A Praça da Cultura

Recortes de quem vivencia sua realidade

Popularmente conhecida como “Praça da Cultura”, a praça “Prefeito Renato Cortez Moreira”, localizada na rua Coronel Manuel Bandeira, no Centro, é uma das mais antigas de Imperatriz. Inaugurada na década de 60, foi e ainda é palco de diversas manifestações culturais servindo, por exemplo, como uma das principais rotas dos foliões durante o carnaval. Mas, para além da data festiva há os acontecimentos do cotidiano, que influenciam o modo como a praça é compreendida pela pela população. Na narrativa que se segue,  dois senhores que vivenciam o dia a dia nesse ambiente, nos relatam  cada um a seu modo , seus olhares a respeito dela, identificando a sua relevância para a cidade e também evidenciando alguns traços que ameaçam o sossego dos visitantes.

O dia estava radiante e o local bastante tranquilo e silencioso. Exceto por um grupo de taxistas de meia idade que jogava damas de forma ávida. De início ficamos meio receosos de incomodar os senhores no auge de sua jogatina e decidimos entrar no imóvel que hoje abriga a “Academia Imperatrizense de Letras”.  

Ao entrarmos na instituição, que é um dos prédios mais antigos de Imperatriz e que abrigou, pela primeira vez, a prefeitura da cidade, encontramos o professor universitário, Domingos Cezar, que é membro da academia, ocupante da cadeira de número 32 e responsável pelo seu funcionamento. Ele nos recebeu com grande simpatia e bom humor. Nos levou até a biblioteca, onde começamos a conversar sobre a praça e logo ao mencionarmos o nome do local como “Praça da Cultura”, fomos corrigidos com uma verdadeira aula de história. Ele nos explicou que o seu nome original é “Praça Renato Cortez Moreira”. Ela foi uma das primeiras da cidade e inicialmente se chamava “Praça da Concórdia”. O nome ainda causa certa curiosidade para Domingos, que aos seus 62 anos ainda se pergunta, ”porque diabos se chamava ‘Praça da Concórdia?”’, conforme externou 

A praça perdeu o coreto mas ganhou uma fonte de água, com a reforma.

De dia há pouca movimentação. À noite há sempre mais visitantes.

Algumas pessoas aproveitam o tempo livre para a prática de exercícios.

Em uma conversa descontraída ele nos deu alguns detalhes sobre a praça, inclusive sobre sua mudança de nome. Explicou que na época da ditadura militar o então prefeito Raimundinho Silva, para “puxar o saco” do então presidente Castelo Branco,  a renomeou com o nome do presidente militar. Cezar explicou também que o lugar onde hoje se encontra a “Academia Imperatrizense de Letras”, um dia abrigou o “Passo da Cultura”. Isso ocorreu após a prefeitura mudar de endereço. O local funcionava como uma feira de artes e como a praça fica logo em frente, diversos movimentos culturais acabaram por se aglutinar nela. Por conta disso ela é conhecida até hoje como “Praça da Cultura”. 

Questionamos a ele como era a praça antes da reforma e se tinha alguma lembrança que marcou sua juventude. Seus olhos brilharam! E com entusiasmo ele começou a contar algumas histórias. Como a de quando era criança. Na época, havia um tablado de concreto na praça. Embaixo desse tablado costumava dormir um homem que, segundo ele, foi primeiro morador de rua que se tem notícias, na cidade. Todos o conheciam como “Monjuba”. Ele era um andarilho que era visto pelos moradores como um louco e andava cheio de anéis nos dedos. Domingos contou também que nessa mesma laje presenciou um show da banda os “Boogies” que era de São Paulo.  Ela fez bastante sucesso nos anos 60, mas depois desapareceu.

 Domingos explicou que a banda marcou sua mocidade e firmou, de certa forma, a sua ligação com a praça. Uma terceira lembrança é a de sua história de amor. Ela poderia se unir a diversas outras que aquele ambiente já assistiu, não fosse um pequeno detalhe. É que ele — apaixonado desde a infância por uma colega de sala —, a convidou para ir a praça, no intuito de se declarar. Só que, ao chegarem lá, o silencio imperou por intermináveis 15 minutos. A dama, incomodada com o mutismo constrangedor do rapaz, simplesmente foi embora e nunca mais olhou na cara do jovem apaixonado. Hoje ele rir da história, nos contando de maneira leve e descontraída!  

Perguntamos também se ele se lembrava de alguma manifestação popular ocorrida na praça e que lhe marcou. Ele relembrou um episódio de quando era jovem, em que o então prefeito, João Menezes, foi caçado e fugiu de Imperatriz. Quando ele retornou, foi recebido por uma comitiva de figuras públicas e por uma grande concentração de pessoas que ficaram reverenciando a volta do político. Retomamos então sobre a estrutura da praça e Cezar nos relatou que antes havia um coreto. Segundo ele o espaço foi sendo ocupado por pessoas em situação de rua, que moravam dentro da estrutura e traziam uma sensação de insegurança.

A praça fica muito bem localizada. No centro da cidade.

Há também um pequeno parquinho para as crianças.

Depois da reforma, o coreto foi demolido mesmo com algumas manifestações contrárias. Hoje ele deu lugar a uma fonte de água. Foram instalados também um parquinho para as crianças e aparelhos de exercícios. 

Uma outra perspectiva

Ao sairmos da academia os taxistas já haviam trocado a rodada do cobiçado jogo de damas e agora estavam menos eufóricos. Fomos então entrevistar um deles e conversamos com um senhor que, coincidentemente, também se chamava Domingos. Mas ele não estava tão afim de papo! Mesmo assim prosseguimos com o diálogo 

O senhor Domingos contou que é taxista naquele ponto a mais de 13 anos. Explicou que nos arredores da praça, onde há algumas lanchonetes, antes haviam bares, formando uma espécie de zona boêmia da cidade, que foi destruída mediante diversas reclamações por conta do som alto e até mesmo alguns casos de violência, incluindo homicídios. 

O taxista sempre se posicionava refletindo acerca de como a praça era violenta e como isso atrapalhava o seu trabalho e a tranquilidade dos visitantes. Ele nos informou que nos primeiros meses após a reforma sensação de segurança melhorou um pouco, pois foi posto um guarda para evitar os assaltos e a aglomeração das pessoas em situação de rua, que a ocupavam como moradia. Porém, com o atraso dos pagamentos, pela prefeitura, o vigilante deixou de trabalhar no local.

Enquanto aguardam seus passageiros, o grupo de senhoes costuma se revesar entre partidas de dama e conversas, nos banquinhos da praça.

Ele contou ainda que a praça ficava um caos certas horas do dia, ocorrendo desde assaltos até casos de pessoas tomando banho na fonte de água. Pedimos então que ele fizesse uma comparação, a respeito de como era a praça antes, quando havia o coreto, e agora, depois da reforma. Ele nos respondeu que antes a sensação de insegurança era maior. Todavia com a dispensa do vigia, tudo estava regredindo.  

Todo esse espectro de violência fez ele se naturalizar com a situação da praça e até mesmo perder um pouco o medo de trabalhar no local. Tanto é que, depois da dispensa do vigia, ele mesmo tem se encarregado de ligar e desligar as luzes do local. Durante praticamente toda a conversa percebemos que, de certa forma, ele via em seu depoimento uma oportunidade de denunciar tudo o que vem ocorrendo no ambiente, de forma temerosa 

Para ele nós éramos a oportunidade de suas reclamações serem ouvidas. Isso se confirmou quando ele externou não ter histórias divertidas a respeito da praça. A sua realidade é a de alguém que já presenciou diversos casos de violência no ambiente que abriga o seu local trabalho.

Observamos assim,  a praça através de dois ângulos. Os senhores, de mesmo nome, e que trabalham à poucos metros um do outro, convivem com ela diariamente. Mas a perspectiva a respeito do mesmo ambiente é bastante diferenciada. O primeiro agregou a ela diversas referências positivas. Já o segundo, evitou se desprender de qualquer carga emocional que o afastasse de seu descontentamento com a situação em que ela está, mesmo após a reforma. Sem dúvidas essa disparidade de olhares chama a atenção. Pois através de conversas como a que tivemos, é possível perceber os múltiplos significados empregados a um mesmo local, a depender de quem observa. Ambos formam experiências construtivas no sentido de percebermos nesses espaços públicos as suas particularidades.

O prédio à frente, influenciou o nome popular da praça.

Expediente

Abner Carvalho

Abner Carvalho

Editor e diagramador

Brenda Nobre

Brenda Nobre

Repórter

Felipe Costa

Felipe Costa

Repórter

Ana Letícia

Ana Letícia

Fotógrafa

Layana Barbosa

Layana Barbosa

Fotógrafa