MODA SEM REGRAS: A BELEZA ALÉM DO NORMATIVO

Estética, revolução e representatividade, palavras que obtêm um forte significado quando o assunto é mulheres que rompem com a ditadura da beleza imposta pela sociedade.

 

Por Basiliano Neto, Elenir Castro e Venilson Carneiro

A união das mulheres ajuda na quebra dos padrões de beleza. Reprodução da internet.

Quando se fala de moda e pressão estética as mulheres ganham o papel de destaque. Sendo as protagonistas nesse ramo, o sexo feminino revolucionou o mundo fashionista lutando contra a padronização e a favor da inclusão para que todas as raças, corpos e cores sejam hoje vistos com a beleza que possuem. A estilista e costureira americana Zelda Wynn, consolidada como uma das maiores referências da moda afro-americana, foi uma pioneira nessa batalha na década de 1940. Zelda se tornou um ícone mundial da moda e inspiração para que outras pessoas negras atuassem nesse ramo.

A topmodel canadense Winnie Harlow é outro exemplo de que cada mulher tem sua beleza própria, ela é portadora de vitiligo. Mesmo que tenha sofrido muito por isso, a modelo desafiou os padrões de beleza internacionais e desfila em passarelas por todo o mundo. No universo fashionista atualmente existem outras representatividades, como a moda plus size que já ganhou diversas formas e superou vários desafios.

O termo Plus Size, utilizado para se referir às mulheres fora das medidas padrão, foi utilizado pela primeira vez em 1920, pela norte-americana Lane Bryant. Na metade da década de 1980 a empresa com o mesmo nome, Lane Bryant, trouxe para o mundo da moda um novo conceito de luxo e elegância para as mulheres robustas, com slogan “estilo não é um tamanho, é uma atitude”. No ano de 1984, Mary Duff criou a primeira agência de modelos plus size do mundo, em Nova York, considerada como a primeira agência de modelos com corpos que iam além do esperado nas passarelas. Alguns anos mais tarde, em 1988, Mary vendeu a empresa para Ford Models, mas nunca deixou de trabalhar na área.

Ter os cabelos coloridos na década de 1980 era um sinal de rebeldia, de pertencer a uma moda considerada excêntrica. Com o passar do tempo, a moda de pintar mechas ou o cabelo todo, de rosa, azul, lilás, verde e entre outras cores vibrantes se tornou um estilo de adolescente, que queria mostrar sua personalidade e se diferenciar do grupo. Logo em seguida, ter os cabelos coloridos parou de ser apenas uma “modinha” de jovem e ganhou notoriedade no mundo da moda, ainda que o preconceito o acompanhasse.

Mulheres negras, brancas, gordas, magras, com cabelos coloridos e entre outras variedades de mulheres que vão contra aquilo que por muitos anos foi colocado como padrão enfrentam dentro dessa indústria várias vertentes preconceituosas, por exemplo, racismo e gordofobia. As mulheres como, Thaíres Sousa, Érica Zaya, Bianca Reis, Luana Barros e Mileide Almeida, enfrentam diariamente a indústria da moda dentro e fora de seus limites, são figuras femininas totalmente diferentes, mas que se igualam na luta contra todos os estereótipos de beleza.

 

ACEITAÇÃO, AUTOESTIMA E ENALTECIMENTO DA BELEZA NEGRA

“Eu sempre soube que eu tinha que ser duas vezes melhor do que qualquer pessoa branca”, afirma Thaíres Sousa. Arquivo pessoal.

A modelo e miss Imperatriz 2020, Thaíres Sousa rompe com o padrão de beleza europeu, que é muito valorizado no Brasil. Além disso, por muitos anos a mídia tratou qualquer característica afrodescendente como uma imperfeição e não com traços inerentes e naturais do povo negro, tendo como consequência à desvalorização dessas pessoas. A miss imperatrizense que tem suas características retintas, teve em sua jornada grandes desafios voltados, especialmente, para seus traços negros, precisou se esforçar muito para conseguir destaque tanto nas passarelas quanto fora delas.

Thaíres relata que o mercado da moda é extremamente racista, com escassez de pessoas negras, não porque elas não querem atuar nesse âmbito, mas pelo fato de terem poucas oportunidades. “Geralmente quando vou fazer um trabalho, só tem eu de negra. Eles chamam por que hoje em dia já tem mais essa demanda, antigamente as pessoas não se preocupavam com isso e hoje em dia já se preocupam, mas é extremamente racista”, destaca a modelo.

Ao aceitarem sua beleza e cultura as pessoas negras estão resistindo, elevando seu protagonismo e significado, expondo a beleza que muitas vezes são usurpados com a apropriação cultural. Thaíres afirma que “ter mulheres negras no mercado fashionista com certeza impulsiona outras mulheres negras”. Representatividade é fundamental no processo de aceitação e valorização à cultura e a beleza negra. É de grande importância que mais mulheres negras estejam na TV, no cinema, na ciência, nas passarelas, na política, nos palcos ou em qualquer outro lugar de destaque. Para que assim, meninas afrodescendentes se inspirem e se vejam em lugares de protagonismo onde por muito tempo só era possível ser alcançado por pessoas brancas.

 

IDENTIDADE CONSTRUÍDA ATRAVÉS DOS CABELOS

Assim como a modelo Imperatrizense, Érica Zaya é uma mulher negra, tem 24 anos, licenciada em educação física, atualmente é atendente em uma conveniência e chama atenção pelo seu carisma e, sobretudo, pelo cabelo Black Power.

Érica expõe as dificuldades de ter o cabelo crespo na infância, período em que as outras meninas negras alisavam seus cabelos para se sentirem encaixadas de alguma forma na ditadura da beleza. Porém, ela nunca alisou os seus fios e sofreu muito com isso, “por que em uma época em que as meninas crespas e cacheadas alisavam o cabelo, por uma parte elas se encaixavam no padrão, eu não me encaixava naquele padrão, nem com as meninas negras, porque elas alisavam e eu não”, relembra Zaya.

“O meu cabelo, pra mim não é moda, é a minha identidade, é a minha resistência”, enfatiza Érica Zaya. Foto: Basiliano Neto.

“Desde criança eu vou pra salão, minha mãe mandava alisar meu cabelo desde meus cinco, seis anos de idade, então sempre tive aquele contato, era aquela coisa, ‘não sabe pentear’, ‘esse cabelo tá duro’, ‘dá trabalho pra pentear’”, também lembra Thaíres Sousa quanto a questão do cabelo.

Atualmente, assumir os fios crespos ou cacheados é uma questão de resgate de uma identidade desvalorizada por comentários e implicância da sociedade, que impõe padrões estéticos a serem cumpridos.

Por um longo período, os cabelos deviam ser lisos e claros para serem bonitos, enquanto cabelos crespos e escuros eram considerados um erro. Com isso, surgiu o termo “cabelo ruim” que ainda se faz presente no vocabulário dos brasileiros. Essa é mais uma forma racista que desqualifica a origem negra. “O cabelo cacheado, o cabelo crespo, o Black Power é uma resistência, às vezes alguém fala que meu cabelo está na moda, mas o meu cabelo, pra mim não é moda, é a minha identidade, é a minha resistência”, argumenta Érica Zaya.

Os cabelos coloridos também fazem parte de uma identidade, as pessoas começaram a usar esse visual quando iniciou o movimento punk, em meados da década de 1980. A intenção era mostrar sua rebeldia contra o sistema e também expressar a sua personalidade. Atualmente as mulheres usam seus cabelos para expressarem sentimentos e personalidades.

Bianca Reis, 21, é proprietária do primeiro salão de beleza em Imperatriz voltado integralmente para os cuidados com cabelos coloridos. A colorimetrista, antes de abrir o salão, cursou quatro períodos da graduação de História. Bianca não se sentia mais confortável no âmbito acadêmico e resolveu abandonar o curso. Depois de um tempo sem perspectivas, ela conheceu uma profissional que oferecia um curso para técnicas em cabelos loiros, com o incentivo da mãe ela iniciou as aulas. Seis meses depois da certificação a colorimetrista adaptou as técnicas para usar em cabelos coloridos. Com um lavatório e uma cadeira usada Bianca abriu o seu salão, “foi a minha salvação, eu não imagino como teria sido minha vida se eu não tivesse sido acolhida por essa profissão”, relata Reis.

“Tive uma exnamorada que disse que não conseguia me levar a sério por causa do meu cabelo”, relembra Bianca Reis. Foto: Basiliano Neto.

Geralmente pessoas com suas madeixas pintadas de cores vibrantes são julgadas, principalmente, mulheres. Em muitos casos, essas pessoas não são levadas a sério no trabalho, na escola, em lugares privados e entre outros, como foi o caso de Bianca, “tive uma ex namorada que disse que não conseguia me levar a sério por causa do meu cabelo”.

O cabelo colorido é uma identidade, é como se cada cor demonstrasse o que está sentindo. Apesar do crescimento de adeptos a esse estilo, ainda é difícil encontrar representatividade nas grandes mídias, e quando tem um personagem com esse tipo de cabelo é algum ser místico, e não pessoas reais. Bianca finaliza que “algumas mulheres negras perguntam se uma mulher negra pode pintar o cabelo de ruivo, e porque não poderia? Você pode o que você quiser”.

 

CORPOS FORAM FEITOS PARA SEREM DIFERENTES

O magro sempre foi colocado como um molde dentro da sociedade, isso fez com que por muito tempo os corpos médios ou gordos fossem colocados como inválidos, ou mesmo uma deformidade. Milhares de pessoas sofrem por conta da pressão da sociedade na procura de um padrão de beleza considerado como “correto”. No entanto, diante de um campo social onde o corpo é um assunto delicado, as mulheres plus size reivindicam espaços para mostrar que a beleza independe dos padrões e isso inclui todas as formas de corpos.

A jornalista e especialista em Assessoria de Comunicação, Luana Barros, também é criadora de conteúdo, em suas redes sociais, fala sobre moda plus size e também abrange outros assuntos importantes. Assim como milhares de outras mulheres com histórias parecidas, se não idênticas, a jornalista começou a receber olhares ainda na infância, por ser uma menina “farta”, em locais de trabalho também já ocorreram episódios gordofóbicos com ela.

“Eu já sofri em vários locais, trabalho, escola, em atividades físicas pessoas olharem torto. Uma vez eu fui fazer umas fotos e a dona da loja disse que na próxima vez eu tinha que usar uma cinta por que minha barriga estava marcando a roupa”, revela a jornalista.

“A busca pelo corpo perfeito existe, mas é inalcançável”, afirma Luana Barros. Arquivo pessoal.

O crescimento da moda plus size faz essas pessoas se sentirem representadas em um mercado de consumo em que antes elas não tinham espaço. Contudo, às vezes esses corpos só são apresentados nas mídias por conta de pressão das pessoas que militam por essas causas. Portanto, apesar de serem mostrados em comerciais, lançamentos de roupas e outras formas de visibilidade, os corpos gordos ainda são descriminados e considerados imperfeitos.

Mileide Almeida, 22, estudante de administração foi agenciada por Dilson Stein que é considerado o maior descobridor de modelos do Brasil. Após fazer um vídeo em uma de suas redes sociais, onde brinca com um comentário sobre seu corpo por ser magra, o vídeo obteve mais de seis milhões de visualizações.

“Na verdade, se formos pesquisar bem hoje em dia não existe padrão. Sou padrão para alguns, e uma pessoa que tem algum tipo de distúrbio alimentar para outros. Dificilmente as pessoas entendem que é genética, a pior parte é a rejeição de algumas pessoas. Então, sofro sim, o “padrão” como dizem, para alguns pode ser vergonhoso de estar perto ou na frente de outras”, pontua a jovem.

“Sou padrão para alguns e uma pessoa que tem algum tipo de distúrbio alimentar para outros”, desabafa Mileide Almeida. Arquivo pessoal.

Levando em consideração que a beleza não é algo unânime, essas mulheres mostram que esse padrão idealizado é algo subjetivo. Esses padrões têm caminhado lado a lado com a história da humanidade e ganharam mais força com as redes sociais, mas é necessário entender que na maioria das vezes esses padrões são inalcançáveis e em constante mudança. O mais importante é saber quem você é, o que você gosta e tenha em mente que o seu padrão é você.

 

Reportagem especial produzida para a disciplina Técnicas de Entrevista e Reportagem (2021.1), ministrada pela professora Nayane Brito.

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