Moradores de longa data acompanharam todo processo de poluição das águas
Kamila Tomich
Na entrada do bairro que leva o seu nome, na rua Coronel Manoel Bandeira, entre Euclides da Cunha e Alvorada, em Imperatriz (MA), passa um dos principais cursos do riacho Bacuri. Durante o verão, essa área é marcada pelo forte odor que exala das águas, adentrando as ruas e as casas dos moradores que vivem em sua proximidade.
No inverno maranhense, que ocorre entre os primeiros e últimos meses do ano, o córrego é assunto nos principais veículos de notícias da cidade por causa dos alagamentos causados pelo seu transbordamento. Ao atravessar a ponte que passa por cima desse trecho, é possível observar, além de sua estrutura precária e cheia de buracos cobertos por lama, o tom amarronzado do riacho – caracterizando as suas águas poluídas.

Memórias
“Você tava lavando roupa e o seu filho tava pescando para comer de noite com arroz”, relembra Delzuita, moradora do Bacuri há quase 46 anos. Conhecida pelo bairro como Zuzu, a senhora conta que quando chegou em Imperatriz, o riacho ainda era limpo e funcionava também como fonte de renda para ela e para as outras famílias da vizinhança.
Edgar, que reside na mesma casa há 58 anos, chegou para morar perto do Bacuri por volta dos seus 15 anos e diz que se criou ali em um período em que a água não se acumulava no meio da rua. Ele declara que naquela época costumava pescar e banhar dentro do riacho, ao mesmo tempo em que as mulheres o utilizavam para lavar louça. Lembra também, que hoje, onde existem várias casas, era uma área tomada pela mata ciliar. “A nossa vida era o Bacuri”, assegura.
Zuzu recorda que antigamente não existiam sanitários com o encanamento voltado para o riacho. Segundo ela, isso mudou depois da inauguração de uma fábrica de laticínios na cidade, que passou a jogar os seus dejetos na água. A partir desse marco, as fossas também passaram a ser despejadas lá dentro.
Poluição
“Minha filha, acabaram com a nossa rua”, afirma Delzuita, ao falar que a ponte construída por volta de 30 anos atrás, que teria sido a responsável pela água invadir as ruas em época de chuva. Ela informa que, antes disso, o seu marido, juntamente com o vizinho Joacir, era o responsável por montar e fazer a manutenção de uma ponte simples de madeira, formada por tábuas. Nessa época, quando ainda não tinham sido feitas as lajes, a água caía no Bacuri e continuava o seu percurso normalmente.

Delzuita, que habitualmente senta em uma cadeira de macarrão com a porta aberta para a rua, explica como a situação atual é consequência de um serviço malfeito e da falta de consciência da população. Se tornou hábito para alguns moradores e pessoas que passam pelo local, jogar lixo no bueiro que desemboca dentro do riacho. “Quando a água vem, tá tudo entupido e vai pra onde? De rua afora”, conclui.
Zuzu comenta que de tempos em tempos a prefeitura faz uma limpeza dentro do riacho, porém de maneira superficial, retirando apenas a vegetação que obstrui o Bacuri e a passagem da ponte, não chegando a mexer no fundo dele. Acerca desse assunto, o secretário de Infraestrutura de Imperatriz, Marcelino Tavares, esclarece que isso ocorre pois, após observações, entendeu-se que existe um problema na encanação e no dispositivo de drenagem do riacho. Trata-se do resultado da falta de manutenção de serviços que deveriam ser corriqueiros. “A vazão aumentou muito, aumentou sobremaneira que não é mais possível fazer a drenagem, principalmente nos períodos de chuva, por esse canal”.

O histórico dos governos anteriores em relação ao riacho mostra como ele vem sendo negligenciado por gerações. Zuzu relata que o último a fazer algo efetivo no Bacuri foi o prefeito Ribamar Fiquene (mandato de 1º de janeiro de 1983 a 31 de janeiro de 1989), que o lajeou e acabou por deixá-lo mais entupido. Ela garante que o prefeito Assis Ramos, em seus oito anos de mandato (2017 a 2024), mandou fazer a limpeza dessas águas apenas duas vezes. Sobre este aspecto, o secretário informa que, na atual gestão, do prefeito Rildo Amaral, existe a necessidade de saber como fazer, quanto fazer e o quanto isso irá custar. Somente a partir desse estudo será possível estabelecer algo concreto. “A gente tem se empenhado bastante para resolver problemas históricos da cidade. Temos consciência da dificuldade da situação”, declara.
Futuro
Para moradores das margens, como Zuzu e Edgar, a solução seria desentupir o riacho e desmanchar o serviço malfeito anteriormente. “Eu tenho vontade que o prefeito mande o povo destampar ali para quando a água vim, lavar. O Bacuri não era assim”, declara Delzuita. Marcelino Tavares concorda que a galeria é insuficiente para a demanda que se instalou, visto que a topografia do riacho, a quantidade de habitações e de acessos e, principalmente, a velocidade do escoamento da água mudaram. “A solução não é simples, porque ela envolve vida, são centenas de pessoas que moram ali. Não é um problema restrito ao Bacuri, mas em toda a extensão do riacho, desde a sua nascente até a foz”, explica o secretário de Infraestrutura.
A resolução desse problema esbarra também em dificuldades de ordem financeira, técnica, social, econômica, de equipe e em questões jurídicas. De modo que a solução deve ser feita de forma pactuada. Além disso, o secretário ressalta a necessidade de ter que construir habitações para realocar os moradores que vivem nas áreas irregulares e considera importante fazer a urbanização social, além do canal. “Requer esforço coletivo. Com a urbanização, a gente vai ter um riacho limpo. É um sonho, mas a gente tem que percorrer. O caso é chegar lá e concretizar”.
Esta matéria faz parte do projeto da disciplina de Redação Jornalística do curso de Jornalismo da UFMA de Imperatriz, chamado “Meu canto também tem histórias”. Os alunos e alunas foram incentivados a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. Essa é a primeira publicação oficial e individual de todas, todos e todes.