Feirinha do Bacuri mantém viva a tradição, a memória e o pertencimento

Vivências e vínculos diários revelam a força social da comunidade do bairro

Mariana Melo

Thifany Santos

A Feirinha do Bacuri está situada no coração do bairro de mesmo nome em Imperatriz e, há mais de três décadas, integra a rotina dos moradores. Embora seja vista como um ponto comercial tradicional, o que se observa nas barracas vai muito além da compra e venda. Com o passar do tempo, o local se transformou em um espaço de convívio, de histórias compartilhadas, de suporte entre vizinhos e de edificação da identidade local. É onde muitas famílias garantem seu sustento, mas também nutrem relações que atravessam gerações inteiras.

Os estandes oferecem de tudo e iniciam o movimento cedo. Hortaliças frescas, frutas de produtores da região, carnes, cereais e serviços que fazem parte do cotidiano de quem passa por ali diariamente. A dinâmica é simples e repleta de vida. Pessoas chegando, cumprimentando, proseando, recordando e reconhecendo outros indivíduos pelo nome. Esse fluxo contínuo é o que mantém o ambiente vibrante.

No cotidiano da Feirinha do Bacuri, a força do comércio popular gera renda e impulsiona a economia do bairro (foto: Mariana Moraes Melo)

Entre os vários relatos dos que ajudam a sustentar a feirinha está o de Itajaci Souza e Silva, conhecida como Tatá, de 56 anos. Ela atua há mais de 40 anos no Bacuri e começou “tratando fato” para panelada. Depois, ajustou o foco das vendas ao notar a busca por almoços rápidos. Hoje, ela prepara lanches e trabalha com buffet de festas. Tatá reconhece os desafios, mas também o valor do seu esforço. “É daqui que tiro o sustento, e isso me enche de orgulho. Criei meus filhos trabalhando aqui e ainda hoje vivo do que consigo na feira”.

Outro exemplo é o de Rosa Amélia Ferreira da Silva, de 52 anos. Ela trabalha lá há 22 anos e criou as filhas entre as bancas. Eduarda Cristina Ferreira, a primogênita, tinha cinco anos quando começou a acompanhar a mãe e a irmã menor apenas um. As duas cresceram naquele cenário, observando o ritmo das vendas e absorvendo, sutilmente, o peso e a dignidade do ofício que sustentava a família.

Hoje, Eduarda tem 27 anos e é nutricionista. Formada com grande esforço, sua universidade particular foi custeada com os recursos que Rosa obteve da feira. Mesmo orgulhosa de suas conquistas, Rosa percebe as dificuldades atuais, notando que o poder aquisitivo das famílias declinou. “Agora não compram nem o essencial”, aborda, com franqueza.

“Sou cria da feirinha do Bacuri”, ressalta a feirante Eduarda, cercada pela família (foto: Eduarda Cristina Ferreira)

Apesar dos obstáculos, a feira continua ativa pela energia da comunidade e as características singulares do local. Quando questionada sobre o que mantém a feirinha tão forte após tanto tempo, Eduarda responde com naturalidade. “Mudou muito ao longo dos anos, mas algo permaneceu, a praticidade. Por ser uma feira livre, muitas vezes o cliente nem precisa descer do carro para ser atendido”. Para ela, essa conveniência e a proximidade com os frequentadores ajudam a manter o movimento, inclusive nos períodos mais difíceis.

Mas o que mais toca Eduarda não é a praticidade. Ao falar sobre o papel da feirinha na história e na cultura do bairro, ela recorda ter visto as mesmas famílias por anos. “A feira desempenha um papel importante na preservação da memória. Após 22 anos, acabamos conhecendo várias gerações da mesma família. O neto que ia com a avó quando era criança à feira de domingo. O filho que leva a mãe já idosa para fazer as compras porque ela tem esse hábito. É uma cultura viva”.

Sobrinha de Eduarda desde sua infância presente na Feirinha do Bacuri, mantendo viva a tradição familiar (foto: Eduarda Cristina Ferreira)

Hoje a nutricionista diz que a sobrinha também frequenta o local desde bebê, repetindo o ciclo que vivenciou com a própria mãe. A criança caminha pelo mesmo chão onde ela cresceu, o que cria uma sensação de continuidade. O empenho de Rosa para educar a filha, a presença contínua de Eduarda que ainda retira parte do seu sustento da feira, e agora a sobrinha que passa a integrar esse ciclo, demonstram como a Feirinha do Bacuri influencia e transforma a vida daqueles que a constroem. Quando pedimos a Eduarda para sintetizar esses 22 anos, ela escolhe uma declaração direta e afetuosa: “Um legado que nos orgulha”.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2025.2, contou com a colaboração, nas correções finais, da aluna estagiária Milena do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul.