Presidente da Associação dos Deficientes Visuais fala sobre a solidão na luta por independência

Sair de casa em Imperatriz é se expor a correria da cidade, os buracos pelas ruas, calçadas quebradas e irregulares, assim como os perigos do trânsito e risco de assaltos. Para uma pessoa com deficiência visual, a experiência é tudo isso somada a outras atividades diárias como estudar ou trabalhar, com baixa ou nenhuma visão.

No segundo curso de graduação, agora em Tecnologia da Informação (TI) no Instituto federal do Maranhão (IFMA), o pedagogo e atual presidente da Associação de Deficientes Visuais de Imperatriz, Raimundo Oliveira Marques espera que seus conhecimentos sejam utilizados na educação inclusiva e vê a possibilidade de aprimorar tecnologias assistivas ou mesmo de desenvolver novas ferramentas.

Em 2017, Raimundo ingressou no curso de pedagogia para continuar sua jornada como educador popular, “sempre fui muito criticado por não ter formação, mas as minhas formações ou não formações se davam muito por essa dificuldade de acesso à educação”, ressalta.

Aos 42 anos, Raimundo afirma que apesar dessa idade só agora conseguiu conquistar sua primeira graduação. Com uma deficiência visual congênita e baixa visão até a cegueira total, ele persiste nos estudos, deseja se inserir no mercado de trabalho e fazer da sua missão incentivar outras pessoas com deficiência visual na busca por independência e continuidade aos estudos.

“Raimundo é um exemplo para mim e para meus amigos deficientes visuais por ter concluído o curso. Quando eu penso em desistir eu penso muito nele, mesmo sendo de cursos diferentes”, conta a estudante de jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e também deficiênte visual, Juliana Fernandes.

Se hoje ele pode contar com amigos e apoiadores, nem sempre foi assim. Crítico ao sistema educacional, Raimundo sempre foi contra o ensino de pessoas com deficiência sem o estímulo à autonomia, que designa ledores para ler, escrever e transcrever as informações para os alunos, o que acaba na correção das atividades em busca de evitar erros e alcançar melhores notas. Essa luta lhe causou muita solidão, tornando-o uma pessoa mal vista no sistema educacional do município e até do estado. “Se você estiver sozinho, você passa de alguém que está buscando seus direitos sociais para uma pessoa ingrata, que ‘estão dando algo e ele não está se contentando’, confessa.

“O aluno está numa posição que é confortável para ele, então se alguém contesta isso é normal se virar contra”, pontua o estudante de pedagogia, Veriano Carvalho Júnior, que também frequenta a Associação. Com baixa visão, Veriano ressalta que é incomum a facilidade que Raimundo tem em se locomover sozinho e até fazer viagens. Para Veriano é complicado para um deficiente visual ser tão independente, “porque a família tem medo e a pessoa tem medo”. Ele também destaca que entre os deficientes visuais são poucos os que têm a percepção de ir em algum lugar repetidamente e memorizar o percurso.

Na opinião de Juliana, as comparações forçam expectativas que todas as pessoas com pouca ou baixa visão vão ter o mesmo desenvolvimento, porém “cada pessoa tem suas dificuldades e não é por ser cega que eu consigo ser tão forte com ele, superar as mesmas coisas”. Enquanto acha admirável a desenvoltura do pedagogo, como uma jovem que nasceu cega e tem traumas próprios, “tenho muito medo de andar só e eu não ando só na UFMA e por enquanto nem tenho vontade de andar”, explica .

A jovem ainda conta que apesar de ter dependência no profissional ledor que a auxilia, assiste aulas sozinha e que a sua necessidade de auxílio depende muito das matérias da grade de ensino e do esforço do professor para ativamente tornar sua aula e conteúdo inclusivos. 

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