Espaço antigo do bairro segue essencial para feirantes, moradores e crianças
Monique Soares
Às seis da manhã, a Praça da Alegria, no bairro Bacuri, em Imperatriz, começa a ganhar vida antes mesmo do sol se firmar no céu. Cães atravessam o espaço em busca de sombra, deitando-se sob carros estacionados ou próximos à farmácia em frente. Feirantes arrastam caixas plásticas, organizam mercadorias e montam as primeiras bancas do dia. Vendedores começam a abrir suas lojas. O parquinho infantil, ainda vazio nesse horário, range levemente com o vento. Mesmo com picos de movimento concentrados pela manhã, o local permanece ativo ao longo do dia e segue sendo fundamental para quem depende dele para trabalhar e conviver.

Memória
Mais antiga do que a feira que hoje ocupa o entorno, fundada em 1979, na gestão do prefeito Carlos Gomes de Amorim, a Praça da Alegria guarda memórias que ajudam a contar a própria história do Bacuri. Quem relembra esse passado é Roza Amélia Ferreira, feirante há 22 anos no mesmo ponto. Segundo ela, o espaço já teve outra configuração e outro nome. “Aqui era conhecida como Praça dos Taxistas. Antes mesmo da feira existir, isso tudo já era praça, e ficava cheio de táxis, do começo ao fim”, recorda.
A Praça da Alegria teve reformas, viu diferentes pessoas ocuparem o espaço ao longo de gerações e atravessou estações que moldaram sua rotina diária. À medida que o bairro crescia, vieram também os feirantes, que passaram a utilizar o entorno como ponto de trabalho, seguidos pela chegada do comércio fixo, que hoje divide o espaço com a feira.
Nesse processo, a dinâmica do local mudou. O fluxo intenso dos taxistas desapareceu e deu lugar a uma rotina marcada pela concentração de pessoas nas primeiras horas. “Depois do meio-dia, o movimento cai muito. O forte mesmo é pela manhã”, afirma Roza, enquanto ajeita frutas sob o calor da tarde. Apesar da redução no fluxo de clientes, em comparação a décadas anteriores, ela reforça que a área continua sendo indispensável para a organização da feira e para o sustento de muitos trabalhadores.
Roza também aponta a falta de estrutura e de representatividade como um dos principais entraves enfrentados pelos feirantes. Para ela, a criação de uma entidade que organizasse a categoria poderia melhorar as condições de trabalho. “Já era pra ter um sindicato dos feirantes. Ajudaria a organizar, criar um padrão. Mas isso não pode partir só da gente, tem que vir lá de cima”, defende.
O sentimento de fragilidade coletiva também aparece no relato de Cláudia Carvalho, comerciante há cerca de dez anos, em uma loja de roupas femininas, localizada em frente à praça. Segundo ela, a rotina no entorno é marcada pela ausência de apoio e pela necessidade de adaptação constante. “Aqui é cada um por si e Deus por todos. A única ajuda que tenho é da vizinha do lado”, comenta.
Para Cláudia, além de espaço de trabalho, a praça é palco de situações imprevisíveis que fazem parte do cotidiano. “Já teve briga, já teve confusão, já aconteceu de tudo. Se a gente for contar, dá um livro. A praça é uma diversão por si só”, diz, em tom bem-humorado. Ainda assim, a comerciante critica a falta de equipamentos básicos que limitam o uso do espaço pela população. “Mal tem banco para sentar. Aí as pessoas evitam ficar, e quem mais usa acaba sendo morador de rua. Isso afasta quem trabalha e quem mora aqui.”
Apesar das carências, a praça mantém uma rotina bem definida. As manhãs concentram o maior fluxo de consumidores, enquanto as tardes ficam mais vazias, embora o expediente de muitos comerciantes se estenda até por volta das 18h. “O movimento acaba antes disso, mas a gente fica. É daqui que sai o nosso sustento”, resume Cláudia.

Rotina
Entre os trabalhadores mais recentes está Wilson Maciel Ferreira, vendedor de peças de roupas que atua há cerca de três meses. Para ele, o espaço público representa uma necessidade básica em meio às dificuldades do comércio. “Pelo menos essa praça tem sombra. Se tirar isso aqui, não sobra nada”, afirma. Wilson confirma que o movimento segue o mesmo padrão relatado pelos demais entrevistados. “O melhor horário é de manhã cedo, até umas dez, onze horas. Depois cai.”
Mesmo consciente das limitações, ele reconhece a importância do espaço para o bairro, especialmente para as crianças. “Os brinquedos estão bem defasados. Se tivesse uma reforma, a praça seria muito mais usada”, avalia.
No meio da tarde, quando parte das bancas começa a ser desmontada, o espaço passa a ser ocupado por crianças do bairro. Elas chegam aos montes depois de sair da escola, acompanhadas dos responsáveis. Enquanto os pequenos ocupam os brinquedos, os adultos acompanham a distância, sentados nos poucos bancos disponíveis ou encostados nas árvores. Para muitos pais, a praça também funciona como um raro momento de pausa na rotina. É o caso de Maria Eduarda Silva, mãe de duas crianças que costumam brincar no parquinho no fim da tarde.
“Eu trago eles quase todo dia. Aqui é onde eles gastam energia, brincam com outras crianças, não ficam só em casa no celular”, conta. Sentada em um dos bancos, ela observa os filhos correndo entre os brinquedos. “A gente senta, conversa, distrai um pouco. Não tem muita opção de lazer por aqui, então essa praça acaba sendo tudo.”
Mesmo reconhecendo o desgaste dos equipamentos, Maria Eduarda reforça a importância do espaço para o desenvolvimento das crianças. “Os brinquedos já estão velhos, mas pra eles isso não importa muito. O importante é ter onde brincar. Se não tivesse essa praça, não sei onde eles iam ficar.”
Apesar da falta de manutenção e da estrutura limitada, a Praça da Alegria continua sendo um ponto de referência para o Bacuri. Pela manhã, sustenta o comércio e garante renda a dezenas de trabalhadores. À tarde, transforma-se em espaço de lazer e encontro para famílias do entorno. No início da noite, ainda acolhe pequenos grupos que aproveitam os últimos momentos do dia.
Mesmo diante das limitações, Wilson diz que a praça segue cumprindo um papel essencial no dia a dia de quem trabalha ali. Para ele, o espaço garante o mínimo necessário para continuar. “Pra mim, aqui tá ótimo… apesar do comércio fraco, mas isso é geral, né?”, afirma. Na avaliação do vendedor, os problemas não apagam a importância da Praça da Alegria para o bairro. “Não precisa queixar do local também, não. A gente reclama dele, mas esse lugar não seria o que é sem a praça.”, completa.
Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2025.2, contou com a colaboração, nas correções finais, da aluna estagiária Milena do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul.