Uma imersão nas tradições e vivências de candomblecistas no coração do Maranhão
Victor Medrado
No dia 2 de fevereiro, Carlos Lourenço da Silva de Sousa, pai de santo de 25 anos, acordou às pressas para realizar, no seu pequeno recinto, uma oferta à divindade africana Iemanjá. A cerimônia, que acontece rigorosamente todos os anos, apresenta traços precisos sobre a maneira como o Candomblé se manifesta em Imperatriz.
No chão mesmo, dispôs as imagens que representam a Orixá das mais diversas formas (branca ou preta) e, ainda, de santas católicas sincréticas. No centro, colocou um quadro com a fotografia da Princesa Juliana de Guaré, entidade encantada presente nos ritos de Umbanda.
À frente e ao redor das figuras, foram oferecidas as comidas de santo ritualísticas do Candomblé: primeiro à rainha das águas, Iemanjá, que é composta por um peixe cru de água salgada, rodeado de quatro ovos cozidos, sobre uma boa quantidade de milho branco, tudo dentro de uma gamela de porcelana.
Em seguida, dividiu em dois pratos 14 acaçás, que consistem em um punhado de farinha de arroz preparado como mingau e enrolado em folhas de bananeira, além dos caribôs, aprontados de maneira semelhante. No canto, pôs pequenos pratos com doces de chocolate dedicados para os Erês, as crianças encantadas. E, por fim, serviu champagne em taças de cristal e água em copos americanos.
O ritual prosseguiu com a reza de um terço católico prestada a três Nossa Senhoras: dos Navegantes, da Guia e das Candeias e finalizou com a oração dos benditos. Pai Lourenço e seus filhos encerraram cantando pontos de Umbanda, em português, e cantigas do Candomblé, na língua iorubá, para celebrar e exaltar a importância da divindade, que é entendida como mãe de todos os Orixás.

O Candomblé é uma religião afro-brasileira que se baseia em crenças e práticas africanas. Como categoriza o etnógrafo e antropólogo franco-brasileiro, Pierre Verger, trata-se das tradições dos antepassados trazidos do continente africano, que resistiram às perseguições e imposições da religião dos seus senhores.
Dentre os cultos de matriz africana no Maranhão, o Candomblé juntamente com o Tambor de Mina, podem ser considerados os mais ortodoxos. Ambas as práticas detêm complexos rituais iniciáticos, que exigem o cumprimento de preceitos restritivos específicos ordenados por pai ou mãe de santo.
A primeira experiência de Lourenço com o culto foi ainda na sua infância, quando acompanhava sua mãe e sua avó. “Eu nasci e me criei numa casa de nação Ketu, a Tenda Espírita Oxum Obaluaê”, explica. O local fica no bairro Bom Sucesso e é presidido por mãe Maria da Consolação, mais conhecida como Escurinha.
Lá, conheceu os primeiros procedimentos ritualísticos, começando com Merindilogun, o sistema divinatório africano identificado popularmente como Jogo de Búzios. “Pela data de nascimento se acusa o Odú [divindades que regem o destino] e pela resposta do búzio se confirma o Orixá, Inquice ou Vodum, vai depender da nação”, elucida. “A partir da hora do seu Orixá, você vê se tem caminho dentro do Candomblé”.
Orixás são divindades que, à princípio, representam forças da natureza, mas a definição pode ser mais complexa. São ancestrais que antes viveram na terra e souberam estabelecer um controle sobre essa própria força natural. “As relações entre eles e os seres vivos possuem um caráter inteiramente familiar. As divindades africanas retornam à Terra, da qual parecem ter conservado a nostalgia, para receber saudações e oferendas dos homens e conceder-lhes por sua vez, sua proteção”, destaca o etnólogo e escritor Pierre Verger, no seu estudo Notas sobre o culto aos Orixás e Voduns.
Mãe Escurinha aplicou-lhe um descarrego geral “de tudo o que a boca come”, o Ebó. Uma limpeza fortíssima, orientada a partir das respostas dos oráculos. “Não se faz por qualquer razão, e tem que ter a especificidade do problema. Depende do motivo, das circunstâncias e probabilidades para ser realizado”, esclarece Lourenço.

Ele se classifica como filósofo. “Então, em tudo o que eu acredito, eu tenho que ter certeza. Por isso eu vou buscar conhecimento e executar aquilo que faz sentido”. Foi com isso em mente que, aos 14 anos de idade, saiu com alguns amigos para visitar um terreiro de Candomblé Angola, próximo ao município de Buritirana. Ele só não imaginava que seria nesta breve passagem, durante a festa da divindade dos ventos, Iansã, que bolaria no santo e teria que dedicar três anos da sua vida para esse barracão.
Como Lourenço descreve, é tradição e lei no Candomblé que todos que assistem o rum [saída] do santo [Orixá] estejam ajoelhados e com as palmas das mãos levantadas. O babalorixá [pai de santo] e o Ogã [responsável pelo toque do atabaque] são os únicos que ficam de pé na gira. E todos esperam, ao redor do salão, beirando as paredes. O Orixá sai e saúda as pessoas da casa e as de fora. Lourenço relata que quando foi saudado por Oyá, foi completamente apagado.
Geralmente, o Orixá incorporado no seu filho rola no chão. É papel da Ekedi, ou mamãe criadoura, pedir licença e cobri-lo com uma manta, para levantá-lo e recolhê-lo ao Roncó, o quarto de segredo. Lá dentro, o babalorixá suspende o transe. A partir daí, acontecem uma série de diálogos para que o visitante entenda o que aconteceu. “Nesse momento, você inicia sua trilhagem. Pode ser que haja caminho, mas nem todo mundo que bola no santo ficou para ser feito. É assim”, comenta o jovem zelador de santo.
Após este acontecimento, Lourenço deu continuidade na sua formação, mas dessa vez sob os cuidados do Pai José Ferreira Eduardo, hoje falecido, nessa mesma casa onde havia bolado. A chegada inesperada do santo de Lourenço significava a pressa que a divindade tinha, o que culminou na necessidade de uma iniciação no Candomblé.
“Foi Pai Eduardo quem me iniciou. Eu havia feito um ano e seis meses de preceito sem carne vermelha, sem peixe de couro, sem namorar e várias outras restrições que a gente cumpre antes da iniciação”, revela Lourenço.
Terminada a limpeza e os ebós iniciais, o Abiã [iniciante] está pronto para o Borí, rito conhecido como “dar de comer a cabeça”, que alimenta o Orixá Orí. “Ele existe e é a primeira divindade do nosso corpo, que fica na cabeça, e o nosso principal fundamento”, informa Lourenço. Segundo Roger Sansi, é um receptor de poder e alimentar-lhe é como “fechar o corpo”, protegendo de feitiços e energias negativas. No ritual, são ofertados banquetes e sacrificados alguns animais correspondentes ao orixá do iniciado.
A última etapa dentro dos ritos de iniciação é o momento em que o Iaô estabelecerá conexão com a divindade por meio do transe, propiciado pelo sacrifício animal e corporal do iniciado durante o rito. Na feitura do Santo, abre-se o Farim, que é uma incisão no centro do Orí, impedindo que algo mau possa entrar pela cabeça do filho de santo, mas que facilita também a ligação com o seu Orixá. “Essa é a hora em que seu ancestral vira na sua cabeça e ele recebe vida. Você morre para o mundo e nasce para o Santo no Candomblé. Essa é a feitura,” complementa Pai Lourenço.

Coletividade e aprendizado
O Candomblé torna seus adeptos membros de uma coletividade familiar, espiritual, para a qual são hereditariamente preparados. Essa forma de organização social proporciona-lhes uma segurança e uma estabilidade que nem sempre reencontraram na nossa civilização.
Neuza da Silva, 79 anos, avó de Carlos Lourenço, foi a primeira filha de santo, em Imperatriz, da Mãe Escurinha. Ela tinha episódios de desequilíbrios, nos quais corria pelo bairro São José a qualquer hora da noite e com dores de cabeça. “Eu vivia muito doente, faltava perder o sentido. Uma hora via as coisas, e outra hora não via”, lembra.
O seu marido, ao procurar por ajuda, foi direcionado para a Tenda de Oxum Obaluaê, onde o encontro de Dona Neuza com sua futura mãe de santo foi marcado pela melhora. “Graças a Deus, foi eu entrar lá que ela cuidou de mim, e até hoje eu faço parte”, conta Neuza.

Neuza admite que nunca quis ter o cargo de zeladora de santo. “Minha mãe de santo perguntava: ‘Minha filha, o que tu pretende?’ E eu respondia: ‘Eu pretendo mesmo ser só sua filha e cuidar das minhas coisas’. Não é brincadeira, a gente sofre. Eu tenho meus Orixás confirmados, batizados e coroados. As minhas obrigações, eu sei os dias, sei as horas, e eu deixo tudo quieto, em segredo. Só ela mesmo que me explicou muita coisa”.
Por questões de saúde, Mãe Escurinha paralisou as atividades do seu barracão, e, em consequência disto, Neuza comenta que não sai mais para brincar tambor em outros terreiros. “Era só com ela, quando nós íamos ganhar noites e festejos. A gente estava feliz”.
A experiência que Pai Lourenço teve nesse mesmo terreiro, leva-o a querer espelhar as práticas de Escurinha. “No meu ponto de vista, o trabalho e o modo como ela executava, o amor e o carinho, a dedicação de negar a própria vida para o Candomblé, é uma coisa que eu ainda não vi em outros zeladores de santo”.
Maria da Consolação preparava seus filhos para o mundo. Mãe de muitos pais e mães de santo em Imperatriz, feitos com o carinho e responsabilidade que o Candomblé exige. “A forma que eu trabalho hoje em dia, é a forma que ela trabalhava”, conclui Lourenço.
“Eu procuro trazer as formas mais delicadas, mais geniais, mais perfeitas para os meus filhos, para que eles não passem pela dificuldade que eu tive de aprender, nem por o que eu tive que ralar, suar, sofrer para chegar onde eu cheguei”. Carlos Lourenço é dirigente e mestre do Recinto São Lourenço, que conta atualmente com nove filhos de santo.
Os adeptos do Candomblé emanam um sentimento de orgulho em relação ao poder de seus ancestrais, os Orixás, que, para eles, nos momentos de dificuldade, são o amparo mais seguro contra a angústia e as humilhações. E que, nos momentos de alegria, lhes proporcionam o sentimento de pertencimento.
“Às vezes, eu estou assim, pensando em uma coisa aqui em casa que preciso resolver. Aí a gente sustenta, tem que ser na vontade de Deus, ele é quem sabe. Seu eu merecer, vai ser resolvido esse problema. Resolve que eu nem vejo a hora. É assim”, encerra Dona Neuza.
Esta matéria faz parte do projeto da disciplina de Redação Jornalística do curso de Jornalismo da UFMA de Imperatriz, chamado “Meu canto também tem histórias”. Os alunos e alunas foram incentivados a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. Essa é a primeira publicação oficial e individual de todas, todos e todes.