Moradores antigos narram as transformações da Vila Nova

Professora aposentada e empresário contam suas impressões do lugar que nasceu com a cidade

Luiza Ribeiro

Professora desde os 17 anos de idade, Maria do Carmo Rodrigues de Souza chegou à Vila Nova em 19 de fevereiro de 1976. Veio de Ibipira, povoado de Mirador, com o marido, seus seis filhos, galinhas e um gato num ônibus, além de “uma quéra de menino e um monte de tralha”, diria mais tarde sua primogênita Maria Félix. Viajou mais de 500 km para residir no terreno comprado por seu irmão Francisco, que já morava em Imperatriz e garantiu o emprego de motorista no Hotel Anápolis para o pai da família, Félix Quirino. O terreno ficava em uma das três únicas ruas do bairro.

Maria do Carmo foi uma dentre os que vieram à Imperatriz e se instalaram com a perspectiva de uma vida com mais oportunidades. Na época, conforme conta, havia aqui “somente rascunhos” de Bacuri, Nova Imperatriz e Vila Nova, esta última apenas com as vias A, B, onde fixou residência e C.

O mineiro Sebastião Cândido Soares se mudou para a cidade em julho de 1979, vindo de Anápolis (GO) para gerenciar uma loja de materiais de construção. Ficou um mês trabalhando para depois buscar a família. “Eu tinha 24 anos. A Liliam tinha 6 meses e o André, 90 dias na barriga da Cássia. Andei 1.370 km num TL 1971 vermelho, da Volkswagen”, conta o hoje empresário consolidado na região.

Como muitos na época, Sebastião viu potencial no desenvolvimento da cidade e convidou seus irmãos a se mudarem. “Cheguei em Imperatriz no auge do garimpo. Já tinha Banco do Brasil, do Nordeste, Caixa Federal, Bamerindus, Banco do Estado do Maranhão, Econômico, uma agência do Bradesco, revenda Chevrolet, Volkswagen, Mercedes Benz. Imperatriz era um polo, foi por isso que eu vim para cá”.

CHEGADAS

No Censo Demográfico de 1960 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em Imperatriz constavam 39.169 habitantes, dos quais 30.900 não eram naturais da cidade, ou seja, aproximadamente 79% dos residentes. No censo de 1970, a população da microrregião de Imperatriz chegou a 155.262 pessoas, com 83.691 migrantes, correspondendo a quase 54% dos moradores.

Segundo Edgar Oliveira Santos, professor da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (Uemasul), em sua tese “Dinâmicas de desenvolvimento, redes e trajetórias migratórias no contexto da formação histórica de Imperatriz – MA”, produzida na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), em 2018, a expansão da cidade decorreu dos diferentes ciclos econômicos que aconteceram no sudoeste maranhense.

A construção da rodovia Belém-Brasília, entre o fim dos anos 1950 e início dos anos 1960, e os ciclos da madeira e do arroz, que compreendem as décadas de 60 e 70, e do ouro, na década de 80, motivaram fluxos migratórios vindos de todos os estados brasileiros. Imperatriz recebeu mais de cem mil maranhenses de outros municípios e outros milhares de pessoas de estados como Piauí, Ceará, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Pará, Minas Gerais, Goiás e Espírito Santo, de acordo com os dados do censo de 1980.

Sebastião conta histórias de outros migrantes, como a de um anapolino que venceu os mais de mil quilômetros de estrada pilotando uma moto até aqui, instalou residência na Vila Nova, foi vizinho de Maria do Carmo, e é hoje um empresário de renome no ramo alimentício. “Praticamente todas as pessoas que vieram de fora para Imperatriz, vieram com a cara e a coragem”, considera.

MEMÓRIAS

Logo que chegou, Maria do Carmo começou a trabalhar na escola municipal que funcionava na Igreja Católica, na antiga rua B, hoje Dom Marcelino, em homenagem ao frei capuchinho italiano que foi bispo em Imperatriz. O local era muito simples, de chão batido, parede de taipa e telhado de palha. “No início nem porta tinha. Tinha vezes que quando a gente chegava de manhã, jumento tinha entrado, ou, quando não, amanhecia as fezes deles lá dentro”, lembra Maria, hoje aposentada, com 83 anos.

Evoca nomes conhecidos da época, como Derivan Santana, Raimunda Rocha, Zélia, Lourdes, Aciolina e Marinalva, todas professoras que lidavam com a precariedade da escola. “Os meninos tinham que trazer cadeira de casa. Quase não tinha material didático, eles vinham com os cadernos e o lápis”, conta. Como havia professoras que vinham do Centro e voltavam depois das aulas da tarde, os alunos e as colegas de trabalho que moravam no bairro revezavam as casas para o almoço.

Paróquia Menino Jesus antes era feita de taipa e palha (foto: Luiza Ribeiro)

Para ela, a partir de 1980 a Vila Nova já começou a crescer e não demorou para aumentar. Surgiram as farmácias, as que já fecharam, como a “do Manoel do Livro na rua B e a do Braga na rua A”, e as que continuam, como “a Batalha e a da Iraci”. O primeiro mercado foi do comerciante conhecido como Salvador, que também era taxista e levava as professoras para a escola. O primeiro açougue foi o de Custódio, o “marido da Rosinha”.

O comércio também funcionava de porta em porta. Os filhos de Maria do Carmo vendiam o que a mãe fazia para complementar a renda. “Colocava a bacia na cabeça e saía vendendo nas portas. Talhada de abóbora, bolo frito, bolo de macaxeira, a tal da ‘urêa’ [orelha], que era horrível. Tinha também o Seu Padeiro, que vinha de bicicleta lá do Centro com um jacá enorme cheio de pão”, menciona a filha Maria Félix, que mora na rua Euclides da Cunha, antiga C.

Rua Euclides da Cunha, antiga C, corta todo o bairro (foto: Luiza Ribeiro)

Nessa época, a Igreja Católica começou a ser construída e as aulas passaram a acontecer em um lugar próprio da prefeitura. A escola, hoje com o nome de Vespasiano Ramos, na rua Bandeirantes, antiga rua A, se chamava Feliciano Antônio Freire, em homenagem a um intendente de Grajaú da década de 1910. “O Vespasiano Ramos começou com duas salas”, relembra Maria do Carmo, que já foi professora e coordenadora no colégio.

Nome da escola homenageia poeta caxiense Vespasiano Ramos (foto: Luiza Ribeiro)

TRANCOS E BARRANCOS

Sebastião Soares transferiu-se para a Vila Nova em 1982, depois de morar em outros lugares da cidade. “Quando cheguei tinha pouco tempo que o aeroporto tinha sido inaugurado. O setor comercial do bairro na época se resumia a farmácia, mercado e açougue. E tudo era caro! Se em Anápolis valia um real, aqui valia cinco”, informa.

Com memória ainda vívida de quando trabalhava na loja, cita a época triunfante da indústria de madeira da região. “Aqui tinha 390 serrarias, era um polo madeireiro”. Entretanto, a cidade que criava forma não tinha infraestrutura suficiente para tanta demanda.

Segundo o artigo da professora Cláudia Romaneli Nogueira, “Imperatriz: de Vila à Cidade Comercial e Ponto de Apoio no Desenvolvimento Amazônico”, publicado na Revista Espaço Aberto, do programa de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2013, “a carência de estrutura energética dificultava o desempenho das indústrias do setor e da própria vida na cidade, apesar da implantação de central elétrica em 1971, pela Central Elétrica do Maranhão (Cemar), no intuito de atender à crescente demanda industrial”.

Contrapondo o desenvolvimento que se consolidava nos negócios do Centro, os serviços básicos para atender a população que crescia refletiam a resposta atrasada da administração pública. “Na Vila Nova não tinha nem um metro de asfalto, era lama, lixo, cachorro, jumento, mosquito, buraco, muriçoca. No córrego não tinha ponte, quando chovia você passava dentro d’água. Era super atrasada”, afirma Sebastião.

Entre as décadas de 1980 e 90, segundo dados do IBGE, 13.520 dos imigrantes que se fixaram na cidade provinham do Pará. Para Cláudia Romaneli, em seu artigo, isso aconteceu “possivelmente pela desativação dos diversos garimpos de ouro, especialmente o de Serra Pelada”.

“Na época da Serra Pelada era muito comentado o garimpo aqui, de quem bamburrava e comprava casa. É tanto que as casas aqui na Vila Nova eram baratas, mas começou a aumentar o preço. A Serra Pelada chegou na Vila Nova”, garante Do Carmo. Quanto a isso, as opiniões de Sebastião são mais enfáticas. “Garimpo não traz desenvolvimento nenhum. Traz movimento de comércio temporário. Enquanto se garimpa, se tem. Se acabou o ouro, acabou tudo. Só deixa desorganização, mulherada doida e cachaça”.

PODER PÚBLICO

A participação do poder público na vida do bairro, segundo relata Maria do Carmo, foi lenta. “Primeiro a escola, depois a energia elétrica. Com muito tempo depois começaram a distribuir os lotes para quem queria botar a banca para vender”, expõe, referindo-se à área em que hoje funciona a feira. “Eu lembro que enterraram esses postes aí e passou foi muito tempo para pôr esses fios. Quando colocavam os postes a gente já ficava contente”, declara Maria Félix.

Raimunda Lima Reis, conhecida como Dona Morena, foi a fundadora da associação de moradores do bairro. No prédio da associação passou a existir uma escola. “Aquilo ali era para as reclamações, de coisas para a melhoria do bairro”, diz a mãe. “Melhoria essa que nunca chegava”, completa a filha.

Carros reduzem velocidade em trecho da Dom Marcelino (foto: Luiza Ribeiro)

Comparando as condições atuais da cidade com as que presenciou no começo da década de 80, Sebastião não supõe que a conjuntura seja a das melhores. “Quando cheguei, não tinha Vila Lobão, os Três Poderes era tudo no chão. E continua no chão, né? Buraco puro. Imperatriz era uma cidade abandonada, hoje está um pouquinho mais abandonada”. Sobre a Vila Nova, ele considera que é um bairro fácil de ser asfaltado, já que tem terreno plano, sem morros, e reclama. “Se você pega ali a rua da Igreja Cristã Evangélica e segue reto, é uma buraqueira doida. Só a rua central é asfaltada”.

Segundo o Portal da Transparência, em 2023, só com repasses federais para o município, Imperatriz recebeu mais de R$ 440 milhões. Em repasses estaduais, no primeiro semestre, aproximadamente R$ 97 milhões, somados o Fundo de Compensação pela Exportação de Produtos Industrializados (FPEX), e os IPVA e ICMS, conforme os dados disponibilizados no site da Secretaria da Fazenda do Maranhão.

“Falta administração para desenvolver, faltam bons administradores, pessoas com amor à causa pública. A Vila Nova tinha tudo para ser um bairro nobre de Imperatriz”, acredita Sebastião Soares.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto também é notícia”, ou “Meu canto também tem história”, desenvolvido por estudantes do primeiro ano de Jornalismo da UFMA de Imperatriz. A intenção foi desenvolver as técnicas de pauta, apuração, entrevista, redação e edição com temas locais. Esta também é a primeira publicação individual desses e dessas estudantes.

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