não só do trabalho, mas das amizades que construiu lá”, conta. Embora tenha sido necessário deixar o local, Maria reconhece a melhoria que a reforma trouxe para a cidade. “Enquanto muitos achavam ruim, eu, no fundo, achava legal, né? Porque eu sempre vi a Praça de Fátima como o coração da nossa cidade”, comenta. Hoje, quando observa o espaço, Maria o considera bonito. “E fico muito feliz de ver a nossa cidade com um cartão postal, como a Praça e a Catedral de Fátima.”

Além dos comerciantes, aqueles que conheciam a antiga praça também sentiram as mudanças. Daniel Leles, de 20 anos, deixou de visitar o local após a reforma. “Eu não frequento mais, porque quando eu ia lá, eu ia com os meus amigos, me reunir nas lanchonetes e depois elas mudaram de local. Então, não tem mais um motivo de eu ir na Praça de Fátima”, revela.

Apesar das críticas relacionadas à revitalização, a Praça e a Catedral de Nossa Senhora de Fátima receberam também avaliações positivas, especialmente de quem conheceu o espaço após a reforma. A nova estrutura transformou o local em um espaço moderno e organizado, chamando atenção de moradores e visitantes. Maria Gabrielly Arruda Ribeiro, de 17 anos, chegou em Imperatriz em 2024, período em que a obra já havia sido iniciada, por isso não conheceu a área antes da transformação. “Eu fui lá no Natal e aquela praça ficou cheia de gente para a atração que teve lá. A reforma foi muito boa, ficou um espaço muito bom, ficou muito bonita a igreja. Realmente um ambiente muito bom”, comenta.

Catedral de Nossa Senhora de Fátima foi reinaugurada no dia 13 de outubro de 2026. (foto: Assessoria Prefeitura de Imperatriz)

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.