Por Angel e Katherine Martins
De acordo com o Plano Estadual de Oncologia de 2024, a cidade de Imperatriz, distante cerca de 635 km da capital São Luís, atende 43 municípios da Macrorregião Sul, área estratégica que engloba as regionais de saúde de Imperatriz, Balsas, Barra do Corda e Açailândia para integração de ações de saúde, na qual hospitais como o São Rafael e centros como a Oncoradium oferecem tratamentos com quimioterapia e radioterapia. Em 2025, o sistema registrou 294 intervenções principais, mas 58% dos pacientes iniciam seus protocolos após 60 dias do diagnóstico. É nesse intervalo de espera, muitas vezes de meses, que a cultura de doação se torna infraestrutura de sobrevivência. Sem o trabalho das Organizações Não Governamentais que garantem a estadia de quem vem de fora, o tratamento técnico por mais avançado que seja, tornaria inacessível para aqueles que, como as irmãs de Timbiras, possuem apenas o bilhete do transporte público e a urgência da cura.
Ampare e Instituto Amar mais: redes de apoio
Essa rede de proteção não nasceu por acaso; ela acompanhou o crescimento do polo de saúde local. Em 2004, quando o atendimento oncológico em Imperatriz recebia pacientes de outras cidades, surgia a Associação de Amparo aos Pacientes com Câncer da Região Tocantina (Ampare). A entidade compreendeu que a luta contra a doença exigia um suporte que ia além do consultório. Com a criação do Solar da Ampare, a associação passou a oferecer acolhimento e segurança alimentar para famílias em vulnerabilidade.
Dois anos depois, em 2006, o movimento ganhou reforço com o Instituto Amar Mais. O que começou como uma organização de médicos chamada Liga Sul Maranhense de Combate ao Câncer, ampliou para o acolhimento físico. “E aí, com o longo do tempo, foi vendo-se, percebendo-se a necessidade de ir mais além e ter um local para acolher essas pessoas, porque muitas pessoas vinham de outras regiões, de outras cidades realizar o tratamento na Imperatriz e aí não tinha onde ficar”, Conta Irlane Gomes, representante do Instituto Amar Mais. Da união de esforços, a antiga associação transformou-se em um Instituto, deixando para trás os dias de atendimento improvisado em anexos que foi o lar temporário de mais de 180 pessoas.
É o exemplo de uma cultura de doação que amadurece conforme a necessidade aperta: onde o Estado oferece o centro cirúrgico, a sociedade civil ergue as paredes que protegem o sono de quem luta para viver. “Instituto Amar Mais, ele funciona 24 horas, atendendo e acolhendo pacientes de várias regiões do Pará, Tocantins e Maranhão. (…) E as campanhas que a gente realiza são campanhas de arrecadação de arrecadação de dinheiro, de alimentos não perecíveis, de frango, de leite em pó. E todos os meses, a gente busca falar sobre algum tema. Por exemplo, agora é Janeiro Branco, a gente vai marcar uma palestra com uma pessoa especializada para falar sobre o tema. Então, todos os meses, em todas as datas comemorativas, a gente sempre realiza alguma campanha para falar para os nossos pacientes e mostrar também a importância daquela campanha.” Explica Irlane.
Segundo os Planos Estaduais de Oncologia de 2020 e 2024 e os dados extraídos do Painel de Oncologia de 2025, a cidade de Imperatriz é epicentro do tratamento de câncer para a Macrorregião Sul do Maranhão. O fluxo assistencial, que se inicia com o diagnóstico na rede de Atenção Primária, converge para uma infraestrutura de alta complexidade onde o Hospital São Rafael se destaca como a principal unidade de tratamento, sendo responsável por 154 dos 294 procedimentos registrados, com foco em quimioterapia, incluindo uma ala de oncologia pediátrica que atende desde crianças a jovens adultos de 0 a 19 anos. Complementando essa rede, a Oncoradium concentra a totalidade dos serviços de radioterapia e braquiterapia, somando 133 atendimentos, incluindo suporte do Hospital Municipal de Imperatriz e o Hospital Macrorregional Dra. Ruth Noleto.
Epidemiologicamente, o perfil dos pacientes atendidos em 2025 segundo o DataSUS, mostra uma concentração na faixa etária entre 55 e 69 anos, embora a presença da unidade pediátrica tenha permitido o registro de 11 atendimentos especializados para o público jovem. No que diz respeito às modalidades terapêuticas, a quimioterapia é o tratamento mais frequente, alcançando 180 pacientes, seguida pela radioterapia com 96 casos e um volume menor de cirurgias isoladas. Apesar dos atendimentos nas unidades mencionadas nos planos de governo estadual, os indicadores de tempo de espera apontam que o sistema enfrenta desafios logísticos, com a maioria dos pacientes (171 pessoas) iniciando seus protocolos terapêuticos após um intervalo superior a dois meses do diagnóstico, mostrando que, embora a estrutura física e a descentralização para o Sul do estado tenham avançado conforme o planejado, a agilidade no fluxo entre a biópsia e o primeiro tratamento permanece como o principal ponto de melhoria para a rede oncológica regional.
Enquanto a medicina trata a doença em si, a rede de apoio dos institutos aprenderam a enxergar a alma de quem luta contra ela. No Solar da Ampare, o acolhimento vai além da hospedagem e abraça as Práticas Integrativas e Complementares (PICs), um conjunto de terapias que a atual presidente, Carla Patrícia, define como seu ‘xodozinho’. Com a anuência das equipes médicas, a associação investe em métodos como a musicoterapia e a cromoterapia, utilizando as cores e os sons como ferramentas de alívio para dores. “Quando a gente recebe um paciente, nós recebemos ele como um todo. É entender que esse paciente, é um ser humano, ele precisa de cuidados em toda a sua essência, físico, mental, social e espiritual também. Aqui existem diversas religiões e nós respeitamos todas”. Explica Carla Patrícia.
A força do voluntariado em Imperatriz
Francinete da Conceição (46) voluntária da Ampare, fala que “aqui o serviço voluntário é um serviço de formiguinha. Você pede aqui, pede ali, faz aqui, faz ali, doa na sua medida, né, dá presente. E é uma rede. Um ajudando o outro, entendeu?”. Esse ‘serviço de formiguinha’ descrito por Francinete é, muitas vezes, o primeiro passo de uma entrega que reescreve destinos. Foi assim com Carla Patrícia, hoje à frente da presidência da Ampare, que iniciou sua jornada no voluntariado e permitiu que ela trouxesse um olhar sensível para a casa, transformando sua experiência prática em políticas de acolhimento que hoje definem o Solar. “Eu sou voluntária desde 2011. Quando eu vim para cá, eu ainda não tinha curso superior e eu queria prestar vestibular para Direito. Eu lembro que eu cheguei a fazer o primeiro vestibular lá, na UFMA, e acabei não passando. Foi quando eu descobri a Ampare. Eu falava que eu precisava fazer alguma coisa pelo outro então falei: ‘Mas por que vim a esse mundo se não for para ajudar, se não for para cuidar, se não for para oferecer algo e algo de melhor?’ A partir da Ampare, eu me apaixonei pela área da saúde. Tanto que eu quis fazer enfermagem que muitos conhecem como a arte do cuidar e é o cuidar com excelência, né? Então, eu cuido de vidas.”
Para Irlane, a doação de tempo e influência é o que oxigena o trabalho realizado entre as paredes do instituto, funcionando como uma ponte para a generosidade da comunidade de Imperatriz. O voluntário deixa de ser um ajudante eventual para se tornar um articulador de recursos e esperança. Em suas palavras, esse engajamento é o que mantém o pulso da casa: “Acaba se tornando os nossos braços. Nossos voluntários são nossos braços direito, que através deles a gente consegue trazer alimentação, parcerias com outras empresas, consegue parceria com outras pessoas físicas também, porque através do voluntariado eles divulgam o nosso trabalho. Então, pode-se dizer que é uma parte do nosso funcionamento, uma parte do coração ali funcionando mais exatamente falando”.
O tempo é uma das matérias-primas do voluntariado. A artesã Maria Neusa, de 75 anos, voluntária na Ampare desde 2006, transforma a angústia da espera em habilidade manual. Ela compreende que, para quem vem para Imperatriz em busca de cura, o ócio pode ser tão doloroso quanto a doença. Ela fala sobre uma doação de espumas de um rapaz que faz sofás, e os pacientes passam um bom tempo picando o material: “Porque eles ficam assim, entretidos com o tempo, né? Fazendo alguma coisa, ficam ansiosos. Eles choram, de saudade de casa, muito deixaram crianças… Para vir cuidar da mãe, aquela coisa. Então esse artesanato foi criado para isso, para envolver a mente do paciente”. Sob sua orientação, as mãos que antes lidavam apenas com a dureza da roça descobrem a delicadeza dos fios: “Eles fazem, né? Inclusive essas peças que a gente tem aqui, tudinho eles que fazem. Eu fico aqui só dando uma mãozinha, dando orientação”.
E o trabalho voluntário é um trabalho que não é remunerado. E pra gente tá tudo bem. Mas às vezes você vê tantos acontecimentos, muitas vidas que você acaba se encantando, se apaixonando por essa vida.
Carla Patrícia – Ampare
A Ampare ganhou, dia 16 de janeiro deste ano, um reforço que simboliza o reconhecimento público do impacto social desta entidade. O Ministério Público do Maranhão destinou sete centrais de ar-condicionado para a Ampare, frutos de um Acordo de Não Persecução Penal. A doação, conduzida pelo promotor de justiça Carlos Róstão, titular da 1ª Promotoria de Justiça Criminal, valida a seriedade da instituição e convoca o olhar da comunidade: “Fizemos questão de fazer uma pequena cerimônia aqui para que a sociedade de Imperatriz tome conhecimento do trabalho dessa instituição. É importante que as pessoas conheçam esse trabalho feito com quem enfrenta esse problema grave. Enquanto instituição e enquanto cidadão, nós precisamos colaborar, conhecer e apoiar”, afirma.
O voluntariado é uma forma de doação que não se conta em moedas, mas em presença e empatia. Patrícia entende que o papel do voluntário é ser o amortecedor entre a dor física e o peso da existência. Para ela, a cultura de doação atinge seu ápice quando o doador oferece o seu sentimento mais genuíno a um desconhecido: Acreditamos muito em uma frase de Patch Adams: comprimidos aliviam a dor, mas o amor alivia o sofrimento. Poder amar uma pessoa que você nunca viu, alguém que não conhecia… é tudo sobrenatural. Nem sempre a cura vai ser possível. E quando não é possível, por que não amar? O amor é de graça, não custa nada. É isso que nós fazemos”.
A sustentabilidade dessa rede de afeto em Imperatriz é formada além dos voluntários, mas também de parcerias com o setor empresarial. Desde 2015, o empresário Allan Gomes decidiu que o crescimento da empresa deveria caminhar lado a lado com o fortalecimento de uma instituição séria na cidade. Para ele, o orgulho de olhar para trás e ver a evolução da casa de apoio é o que alimenta a renovação do pacto para o futuro. “A demanda das pessoas carentes que procuram nossa cidade em busca de tratamento é muito alta. A Alvorada se sente privilegiada de fazer parte dessa história e de ter ajudado com uma parcela no crescimento de tudo isso”, afirma. E o compromisso foi selado como uma cláusula de existência da própria empresa: “Enquanto a Alvorada existir, manteremos e reforçaremos essa parceria em 2026 e para todos os anos que virão”. Diz.
Todo esse esforço coletivo, que une pessoas de diversas esferas da sociedade, deságua em um único objetivo: a transformação de quem atravessa o portão em busca de acolhimento. Para Terezinha de Paiva, uma paciente de Açailândia, a instituição deixou de ser um endereço de passagem para se tornar um centro de renovação. Ela descreve a experiência não como uma estadia hospitalar, mas como um convite à reconstrução de si mesma. “É um lugar muito acolhedor, as pessoas são muito humanas. Temos ajuda a qualquer hora, a qualquer momento”, relata. Para ela, o maior benefício da rede de apoio não é apenas o leito físico, mas a reestruturação das forças invisíveis que sustentam o corpo: “Quem quiser vir para cá, venha com o coração aberto para mudanças, porque aqui a gente muda o interior, o espiritual e o emocional”.
O fluxo de assistência oncológica em Imperatriz, embora ancorado em equipamentos de alta tecnologia e repasses públicos, encontra sua sustentabilidade real na rede de apoio civil. O balanço de 2025 revela que a infraestrutura hospitalar garante o protocolo, mas é a cultura de doação que ajuda na adesão ao tratamento. Para quem atravessa o estado em busca de cura, a diferença entre desistir e continuar reside no acolhimento gratuito oferecido por instituições como a Ampare e o Instituto Amar Mais. Irlane sintetiza o impacto desse ecossistema:
“Cada rosto que passa por aqui carrega uma história marcada por diagnósticos difíceis, lágrimas silenciosas e medos profundos, mas também por coragem, fé e vontade de viver. Em 2025, a casa foi abrigo, colo e escudo; lugar de descanso para o corpo cansado e de esperança para a alma que insistia em crer. Aqui, ninguém enfrenta o câncer sozinho. Entre consultas, quimioterapia e esperas, houve mãos dadas e amor servido em cada detalhe. Cada sorriso registrado é uma vitória e cada dia vivido é um milagre que celebramos.”
O cenário da saúde pública de Imperatriz é um esforço compartilhado. Enquanto o Estado provê a técnica, a sociedade civil e o terceiro setor provém o acolhimento. O impacto de casas como a Ampare e o Instituto Amar Mais mostra que a cultura de doação é um investimento coletivo na vida. Apoiar essas entidades, seja com recursos financeiros, insumos ou o voluntariado, é ajudar a garantir que o som da porta de entrada continue sendo, para tantos pacientes, o som da esperança, do recomeço. Conhecer de perto esse trabalho ou buscar iniciativas semelhantes em sua própria região é o primeiro passo para transformar a realidade de quem luta contra o tempo. Afinal, quando a sociedade decide não ser indiferente, a cura deixa de ser apenas um protocolo médico e se torna um compromisso humano.
Aqui temos uma história de reencontro, com Irlane Gomes:
Saiba mais sobre o Instituto Amar Mais:
Endereço: R. Cândido Mendes, 754 – Bairro Bom Sucesso
Telefone: (99) 99180-1501
Site: https://institutoamarmais.com.br
Instagram: @amarmaisoficial
Aqui temos uma história de humanidade, com Carla Patrícia:
Saiba mais sobre a Ampare:
Ampare Escritório – R. Bom Futuro, 253 A
Telefone: (99) 99184-0637
Solar da Ampare – Av. Newton Bello
Instagram: @amigosdaampare
Reportagem realizada sob orientação da Profª Dra Leila Lima de Sousa