Entrevistados relatam os preconceitos e aventuras na escolha de uma vida errante
Elson Supapinho
Eles percorrem o Brasil em boleias de caminhões, pegando carona ou desbravando as rodovias a pé, onde “manguear” é um verbo diário. A cada chegada, enfrentam os preconceitos por suas escolhas, carregando nas mochilas não apenas sonhos e alguns traumas, mas também poucas roupas, pois quanto menos peso, melhor. Deixam para trás as suas famílias e, na maioria das vezes, suas histórias. Não buscam estabilidade. Sobrevivem com trabalhos esporádicos, vivendo conforme é possível.
Nas cidades que oferecem abrigos públicos, encontram alimentação, um lugar para dormir e tomar banho. Quando essas opções faltam, resta a solidariedade de outros para garantir a sobrevivência. Dormem em praças e calçadas, e se banham em postos de combustíveis — uma rotina que muitos afirmam estar cada vez mais difícil. Assim é a vida de um “trecheiro”. Muitas vezes, tornam-se invisíveis para uma sociedade que cada vez mais se esquece do outro.

Marquinho, o vaqueiro
Marquinho dos Santos, 44 anos, natural de Governador Valadares, Minas Gerais, é vaqueiro e trecheiro há 27 anos. Sua história começa com uma infância difícil, na qual a perda e a violência familiar o impulsionaram para o mundo. “Em 1994, perdi minha irmã em um acidente de carro, junto com duas sobrinhas. Não demorou muito para perder um irmão, picado por um escorpião, e mais três tios, todos vítimas do câncer”, lembra ele, com um olhar que transmite a dor. Essas experiências, somadas a uma infância difícil, tornaram a estrada um refúgio. “Com 8 anos comecei a trabalhar. Meu pai era muito rígido e batia nos meus irmãos. Minha mãe nos criou sozinha, e nós começamos a ajudar ela”, diz, resignado.

Mesmo com as adversidades, sentiu-se impulsionado a buscar algo mais do que a vida aparentemente predestinada para ele. “Quando saí para a estrada, foi em busca de liberdade”, admite. A estrada tornou-se um caminho sem volta, e sua trajetória de vaqueiro se entrelaça com a luta diária de quem escolhe viver ao sabor do vento, longe das amarras da sociedade convencional. “Em 1998, comecei a trabalhar em uma fazenda. Casei, comprei uma casa, tinha tudo o que precisava. Depois, vivi 14 anos com minha mulher, com quem tive três filhos. Mas algo dentro de mim me disse que não era aquele o meu caminho. Decidi continuar no ‘mundão’, entende? A estrada tem perdas e ganhos, não podemos desistir”, reflete Marquinho.
Ao longo de sua jornada, ele experimentou o que a vida de um “trecheiro” significa, tanto no campo das dificuldades quanto nas descobertas. “O trecho não é tão ruim, mas tem suas dificuldades. Como morador de rua, já enfrentei muitas situações. São três tipos, sabe? Viajar de cidade em cidade, trabalhando quando a grana tá curta, a gente acaba indo para albergue. Hoje, estou em um abrigo, por conta de problemas familiares”, explica. Embora a vida na estrada seja incerta, ele encontrou na liberdade da errância uma forma de existir.
A relação com o “manguear”, termo que ele usa para descrever aqueles que contam histórias em troca de ajuda, também é parte de sua filosofia de vida. “Manguear é quando você conta sua situação para alguém e recebe uma ajuda. Mas também tem aqueles que usam isso para enganar. Eu acredito que quem fala a verdade e investe no que ganha tem mais chance de melhorar a vida. Deus ajuda. Mas quem só mente, Deus tira tudo”, ressalta.
Dentre os lugares que ele já percorreu, destaca o Paraná como o lugar mais bonito e promissor que já viu, tanto pela paisagem quanto pelas oportunidades de trabalho. “O Paraná é um lugar de oportunidades, tem emprego e beleza. Mas o trecho é para qualquer um. Quem tem dinheiro fica em hotel, quem não tem, vai para o mangue”, reflete, mostrando que a estrada, apesar de sua dureza, também tem suas lições de humanidade e solidariedade. Ao ser questionado sobre a possibilidade de não mais viver no trecho, ele é taxativo: “Não, não tem como né? Aventura”.

Dona Toinha, a Pequena Gigante
Francisca Antonia Corrêa, mais conhecida como Dona Toinha, é uma mulher que, com seus 55 anos e pouco mais de 1,50m de altura, personifica a força e a dedicação. Natural do Ceará, ela chegou a Imperatriz há 48 anos e, desde 2014, coordena o Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua, o Centro POP. Com um olhar acolhedor e uma trajetória de vida marcada por empatia e ações concretas, ela se tornou uma verdadeira gigante para aqueles que, muitas vezes, são invisíveis para a sociedade.

O primeiro contato de Dona Toinha com as pessoas em situação de rua foi no Restaurante Popular de Imperatriz . Ela relembra com clareza o momento em que percebeu a necessidade urgente de um olhar mais humanizado para aqueles que, sem dinheiro ou dignidade, buscavam apenas algo básico: comida e respeito. “Chegando lá, percebi que muitas pessoas em situação de rua precisavam de um olhar diferente da sociedade, especialmente dos servidores do restaurante. Eles chegavam sem dinheiro e com roupas sujas. Comecei então a desenvolver um trabalho para ajudar essas pessoas”.
Essa experiência foi apenas o início de uma trajetória de profundo engajamento social. Dona Toinha atuou ainda no programa Minha Casa, Minha Vida, onde teve uma experiência que considera transformadora. “Foi uma fase muito boa, pois estava lidando diretamente com pessoas que estavam em busca de uma vida melhor, saindo das dificuldades para garantir o próprio lar”, afirma.
Contudo, o destino tinha outros planos para ela. “Quando o Centro POP foi implantado em Imperatriz, a Secretaria de Desenvolvimento Social me convidou para saber se eu teria interesse em trabalhar lá. Eu aceitei e comecei a estudar como funcionava o atendimento e os serviços oferecidos”, recorda, com a mesma energia e entusiasmo de quando assumiu o cargo. O Centro POP foi inaugurado em 8 de maio de 2014, e desde então, Dona Toinha tem sido sua coordenadora, não apenas como gestora, mas como uma mãe para quem mais precisa.

“Cada um que está na rua já teve uma casa, nasceu em uma família. Algo aconteceu, as drogas entraram na vida deles, e por isso perderam tudo”. Ao longo de sua trajetória no Centro POP, Dona Toinha ouviu e acompanhou inúmeras histórias de vidas destruídas pelas drogas, pela perda da família e pela marginalização.
Entre as lembranças que mais a tocaram está a de um piloto da TAM. “Ele me contou que foi a uma festa com a irmã, que lhe ofereceu cocaína, e a partir dali nunca mais conseguiu se livrar da dependência”, relata, com a dor visível ao lembrar da trágica história de queda de um homem que parecia ter tudo. Ela narra que, apesar de ser um piloto com muitas horas de voo, o uso de drogas destruiu sua carreira e sua vida. “Certa vez, ele saiu correndo pela rua Coronel Manoel Bandeira e até hoje nunca mais o vi. A droga destruiu sua história”, lamenta.
Outra história que tocou profundamente Dona Toinha foi a de uma mulher que, vítima de depressão, caiu na armadilha do crack, acreditando que a droga a ajudaria a superar sua dor emocional. “Ela acreditou, e sua vida acabou. Hoje, ela está no Renascer Feminino, mas perdeu tudo”, explica, com pesar, revelando como as drogas podem arruinar até as vidas mais promissoras.
Acolhimento como transformação
Em Imperatriz, o Centro POP se tornou um ponto de acolhimento essencial para quem está à margem da sociedade. Com um trabalho diário de abordagem social, a equipe convida as pessoas em situação de rua para receberem apoio. Dona Toinha reitera que o Centro POP funciona como um CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), oferecendo não apenas alimentação e abrigo, mas também a possibilidade de acesso a documentos, parcerias com comunidades terapêuticas e a inscrição no Caixa Único para garantir o auxílio de R$ 600.
“Estamos aqui para acolher e ajudar, não para julgar. Cada pessoa que chega tem uma história e um motivo para estar aqui, e é isso que devemos entender”, diz Dona Toinha. Ela avalia que a sociedade de Imperatriz ainda não compreende totalmente a situação dessas pessoas. “Cada um que está na rua já teve uma casa, nasceu em uma família. Algo aconteceu, as drogas entraram na vida deles, e por isso perderam tudo. Isso pode acontecer com qualquer pessoa, independente de sua força ou estrutura familiar”.

Dignidade e Humanização
Quando perguntada a respeito do que as pessoas precisam entender sobre aqueles que vivem nas ruas, Dona Toinha faz um apelo à humanidade. “Gostaria que todos soubessem que essas pessoas têm direito a serem tratadas com dignidade”. Ela também reforça a importância do tratamento humanizado no Centro POP. “Quando essas pessoas chegam aqui, é como se Deus estivesse lhes dando um novo dia de vida”, completa, enfatizando a missão de acolher com empatia e respeito.
E, para ela, o trabalho nunca perde seu valor. “Eu posso te dizer que todos os dias eu leio o Salmo 91 e entrego o Centro POP e seus servidores nas mãos de Deus. Peço sempre para que Deus me dê forças para continuar e que esse lugar seja um refúgio de paz e harmonia para todos”, compartilha, com a serenidade de quem se dedica de corpo e alma à transformação da vida dos outros.

Valter, o Lavrador
Valter de Sousa, 46 anos, natural de Codó, Maranhão, carrega uma história de luta e resiliência. Trecheiro há 16 anos e lavrador de profissão, ele atravessou muitos caminhos, enfrentou desafios inimagináveis e se reinventou diversas vezes.
A sua história começa aos 16 anos, quando, na tentativa de ajudar sua mãe, decidiu trabalhar em uma fazenda, abandonando os estudos. O jovem se viu, então, em um mundo onde o esforço físico era a única moeda de troca. “Eu trabalhava em casa quebrando coco e depois ia para a Fazenda Junqueira, através de um ‘gato’ (intermediário de trabalho). A vida era difícil, e logo vi que precisava ser mais esperto. Mas, infelizmente, o ‘gato’ pegou metade do meu pagamento e desapareceu. Fiquei sem nada, junto com mais 48 pessoas, trabalhando em condições precárias”, relembra. A dureza da vida no campo foi apenas o primeiro teste de resistência.

Em suas viagens de fazenda em fazenda, Valter viveu um dos momentos mais tensos de sua jornada. O episódio ocorreu em Grajaú (MA), onde ele e seus colegas de trabalho enfrentaram uma situação de violência inesperada. Eles estavam trabalhando para uma empresa terceirizada, a G5, no plantio de eucaliptos. Enquanto aplicavam veneno contra pragas, uma briga entre dois bairros vizinhos, Aldeia e Alto Brasil, eclodiu. O conflito, que parecia relacionado a futebol, virou uma verdadeira tragédia. “Pessoas ficaram feridas, e tivemos que sair correndo, com motosserras na mão. Foi muito complicado. O medo de ser atingido pelo sangue de um colega me marcou”, relata, ainda tenso ao relembrar o caos vivido.
Outro momento que deixou uma marca profunda na vida de Valter foi a morte de seu irmão, algo que ele soube de forma tardia e impactante. Ele estava em Macapá, voltando para casa, quando, sem nenhum aviso, soube da morte. “Ele tinha 36 anos e faleceu em circunstâncias trágicas. Ninguém nos avisou. Quando soube, eu estava trabalhando na fazenda do finado Bita. Fiquei devastado, mas a vida seguiu”, diz Valter, a tristeza ainda evidente em sua voz. A perda de um irmão, que ele sequer teve a chance de despedir, se tornou um peso constante na sua alma.
Mudança de rumo
Depois de uma longa trajetória de sofrimento e superação, Valter chegou ao Centro POP de Imperatriz, onde sua vida começou a tomar outro rumo. “Já sabia do Centro POP, mas foi quando fui liberado do hospital que eles me ajudaram a conseguir documentos. Fui até lá e conheci a Dona Toinha, que me orientou e me ajudou com o meu Bolsa Família. Ela foi muito atenciosa e me explicou tudo direitinho”, conta com gratidão.
O Centro Pop, para Valter, representa mais do que apenas um local de abrigo. “Lá, a gente tem um tratamento humanizado. Se você está jogado na rua, sem rumo, pode acabar se perdendo. Mas no Centro Pop, tem um acolhimento que a gente não encontra em outros lugares. Eu pude tomar banho, me alimentar e até descansar. Foi o primeiro passo para conseguir me reerguer”, afirma, com um semblante mais leve.

Após viver cinco meses nas ruas de Imperatriz, Valter tira lições profundas sobre o sofrimento que enfrentou. “A maior lição que aprendi foi sobre humildade e como a vida pode ser difícil. Passei fome, dormi em papelão, passei por coisas que eu nunca imaginei”. Ele comenta que o sofrimento o ensinou a não julgar ninguém, e agora, com essa oportunidade de recomeço, diz que pretende mudar a sua vida. “Vou ajeitar meus documentos e dar um futuro melhor para minha família”, diz com ar determinado.
Barba, o Jornalista.
Nossas histórias se cruzaram no final de outubro de 2024, quando me mudei para Imperatriz em busca de um sonho que me acompanhava desde a infância: cursar jornalismo. A Universidade Federal do Maranhão (UFMA) se tornou a ponte para essa oportunidade. No entanto, para dar os primeiros passos rumo a esse objetivo, precisei recorrer ao Centro POP. Dona Toinha me atendeu prontamente e me encaminhou ao Abrigo Superação, onde me disse com firmeza: “Você só sai daqui quando resolver sua vida.”
Durante o tempo em que estive no abrigo, tive a oportunidade de conviver com uma diversidade de pessoas: ex-presidiários, ex-usuários de crack, indivíduos em transição para centros de recuperação, moradores de rua e até os chamados “trecheiros”. Ao chegar, fui apelidado de “Barba” e, ao revelarem minha motivação para estar ali, o nome “Barba, o jornalista” se tornou comum entre os moradores.

A experiência vivida nesse ambiente me ensinou a olhar o outro com mais respeito e empatia. Cada uma dessas pessoas tem uma história, e muitas não escolheram as situações em que se encontram. Quando fui solicitado a compartilhar uma história sobre um lugar de Imperatriz que me marcasse, a escolha foi fácil: ela estava ali, no próprio abrigo, onde pude aprender lições valiosas sobre a vida e a dignidade humana.
Meu nome é Elson Supapinho, tenho 43 anos, sou radialista por formação e estou concluindo o primeiro semestre do curso de jornalismo. Fiquei na rua por uma noite e, desde então, vivo no abrigo há 114 dias, oficialmente como morador de rua. Os dias vividos ali me deram uma nova perspectiva sobre o mundo e reforçaram a minha determinação em seguir adiante, com a certeza de que a superação é, acima de tudo, um processo de respeito e acolhimento ao outro.
Esta matéria faz parte do projeto da disciplina de Redação Jornalística do curso de Jornalismo da UFMA de Imperatriz, chamado “Meu canto também tem histórias”. Os alunos e alunas foram incentivados a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. Essa é a primeira publicação oficial e individual de todas, todos e todes.