“O desenvolvimento de Pastos Bons foi uma coisa extraordinária”

Moradores da cidade falam sobre mudanças 49 anos após pavimentação da BR-230

Laiza Cristina Rego

A piçarra quente absorvia os raios solares enquanto pessoas a pé, de bicicleta, em animais e pouquíssimos carros passavam em ritmo constante. Em meio à dança de gente e calor, surgiu a história de transformação e progresso da BR-230, que foi pavimentada entre os anos de 1969 e 1974, mais precisamente no trecho de Pastos Bons (MA). Três antigos moradores da cidade falam não apenas das vantagens, mas também dos desafios e os impactos desta intervenção rodoviária. Entre os cenários de nostalgia e mudança, as histórias entrelaçadas de José Gonçalves Martins dos Santos, Raimunda Alves de Jesus e Erotildes Dantas do Rego, se erguem junto à pavimentação dessa emblemática rodovia.

José, 66 anos, aponta que a BR-230 é uma das maiores do Brasil e trouxe inúmeros benefícios às regiões por onde passa. Antes da pavimentação, para chegar a uma cidade vizinha de Pastos Bons, Floriano, no Piauí , uma distância considerada pequena atualmente, podia demorar muito para ser percorrida. “Não é uma extensão muito longa, são 146 km e a gente demorava praticamente seis horas para chegar. Hoje, com a pavimentação, a gente faz o mesmo percurso em duas horas”. José menciona as grandes dificuldades que a estrada de chão trazia com os buracos, a poeira e os atoleiros, que dificultavam bastante o percurso e ocasionaram muitos acidentes.

Estrada de piçarra na frente do antigo Fórum Municipal (foto: Arquivo IBGE)

Com a pavimentação, segundo José, o escoamento de grãos, atividade que praticamente não existia na região, foi incrementado. Para ele, a obra significou “desenvolvimento”, e ele refletiu a respeito de como as cidades crescem nesses contextos. “Passamos a ter desenvolvimento de indústrias, os meios de transporte ficaram mais sofisticados, e a saúde chega com mais segurança, porque as pessoas têm como se deslocar com mais rapidez”. Mas José também abordou os desafios, como os assaltos, já que os criminosos conseguem fugir mais facilmente devido à facilidade de acesso à rodovia.

 Mudanças

Erotildes, 63 anos, que morou a vida inteira em um povoado da região de Pastos Bons, próximo a BR-230, informa que a estrada tinha apenas piçarra. Inclusive, antigos moradores da cidade a chamam por esse apelido. A falta de saneamento básico era um problema naquela época, já que pela ausência da pavimentação, os esgotos eram a céu aberto, e pouquíssimas pessoas tinham acesso à água encanada. Erotildes pondera que, após a pavimentação, os acidentes aumentaram muito, devido ao aumento do fluxo de veículos. “As pessoas ficaram muito imprudentes, e aumentou muito o trânsito”. Porém, ela mantém expectativas: “Para transportar alguma coisa, a gente tentava conseguir trator, porque tudo atolava, e a gente esperava que melhorasse e melhorou mesmo”.

A maior facilidade de escoamento de grãos e o fortalecimento da agricultura familiar foram benéficos, de acordo com Erotildes. As pessoas da zona rural geram o seu sustento financeiro a partir desse trabalho, e vendem seus produtos na feira que acontece todo domingo, nas margens da BR-230.

Registro do antigo Mercado Municipal (foto: Arquivo IBGE)

Raimunda, 90 anos, declara que antes da piçarra, não existia uma estrada, era apenas um pequeno caminho onde a população passava para chegar à cidade. “Um tempo depois, com a história da BR foi que apareceu a estrada de piçarra”, comenta.

A moradora ressalta sobre a dificuldade de locomoção na época. O trajeto de Pastos Bons a Imperatriz podia levar de dois a três dias. Viagem que hoje, após a pavimentação, é feita em algumas horas. Raimunda fala também sobre a grande quantidade de acidentes que aconteceram após a chegada do asfalto na região “Esses dias teve um aqui perto”.

Também menciona que as pessoas passaram a ter mais acesso à educação, algo que se deu graças aos avanços adquiridos ao longo do tempo. “Hoje o povo só vê o mundo com dificuldade, tem mais sabedoria, mas dificulta mais as coisas”, acredita Raimunda.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto também é notícia”, ou “Meu canto também tem história”, desenvolvido por estudantes do primeiro ano de Jornalismo da UFMA de Imperatriz. A intenção foi desenvolver as técnicas de pauta, apuração, entrevista, redação e edição com temas locais. Esta também é a primeira publicação individual desses e dessas estudantes.