Moradores relatam mudanças e esperam pela inauguração do Parque Ambiental
Barbara Bessa
Brena Queiroz
A revitalização do antigo Pomar Comunitário redesenhou a rotina do Santa Inês, em Imperatriz e reacendeu discussões sobre identidade, pertencimento e as próximas etapas de desenvolvimento do bairro. Entre quem frequentava o espaço quando era apenas um terreno arborizado e aqueles que chegaram depois da reforma, a sensação comum é que o local ganhou vida. E é justamente nesse cotidiano marcado por encontros, comércio e convívio que surgem memórias antigas, histórias de colaboração e expectativas para o que ainda está por vir.

Francisco Reinaldo Alves Bessa, 67 anos, vive no Santa Inês desde que chegou à cidade. Suas recordações remontam a um período de completa ausência de estrutura. “Aqui era só casa de tábua, cemitério sem muro e estrada de chão”, relembra. Ele descreve o surgimento do Pomar muito antes da intervenção do poder público. “Era um cabra alto, ele limpava isso aí tudinho. Ele que plantou, pediu bloquete pros empresários e fez tudo aí”, diz, referindo-se a Ivair Roberto Bertola, analista de sistemas e entusiasta da preservação ambiental, responsável por iniciar a organização original do espaço quando o local ainda era basicamente mata.
Com a reforma, o Pomar ganhou nova dinâmica. Para quem chega agora, o contraste é evidente. Carmem Lúcia Brito Noleto Dias Carneiro, 46 anos, que está passando uma temporada com a família, relata o impacto percebido logo nos primeiros dias. “Antes era só pomar comunitário, mas agora ficou muito interessante. As pessoas que moram num bairro como esse têm que ter uma área de lazer”, declara. Ela conta que, antes da revitalização, pouca gente ocupava o espaço, e hoje vê movimento diário, especialmente durante as férias escolares, quando o fluxo aumenta de forma marcante.

A mudança também alterou a dinâmica econômica do entorno. José Jacinto Padilha Ribeiro, 68 anos, viu no quiosque uma oportunidade de recomeço. Relembrando uma conversa com representantes da prefeitura, José diz: “Aí ela falou: ‘Olha, o quiosque é teu’. Graças a Deus”. Desde então, ele comercializa chá de burro, picolé, água de coco e sorvetes, atendendo moradores que passam pelo local diariamente. “Do sábado pro domingo é cheio de gente. Aqui é bom demais”, resume.
A movimentação constante também beneficia quem atua de forma ambulante. Eliana Silva Melo, 45 anos, que comercializa caldo, torta e chá de burro, percebe a diferença. “Com certeza foi um grande impacto de mudança e transformação. Vem muita gente de fora”, afirma. Ela acredita que o espaço amplia oportunidades para pequenos trabalhadores: “Abre portas pra nós que estamos aqui empreendendo.”

Apesar do avanço representado pelo Pomar, o bairro ainda revela desigualdades internas. Francisco aponta que algumas ruas permanecem pouco iluminadas e carecem de manutenção, o que cria uma separação simbólica entre áreas mais recentes e as que formam o núcleo histórico do Santa Inês. “Dizem que lá pra trás é o Santa Inês. Aqui já dizem que é a favela do Santa Inês”, comenta. Para ele, a revitalização trouxe novos ares, mas não solucionou todos os problemas estruturais que atingem determinadas partes do bairro.

Em meio a esse cenário, as discussões sobre o futuro Parque Ambiental aparecem com força renovada. Estudos preliminares apresentados pelo governo do Maranhão indicam que a área planejada deve ocupar aproximadamente 34 hectares entre os riachos Capivara e o Santa Teresa. O projeto prevê praças, microparques, pistas de caminhada, espaços educativos e ações de preservação, integrando lazer, cuidado ambiental e convivência. O tema vem sendo tratado em articulação entre Estado e prefeitura, com alinhamentos técnicos que envolvem infraestrutura, drenagem e intervenções complementares.
Entre quem trabalha no Pomar, a chegada do novo equipamento renova expectativas. “Vai trazer muita gente pra cá também. Vai ser ótimo, maravilhoso”, diz José, imaginando o fluxo ampliado. Eliana concorda e vê possibilidade concreta de expansão para alguns trabalhadores: “Com certeza tem muito impacto. Abre portas pros pequenos comerciantes.” Francisco, que afirma ouvir sobre essa iniciativa há anos, mantém o otimismo: “Esse projeto é antigo. Foi entregue agora de novo e vai ser ótimo para a comunidade”.

Com estudos preliminares concluídos e novas conversas em andamento, o Parque Ambiental passa a integrar o planejamento territorial da região. Até que as obras comecem, o Santa Inês segue apoiado nos espaços que já existem, especialmente o Pomar, que se consolidou como área central do bairro. A forma como moradores e trabalhadores se apropriaram do local indica que futuras intervenções urbanas terão impacto direto no modo como a comunidade circula, convive e constrói sua identidade coletiva.
Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2025.2, contou com a colaboração, nas correções finais, da aluna estagiária Milena do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul.