“Ninguém arredou o pé”: assim o povo fez morada no bairro Cinco Irmãos

Comunidade luta há mais de 20 anos pela manutenção do seu território

Camilla Sousa

Maria Leal

Quase três décadas após um episódio de violência que desencadeou a ocupação de uma área marcada pelo abandono, os moradores do bairro Cinco Irmãos, em Imperatriz, ainda carregam lembranças da resistência que transformou um matagal improdutivo em território reconhecido por lei. Entre enchentes, insegurança fundiária e a ausência do poder público, famílias ergueram casas, abriram ruas e consolidaram uma comunidade que resiste, celebra conquistas e ainda enfrenta desafios para garantir dignidade e infraestrutura básica.

Tudo começou como um ato de urgência diante da violência. Em 1998, um crime na área foi o estopim para as mobilizações. “Aconteceu o estupro de duas mulheres. Elas foram levadas para dentro desse capim aí, pra beira do riacho Capivara”, expõe Lázaro Alves Ferreira, liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que participou da articulação da ocupação.

Reunião realizada pela Fumbearte em 2001 com as lideranças do bairro. (foto: acervo da Associação de Moradores)

Naquele mesmo ano, moradores e agentes pastorais iniciaram mutirões de limpeza para abrir caminhos e garantir segurança. “A gente se reuniu, enquanto comunidade e igreja,  umas 200 famílias”, relata a liderança. O processo culminou, já em 1999 e 2000, na chegada e demarcação de lotes e construção de abrigos improvisados em meio ao barro, à vegetação fechada e à ausência de infraestrutura. Logo após o avanço, a tensão aumentou. A ocupação enfrentou duas ordens de reintegração de posse entre 2000 e 2001, e o risco de expulsão reacendeu o medo entre os ocupantes. “Todo mundo nas suas casinhas. Mesmo de Taipa, casinha na beira do brejo, as famílias resistiam. Ninguém arredou o pé”, relembra Lázaro.

Diante da iminência de serem removidos, o grupo buscou ajuda institucional. “A gente recorreu à Secretaria de Ouvidoria, que nos levou até a Defensoria recém-criada. Conseguimos advogados para defender o povo e garantir a permanência no local”, explica Lázaro. A segunda reintegração, em junho de 2001, levou lideranças comunitárias a buscar diálogo direto com o poder público. “Fomos conversar com o Jomar. Sentamos e pedimos o apoio da prefeitura”, diz o líder, referindo-se ao então prefeito de Imperatriz, Jomar Fernandes Pereira Filho.

Famílias agradecem ao prefeito Jomar após a sanção da lei que garantiu a posse dos lotes. (foto: Associação de Moradores)

Segundo ele, o prefeito ouviu o grupo e pediu tempo para levantar as documentações. “Achamos o proprietário. O Jomar assumiu o compromisso de 80 terrenos, e a prefeitura comprou e entregou às famílias que já moravam ali”, afirma. O restante dos lotes seguiu na Justiça, mas nunca mais houve contestação dos reclamantes. “Assim nasceu oficialmente a Vila JK, área que compreendia da rua onde mora dona Isabel até a Igreja Nossa Senhora do Carmo, que vai até a beira do 50 Bis. Foi uma luta do povo que resistiu e persistiu. Na época já eram cerca de 400 famílias”, detalha Lázaro.

Com o tempo, mais títulos foram entregues, cerca de 200 no total, e a Vila JK se expandiu, incorporando outras áreas. “Hoje juntaram tudo e chamam de Cinco Irmãos”, resume Lázaro, destacando que muitos terrenos originais foram divididos e adensados ao longo dos anos.

Mudanças

Aqueles que se instalaram naquele período encontraram um cenário de precariedade. Isabel Gonçalves Rego, 81 anos, chegou ao local em 2000 e ocupou um terreno praticamente inabitável. “Nós pegamos um lote na beira da grota e precisamos de umas 200 carradas de barro para poder fazer uma morada”, rememora. Ao seu lado, o marido, José Morais Rego, 86 anos, reforça o tamanho do esforço. “Passei seis anos ajeitando esse terreno… botei mais de mil carroçadas de barro”, declara José

Outra moradora, Edivânia de Sousa Silva, 60 anos, vivia praticamente sobre a água. “Meu quintal era só tábua pra andar, porque não tinha chão. Era a lagoa”, lembra. Ela descreve madrugadas de risco. “Minha cama box boiava quando enchia”. Mesmo elevando o piso três vezes, a casa continuava alagando.

No início, as ruas eram formadas por varas, madeira e pequenas moradias. “Aqui era só barraco de tábua. Todo canto tinha um”,  destaca Isabel. A ausência do Estado era tamanha que muitos serviços surgiram por iniciativa dos próprios moradores. “Trazia coisas pro Dia das Mães, fazia bingo, lutava por cursos, sempre tinha reunião”, conta Edivânia sobre o trabalho da antiga associação liderada por Edilson Silva Sousa.

Primeira missa realizada no bairro Cinco Irmãos da comunidade Nossa Senhora do Carmo. (foto: acervo Edivânia de Sousa)

A fé também teve espaço na ocupação. “A primeira missa foi debaixo dos pés de árvore, ali na Dom Marcelino”, narra Edivânia. Antes de contar com a igreja de alvenaria da comunidade Nossa Senhora do Carmo, hoje com piso de granito e estrutura ampliada, os cultos eram realizados nas casas. “Eu comprei uma casinha só pra virar sala de aula e espaço de reuniões”, comenta Isabel, sobre projetos de alfabetização que funcionaram nos anos 2000.

Desafios

Com o passar dos anos, o bairro venceu parte das dificuldades e ganhou equipamentos públicos. “Agora ficou bom. Temos comércio, posto de saúde, UPA, escola. Até Mateus vai ter aqui”, comemora Isabel. Para Maria Santana, que chegou em 2007, a mudança é visível. “Agora estão fazendo a galeria. Antigamente a gente levantava de madrugada pra puxar água pras crianças não pisarem dentro da lama”, informa. Apesar dos avanços, problemas persistem. “A criminalidade mudou muito. Graças a Deus melhorou em relação ao que era”, aponta Edivânia.

“Era isolado, tinha ponto de vender maconha em todo canto e um matador que comandava o bairro”,  acrescenta José sobre os anos mais violentos. Mesmo figuras contraditórias marcaram a memória local. “Ele era ruim, mas não tinha vizinho melhor que ele. Ajudava todo mundo”, observa Isabel sobre um traficante assassinado em 2008.

As enchentes, porém, seguem sendo uma das maiores dores da população. “Alaga ainda, mas não como antes. Antigamente a água ficava o dia todo e chegava na coxa da gente”, compara Edivânia. José confirma a esperança de melhorias. “O prefeito tá fazendo uma galeria para o Capivara. Parece que vai dar certo”, comenta, referindo-se às obras desenvolvidas na gestão do prefeito Rildo Amaral.

A falta de lazer é outra queixa constante. “Não tem praça pras crianças”, denuncia Reginalda, alfabetizadora da Jornada de Alfabetização de Jovens e Adultos nas Periferias. Isabel recorda que já houve um espaço de convívio. “Nosso lazer era o Pesque e Pague Chicó”. Hoje, a comunidade sente falta de áreas seguras para as famílias.

Entre os moradores mais antigos, a luta continua sendo por infraestrutura básica. “Nós estamos precisando de drenagem nos igarapés. E mais segurança, iluminação e sinalização”, pontua Isabel. A Rua JK, uma das vias mais importantes, ainda causa preocupação. “Dá uma chuvinha e fica todo mundo isolado”, alerta.

Mesmo com tantos obstáculos, a força da coletividade seguiu sendo a marca da região. A antiga “voz”, um sistema de alto-falantes improvisado, era símbolo dessa união. “Era orelhão na frente de casa. Ligavam pra mim e eu chamava o povo”, menciona Edivânia. A comunicação era tão crucial que, segundo ela, a voz fechou por causa de um assalto. “Eu considerava um recurso importante pra quem não tinha acesso à informação”.

Vizinhos em turma de alfabetização que funciona na casa de Isabel e José. (foto: Camila Sousa)

Duas décadas depois da ocupação, o Cinco Irmãos carrega as marcas da luta pela terra e pela sobrevivência, enquanto seus moradores seguem reivindicando dignidade. Como disse José Morais, repetindo um conselho antigo: “Disseram pra nós não vender, porque aqui ainda vai ser o coração de Imperatriz”.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2025.2, contou com a colaboração, nas correções finais, da aluna estagiária Milena do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul.