Moradores da Aldeia Badú Guajajara relatam perdas e cobram direitos sociais
Aylla Almeida
As memórias indígenas no bairro Parque Amazonas revelam uma trajetória marcada por deslocamentos, adaptação e permanência em meio às mudanças urbanas. Em relatos de moradores, aparecem lembranças da chegada ao território, da convivência comunitária e das dificuldades enfrentadas ao longo dos anos, incluindo disputas pela terra, falta de políticas públicas e a preocupação com a perda da língua e das tradições. Entre a resistência e o cotidiano, os entrevistados destacam a necessidade de reconhecimento, acesso à saúde e à educação diferenciada, como a criação de uma escola bilíngue, como forma de fortalecer a identidade cultural das novas gerações.

A presença indígena no bairro Parque Amazonas, em Imperatriz, começou a se consolidar entre as décadas de 1980 e 1990, período marcado pelo deslocamento de famílias Tenetehára/Guajajara que deixaram suas terras de origem em busca de melhores condições de vida.
Vindos principalmente das Terras Indígenas Bacurizinho, em Grajaú, e Araribóia, em Amarante, esses grupos chegaram à cidade impulsionados por conflitos fundiários, pelo avanço do agronegócio sobre seus territórios tradicionais e pela necessidade de acesso à saúde, educação e oportunidades de trabalho. Sem políticas públicas voltadas aos indígenas em contexto urbano, ocuparam uma área na periferia de Imperatriz, onde se formou a atual Aldeia Badú Guajajara Urbana.
Entre os primeiros moradores da comunidade está Eduardo Lopes Oliveira Guajajara, conhecido como Badú, uma das lideranças locais. Ele relembra sua trajetória até chegar ao Parque Amazonas. “Eu vim pra cá, eu não sou dessa região não. Eu vim do município de Grajaú.” Segundo ele, sua ligação com a localidade começou ainda na infância. “Meu pai era daqui dessa região do Canal. Ele casou com minha mãe lá na aldeia do Ipú.”
Também foi em busca de uma vida melhor que Ocilia Oliveira de Sousa Guajajara chegou ao bairro. “Vim pra cá em busca de saúde e melhoria”, conta. Ao recordar os primeiros anos da comunidade, ela descreve um cenário bastante diferente do atual. “Quando eu cheguei aqui o bairro era só chão mesmo, só chão.” Na época, segundo Ocilia, a área era ocupada majoritariamente por famílias dos povos originários: “Aqui era só indígena.”

Com o passar dos anos, a comunidade precisou enfrentar disputas pela permanência no território. Ocilia lembra que houve tentativas de retirar as famílias da área, mas a mobilização dos moradores garantiu a continuidade da aldeia. “Já chegaram querendo tomar, mas não conseguiram.” Ela afirma que a comunidade buscou apoio judicial para permanecer no local. “Nós fomos atrás da Justiça e até hoje nós estamos aqui dentro.” Ao lembrar dessa trajetória, resume: “Deram apoio pra nós e até hoje nós estamos aqui, graças a Deus.”
Hoje, além da luta pelo território, a comunidade enfrenta o desafio de manter viva sua identidade cultural. Badú afirma que a principal recordação que guarda da infância é a língua indígena. “A lembrança mais antiga é a língua mesmo.” No entanto, ele reconhece que o idioma vem sendo perdido entre as novas gerações. “Hoje em dia não sabe nem falar quase mais na língua.”
A mesma preocupação é compartilhada por Ocilia. “Tem muita criança que já tá perdendo a fala deles.” Ela acrescenta que até os mais velhos já começam a abandonar parte da língua. “Até nós mesmos, quando vamos ficando de idade, vamos esquecendo.” Para ela, o resultado é evidente, “Hoje em dia muita gente só fala a linguagem do branco” e, consequentemente, “vai perdendo a cultura.”
Renda Cultural
Além da preservação do território, o artesanato permanece como uma das principais formas de sustento das famílias e de manutenção da identidade cultural da comunidade. Na Aldeia Badú Guajajara Urbana, a produção de cocares, brincos, colares, pulseiras e outros adornos faz parte do cotidiano de muitos moradores.

Ocilia Oliveira de Sousa Guajajara atua com a confecção dessas peças há vários anos e afirma que a atividade representa a principal fonte de renda da família. “Eu trabalho com artesanato, entrego na Casa de Artesão ali. Faço coisinhas, cabelo, brincos, cordão…”, relata. Segundo ela, as vendas aumentam quando há maior circulação de visitantes. “Quando chega o povo aí eu vendo. Vendo muito mesmo, graças a Deus.”
Para Badú, o trabalho artesanal também ocupa papel fundamental na sobrevivência da comunidade. “O artesanato é sempre presente, fazemos capacete e outras coisas.” Além das peças produzidas manualmente, ele explica que parte das famílias complementa a renda com pequenas plantações. “Também plantamos feijão, milho e macaxeira.”
Cultura Ameaçada
Embora muitas tradições tenham se perdido ao longo dos anos, alguns costumes permanecem vivos entre os Guajajara. Um deles é o ritual da “menina moça”, realizado quando a jovem tem sua primeira menstruação. Laiane Oliveira da Silva Guajajara explica que a celebração simboliza a passagem da infância para a vida adulta. “Quando a menina chega na idade e menstrua pela primeira vez, a gente faz uma festa pra ela, da criança virar moça.” Badú reforça a importância desse costume para o povo Guajajara. “Isso ninguém esquece.”
Entretanto, outras manifestações culturais já não fazem parte do cotidiano da comunidade. Nascida e criada no Parque Amazonas, Laiane conta que sua infância foi marcada pelas diversões entre familiares. “A gente brincava só entre nós, entre os primos, família.” Bonecas de pano feitas pelas próprias mães, casinhas e brincadeiras de bola faziam parte da rotina das crianças.
Apesar das boas lembranças, ela reconhece que muitos costumes foram desaparecendo com o passar do tempo. “Sempre foi assim mesmo, vivendo igual branco.” Hoje, segundo ela, “não rola mais tradição aqui dentro”. Ao falar sobre essas mudanças, resume o sentimento da comunidade: “É bem triste, na verdade.”
A preocupação com a preservação da cultura aparece principalmente na educação. Os entrevistados defendem a implantação de uma unidade de ensino indígena bilíngue dentro da comunidade, onde as crianças possam aprender a língua materna e fortalecer seus vínculos com a cultura Guajajara. Laiane afirma que essa promessa já foi feita diversas vezes por representantes políticos, mas nunca saiu do papel. “Disseram que iam fazer uma escola aqui dentro, uma escola bilíngue pra ensinar as crianças a falar a língua de novo. Mas até hoje não aconteceu nada.” Ela acrescenta que as promessas costumam surgir apenas em períodos eleitorais. “Falam só em época de eleição e depois não fazem nada.”
Badú também reivindica a criação de um ambiente escolar e acredita que ele seria essencial para impedir o desaparecimento da língua indígena entre as novas gerações. “Já pedi uma escola indígena aqui dentro e um posto de saúde pra nós.” Para ele, preservar a identidade do povo depende diretamente dessas políticas públicas. “Não pode esquecer da cultura da gente.”
Outra demanda da comunidade está relacionada à assistência de saúde. Badú lembra que, quando vivia na aldeia, muitas famílias enfrentavam dificuldades para conseguir atendimento médico. “Na aldeia, às vezes não tinha assistência, podia até morrer sem atendimento.” Hoje, segundo ele, equipes de saúde realizam visitas à comunidade. “De vez em quando vem médico aqui cuidar da gente.” Apesar disso, os moradores consideram que o serviço ainda é insuficiente para atender às necessidades da população indígena urbana.
Mesmo diante dos desafios, os entrevistados afirmam que permanecer no Parque Amazonas significa preservar uma história construída ao longo de décadas. Entre as casas, as mangueiras e os espaços onde o artesanato continua sendo produzido, a comunidade busca manter viva a própria identidade. Como resume Ocilia, o desejo é simples, “A gente quer viver melhor também. Tem que ter mais melhoria.” Já Badú reafirma o compromisso de continuar defendendo o território onde sua comunidade construiu suas raízes: “Fique aqui, mas daqui eu não saio.”
Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.