Em Açailândia (MA), o grupo desenvolve protagonismo e formação qualificada
Thiago Nazaré
O projeto “Mulher Maravilha” é um coletivo que teve origem no bairro da Vila Ildemar em Açailândia (MA), um dos pontos de atuação do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos Carmen Bascarán (CDVDHCB). “Nasceu do próprio pedido das mulheres das comunidades, que solicitaram uma atividade que as tirasse de suas duras realidades”, conta Yoná Luma Campos Ferreira, atual secretária da organização, e uma das mãos que deu início à fundação da iniciativa, em 2015.
“Muitas delas reconhecem o Projeto Mulher Maravilha como um divisor de águas em suas vidas”, explica Yonná. Ao falar sobre o grupo, ela revela o quanto essa iniciativa transformou sua trajetória e a de centenas de mulheres. “Elas solicitaram uma atividade que as tirasse de suas duras realidades, e que fosse regular, como o centro já fazia com crianças e adolescentes.”
Inicialmente formado por 30 participantes, o projeto se expandiu ao longo dos anos e hoje está presente em outros bairros de Açailândia, como Vila Bom Jardim e Vila Capelosa, além de cidades como Pindaré-Mirim, Santa Luzia e Monção. Atualmente, são mais de 120 participantes atendidas no Maranhão.

Metodologia
O Projeto Mulher Maravilha tem como base metodológica a pedagogia feminista, por meio da qual desenvolve ações de enfrentamento às violências machistas. As atividades incluem práticas físicas de aeróbica, fortalecimento emocional com psicóloga, ações de desenvolvimento profissional, como cursos profissionalizantes, mobilização social e formações sobre direitos das mulheres, como a que aconteceu no dia 9 de junho de 2025, com o título: “Primeiro encontro das futuras agentes de cidadania”. Yonná destaca que isso impactou de forma tão significativa a cidade que contribuiu diretamente para a criação do Conselho Municipal da Mulher e provocou a implementação da Secretaria da Mulher em Açailândia.
“Atualmente, a gente tem um número expressivo de participantes que olham para esse projeto e dizem que ele transformou suas vidas”, assegura Yonná. Para ela, acompanhar esse processo e vê-las se tornarem multiplicadoras dentro de suas comunidades é algo profundo e inspirador. “Isso é muito bonito, porque faz com que a gente entenda que é uma metodologia que funciona e que faz sentido para elas.”

Ao finalizar, Yonná ressalta que o maior poder dessa iniciativa está em sua coletividade. “É um projeto feito por mulheres, para mulheres, pensado por mulheres.” Ela reconhece que, embora tenha participado desde o início do chamado da comunidade, a força do coletivo está na união e na contribuição de muitas outras. “Começou comigo, mas que se desenvolve com muitas mulheres que eu admiro”. Esse é o maior diferencial da iniciativa, na sua opinião. “O poder que ele tem de juntar muitas elas para contribuir com algo tão importante, a ruptura dessa estrutura de poder, que é o machismo estrutural e institucionalizado que nos mata e nos violenta cotidianamente”.
Experiência
Em meio às iniciativas comunitárias desenvolvidas na Vila de Ildemar, a trajetória de Perleanny Rocha Ferreira, integrante do projeto, evidencia o impacto social do CDVDHCB na vida das mulheres atendidas pela instituição. Sua participação começou há cerca de cinco anos, a partir do convite de uma cunhada que já frequentava as atividades. O primeiro contato foi decisivo. “De cara, já gostei muito. E com o passar do tempo, fui gostando cada vez mais”.
O interesse inicial pelas aulas de atividades físicas logo se transformou em pertencimento. Perleanny destaca que o espaço funciona mais do que um simples local de exercícios. Ela relembra a fala da professora Yonná, que costuma dizer que “lá não é uma academia, e sim um local de apoio para nós, mulheres”. Para a participante, essa percepção se confirma no cotidiano, já que o grupo se tornou uma verdadeira rede de acolhimento e segurança emocional.
As palestras conduzidas pela psicóloga Lia também têm papel fundamental. Perleanny explica que os encontros ajudam as mulheres a compreender seus direitos e a lidar com questões pessoais que muitas vezes não encontram espaço dentro da própria casa. “Nas nossas rodas de conversa, conseguimos nos abrir umas com as outras e falar de assuntos que não temos coragem de falar na nossa própria família”, comenta.
Entre as memórias mais marcantes, ela destaca o ensaio fotográfico realizado no Vale dos Peixes, em 2021, publicado nas redes sociais do CDVDHCB, além de ter contado com uma exposição presencial das fotos. Segundo Perleanny, o momento simbolizou fortalecimento e autoestima. “Foi uma tarde mágica para nós, um momento só nosso, com a finalidade de entendermos o quanto somos importantes”, descreve. Ela reconhece que, por vezes, o excesso de responsabilidades do cotidiano a faz esquecer do autocuidado, algo que reencontra no ambiente seguro do Centro.

Além do apoio emocional, as ofertas de formação profissional transformaram sua vida financeira. Perleanny participou de diversos cursos, como maquiagem, sobrancelha, cílios, unhas em gel, empreendedorismo e atualmente estuda marketing e gestão. Um de seus maiores sonhos, no entanto, era aprender a costurar, objetivo que conseguiu realizar graças à instituição. “Ganhei uma ajuda de custo do Centro, no qual comprei minha máquina de costura e alguns materiais para iniciar os meus serviços”, conta.
Hoje, ela afirma com orgulho que consegue gerar renda para sua família por meio da costura, descrevendo a conquista como “uma grande realização”. Ao final, Perleanny deixa um agradecimento à instituição que, segundo ela, mudou sua vida: “O meu muito obrigado à família Centro de Defesa Carmen Bascarán, pelo apoio e dedicação”.
Transformação
Dagulas Dantas, da Vila Bom Jardim, explicou que sua chegada ao grupo aconteceu de forma natural, pois seus filhos já participavam das atividades. Ela própria sempre teve afinidade com a dança, lembrando que fazia parte do Dançarte há muitos anos, projeto esse também do CDVDHCB. A criação do projeto “Mulher Maravilha” abriu espaço para que ela se envolvesse com as atividades e descobrisse novas possibilidades.
O grupo foi essencial para seu crescimento pessoal, destacando que ali aprendeu a se tornar a mulher que é hoje. Em seu relato, disse que o projeto lhe proporcionou oportunidades de autoconhecimento e autonomia, fortalecendo sua percepção de capacidade: “Eu sou capaz de muitas coisas”, declarou.
A participante também lembrou do impacto das formações e palestras oferecidas no grupo, que ampliaram seu entendimento sobre seus potenciais. Contou, ainda, que, por meio dos cursos e projetos disponibilizados, teve acesso a experiências que mudaram sua vida. O curso de manicure é uma formação que, inicialmente, ela não pretendia fazer por acreditar que não se encaixava na área. No entanto, segundo Dagulas, a decisão de participar foi decisiva: “Amei, foi ali onde tudo começou da empresária que eu sou hoje”.
Ela afirmou que o projeto foi fundamental para que desenvolvesse a responsabilidade, confiança e identidade empreendedora que tem atualmente. Além disso, o projeto a ajudou a atravessar processos difíceis em sua vida. Enfatizou que, com o apoio das outras mulheres e do Centro de Defesa, conseguiu superar desafios emocionais e pessoais: “O grupo me salvou de muitas coisas”, afirma. Hoje, Dagulas se considera uma mulher mais segura e motivada, afirmando que sua autoestima foi elevada a partir dessa vivência.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2025.2, contou com a colaboração, nas correções finais, da aluna estagiária Milena do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul.