CORES, CHEIROS E SABORES: FEIRA DO MERCADINHO

A Feira do Mercadinho, uma das maiores da região Tocantina, onde atualmente funcionam mais de 300 pontos de comércios formais e informais e é frequentada diariamente por quase cinco mil pessoas, foi fundada pelo ex prefeito de Imperatriz João Menezes de Sousa em meados da década de 60. Para a construção o ex prefeito escolheu uma área de aproximadamente 16 mil metros quadrado, conhecida na época, segundo feirantes como “chapada”. Essa região era um enorme terreno baldio, que foi invadida por sem terras e desapropriada pelo ex interventor estadual da cidade, Bayma Júnior.

 A área onde é localizada o Mercadinho se estende na horizontal da rua Ceará até a rua Paraíba e na vertical da rua Benedito Leite até a  rua Aquiles Lisboa. Na época de sua fundação o Mercado Central (local onde era encontrada a maior concentração de feirantes) foi construído com uma palmeira da região chamada “Pati”. Nos dias atuais, a zona central do Mercadinho tem uma estrutura de concreto, piso de cimento queimado e azulejos de cerâmica, em que os corredores são divididos por produtos na seguinte ordem: artesanatos, ervas e medicamentos, carnes, restaurantes e por último confecções, cereais, comércios e afins.

(99) 98812-3757

Horário: 07:00 às 18:00

R. Benedito Leite -Imperatriz - MA, 65901-260

Bairro: Mercadinho

Pelos corredores da feira 

É no corredor de cereais que se encontra o senhor Osvaldo Carlos de Morais pertencente a cidade de Buritirana e a dona Francisca Murada dos Santos, nascida em Tuntum do Maranhão, criada em Ananindeua, no Pará, cidade onde casou-se e teve 3 filhos.

O feirante tornou-se  especialista na qualidade dos grãos.

Osvaldo é casado, pai de cinco filhos, possui onze irmãos e veio para Imperatriz em 1973, logo após o falecimento de seu pai. O feirante é vendedor de cerais, seu principal produto é a farinha.  É um homem alegre, sorridente e se orgulha muito dos seus cabelos tingidos de preto e da sua história no local, sempre se empolga ao falar da evolução do comércio e do seu espaço de trabalho.

Quando eu cheguei aqui em Imperatriz, o mercado era feito de Pati, não tinha cerâmica e nem bloquete, tudo era cheio de lama. Um dos primeiros a construir aqui fui eu, em 74. No tempo que tinha garimpo aqui, Serra Pelada, o movimento era muito bom. Eu até tentei, mas não deu para mim. O desenvolvimento aqui foi muito pela questão da madeira, cereais e ouro”, relembra Osvaldo.

É do mercadinho que ele tira sua única renda mensal, com uma carga horária de trabalho com média de 12 horas. “É daqui que eu tiro minha renda, não só eu, né?! Muitas pessoas daqui estão nas mesmas condições que eu. Antigamente as vendas aqui eram mais altas, hoje só dia de domingo mesmo, quem lucra muito são as distribuidoras que recebem pessoas de todas as cidades e estados ao redor, Caxias, Santa Inês, Bacabal, até Goiânia, Araguaína, essas cidades mais próximas”, comenta o feirante com o semblante triste.

Osvaldo considera a Feira do Mercadinho como uma CEASA (Central Estadual de Abastecimento) devido ao grande fluxo de pessoas e distribuidoras, embora o local não tenha esse título reconhecido juridicamente.

GALERIA

” Vizinhos de pontos”

 

Ao lado do feirante Osvaldo encontra-se Francisca, uma idosa que aparenta estar por volta dos seus 70 anos, passou boa parte da sua vida em Ananindeua, veio para Imperatriz com o seu falecido marido por volta de 1980 com quem teve seu quarto filho. Sua rotina no mercadinho não se diferencia muito das dos seus “vizinhos de ponto”, como costumam chamar quem trabalha pelas proximidades.

 Sua carga horário de trabalho em média é de 10 horas, seus principais produtos são a farinha e suas confecções. Francisca nem sempre trabalhou diretamente no mercadinho, por um tempo sua renda era tirada do aluguel do seu ponto na feira, o que não é algo muito comum pelo local, já que maioria das pessoas têm apenas aquele espaço para trabalhar. A feirante se viu cansada da vida de aposentada e resolveu voltar a trabalhar no local há cinco anos.

Embora Francisca Murada e Osvaldo Morais vendam praticamente os mesmo produtos, um do lado do outro, não consideram-se como concorrentes ou inimigos, muito pelo contrário, é nítida o afeto e o carinho que sentem um pelo o outro.

Deo, o cearence pioneiro da Feira do Mercadinho. 

Ponto do Sr. Deo

Um pouco mais a frente estar localizado o Comércio do Ceará, no qual o proprietário é o Senhor Deoclecino, chamado carinhosamente pela esposa de Deo. 

Deoclecino é um senhor que trabalha no local há mais de trinta e cinco anos, seu comércio vende de tudo um pouco, cereais, produtos de higiene e limpeza, verduras, ervas e artesanato. O feirante está sempre disposto a conversar, é um homem corajoso e cheio de entusiasmo, sua rotina de trabalho em média são de 12 horas. Ainda com o sotaque muito forte, é do município de Novo Oriente do Ceará, veio para Imperatriz pensando no melhor para as suas três filhas, uma delas com apenas 10 meses de idade. Muito preocupado com a família, Deoclecino diz que sua vinda para Imperatriz teve influência da sua esposa, pois em Novo Oriente o índice de violência é muito alto.

“Eu vim pensando no melhor para minhas filhas(…), eu pensava no estudo delas, inclusive, eu tinha uma casa comprada no nosso município e essa daí (se referindo a esposa) disse que ia para qualquer lugar, menos para Novo Oriente, por que lá tinha muita vagabundagem, muita coisa terrível, então de repente ouvi falar de Imperatriz no Maranhão, foi um nome chamativo para mim, de repente eu larguei tudo e vim tentar a vida aqui”, relembra Deoclecino de forma bem humorada.

  O vendedor se orgulha em dizer que foi um dos primeiros a chegar no lugar, principalmente em ser o primeiro feirante a reformar a loja, tirar a palmeira pati e por tijolos. Por conta disso, Deoclecino chegou a ser denunciado e fiscalizado, pois acharam que ele estava fazendo a obra sem autorização da prefeitura. 

“Quando dei fé chegou aqui os fiscais da prefeitura perguntando se eu tinha autorização de construção, então eu disse que tinha uns papeis e se estivesse faltando alguma coisa a culpa não era minha por que o que mandaram fazer, eu fiz”, recorda Deoclecino.

“A resina é capaz de limpar o ambiente e liberá-lo de   energias negativas”, explica a feirante.

A resina de anesca é um dos produtos mais procurados na banca. 

Zilma exibi-se diante da variedade de produtos que suas loja dispõe. 

A banca da historiadora

Já em outra parte do mercado central, no corredor de ervas está localizado o ponto de Maria Zilma Rodrigues Silva, formada em história na UEMASUL de Imperatriz, trabalha no mercadinho desde 1993, é uma jogadora nata do jogo do bicho, Maria Zilma é uma das mais calmas e receptivas do local, sua loja não é uma das maiores, porém é uma das mais completas. A comerciante expõem na entrada da loja com muito carinho uma foto do seu marido que faleceu há 2 anos. Segundo ela é uma homenagem em lembrança a tudo o que ele viveu no feira. “A mãe dele trabalhou quando aqui era de pati, ele era criança, ou seja, ele esteve no mercadinho a vida dele toda”, explica Maria Zilda.

 A historiadora tem um grande amigo chamado Ideltrone também formado em história e direito, ele sempre está no mercadinho, pois apesar de ter um ponto que vende ervas o local também serve como seu escritório, existe uma sintonia entre os dois, uma relação de amizade muito forte.

 Na loja de Zilma, suas ervas são muito populares, algumas exóticas, como ela prefere chamar “ervas diferentes”, que é o caso da resina de amesca, utilizada para fazer cera que ao queimar sua fumaça exala um aroma leve e adocicado e é utilizado para acalmar e limpar energeticamente o ambiente. Seu público alvo para a venda desse produto são as igrejas e pessoas que fazem meditações. Entretanto, o seu principal produto é o sal natural, também conhecido como sal grosso, pois tem muitas utilidades, como para  temperos e banhos, muito comprado por pessoas idosas e religiosas

 

Pontuando!

Por fim, nas entrevistas realizadas entre os primeiros comerciantes do setor do mercadinho, percebe-se que, apesar da disponibilidade dos entrevistados e do grande conhecimento que possuem das origens e do desenvolvimento do comércio do mercadinho, ainda falta uma organização histórica. Talvez por falta de livros aprofundados sobre o assunto, que até então não houve preocupação de se criar, tanto por parte dos feirantes quanto do poder público. O acervo histórico seria de grande utilidade pois serviria de base para que outras pessoas façam uma pesquisa mais aprofundada a respeito desse setor comercial de Imperatriz. O mercadinho ainda que não tenha uma literatura sobre a história do comércio, continua fazendo sua própria história. Portanto com o uso apenas dessas fontes variadas podem-se oferecer diferentes entendimentos na abordagem do tema comércio do mercadinho, seja pelo o seu caráter econômico e até mesmo social. Por conta disso futuros pesquisadores sobre o assunto terão pela frente um grande desafio: a tarefa de vivenciar na prática, e registrar em livros as relações do comércio e dos trabalhadores que ali estão.

 

 

Expediente

Ana Campos

Diagramadora-Editora

Fotógrafo

Hugo Oliveira

Iany Santos

Repórter

Felipe Ribeiro

Repórter

Lani Sousa

Fotógrafa