Voz Literária · Quem vive conta

✦ ❦ ✦

“Eu não vim do nada, eu vim de uma família que me apoiou muito”, afirma Luciléa Gonçalves

Professora de geografia e reitora de universidade pública compartilha trajetória de vida

Edlene Galeno

Vitória Guajajara

Luciléa Gonçalves acredita em uma educação transformadora (Foto: acervo UEMASUL).

Antes de assinar documentos burocráticos ou gerir uma universidade pública no interior do Maranhão, Luciléa Ferreira Lopes Gonçalves guarda na memória os pés descalços na areia da comunidade de pescadores de Peru, em Cururupu. Filha de pescador, seu Antônio, e de dona de casa, dona Laura, aprendeu que a água da maré e o caju do pé tinham hora, mas o estudo era compromisso sem volta. O rompimento doloroso com a família antes dos 11 anos para estudar na sede do município, quilombo urbano de São Luís, moldou sua resistência, retornando à praia apenas nos períodos de férias. Dos sete filhos do casal semianalfabeto, todos conquistaram o diploma universitário porque o pai ensinou que a educação era o único caminho definitivo.

Ao concluir o ginásio, retornar para casa ainda não era uma opção, pois a comunidade ainda não contava com o ensino médio. Com ideias para investir no futuro de seus filhos, seu Antônio reuniu todos em uma casa em São Luís, para que concluíssem os estudos juntos. A moradia ficava no bairro da Liberdade, reconhecido como um quilombo urbano marcado pela forte presença de migrantes vindos de Cururupu. A reitora Luciléa cursou o ensino médio no Colégio Creuza Ramos, uma escola particular voltada para famílias de baixa renda, numa época em que o ensino público da capital era ocupado majoritariamente por elites locais.

O esforço coletivo da família teve bons resultados. Guiados pelo rigor e pelo incentivo dos pais, todos os sete filhos de seu Antônio e dona Laura cursaram a faculdade e conquistaram o diploma universitário. “Eu não vim do nada, eu vim de uma família que me apoiou muito”, afirma a professora Luciléa ao recordar as difíceis travessias de barco enfrentadas ao lado do pai sob chuva e maresia para garantir que chegasse às salas de aula.

Após dois anos de cursinho preparatório e uma breve tentativa no curso de Direito, Luciléa encontrou sua verdadeira vocação ao ingressar no curso de Geografia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). A conclusão do bacharelado e da licenciatura abriu as portas para sua chegada à Imperatriz no final dos anos de 1980, onde começou a lecionar no Serviço Social da Indústria (SESI) e, posteriormente, na rede estadual de ensino. Durante 22 anos, atuou no chão da escola pública, especialmente no Colégio Amaral Raposo, acolhendo jovens vindos de municípios vizinhos que não dispunham de ensino médio.

Foi nesse contato direto com a juventude periférica e interiorana que sua prática pedagógica se consolidou como uma missão de vida. Certa de que a informação era a chave para transformar realidades, repetia continuamente para seus alunos o conselho que ouvira em casa: “Vá pra educação, vá pela educação. É mais demorado, mas é próprio, é seu. Você encontra um lugar no mundo com essa educação”.

A colheita dessa dedicação estende-se por quase quatro décadas de magistério no ensino superior. Ao caminhar hoje pelos corredores de Imperatriz e da região, Luciléa reencontra antigos alunos ocupando postos de destaque como professores doutores, diretores de escola, gestores públicos e lideranças comunitárias. Entre eles está o atual pró-reitor da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL), professor Alisson, que saiu do ensino básico para a graduação em que enfrentou dificuldades de morar em casa de estudante no Recife até se tornar doutor e retornar como docente da instituição.

À frente da reitoria, essa sensibilidade social traduziu-se em ações institucionais concretas voltadas para a equidade e o acolhimento. Sob sua gestão, foram instaladas salas de amamentação nos campus para apoiar estudantes mães, ajustaram-se os critérios dos editais de pesquisa Lattes para professoras em licença-maternidade e aprovaram-se resoluções rigorosas de amparo e combate ao assédio. A UEMASUL passou a se destacar pela presença feminina marcante em cargos de decisão, como na procuradoria jurídica e nas diretorias de curso. “A gente percebe aquele cuidado que a mulher tem em tudo o que faz”, observa.

Ocupar o topo de uma instituição pública no interior do Estado, contudo, impõe desafios complexos que testam a resistência pessoal. Como mulher no poder, Luciléa enfrentou episódios diretos de machismo, assédio moral e questionamentos sobre sua autoridade que segundo ela jamais seriam direcionados a um gestor homem. Lembra de situações que precisou impor respeito diante de posturas intimidadoras no exercício do cargo: “Se fosse com o Gustavo [ex-reitor da UEMA], não falariam comigo dessa forma”, pontua ao evidenciar a cobrança desproporcional enfrentada pelas mulheres na política universitária.

Entre as frequentes viagens à capital federal em busca de recursos para a instituição e o acompanhamento atento de cada detalhe da gestão universitária, os dias ganham um ritmo intenso e contínuo. Essa dedicação quase integral à causa acadêmica acaba por exigir concessões no âmbito privado, momentos de descanso, pequenas pausas cotidianas, o convívio do lar e a companhia da família. Luciléa reconhece com simplicidade essa entrega: “A gente deixa a desejar a vida pessoal e fragiliza mesmo algumas relações”. O tempo para os passeios e a presença constante na igreja acabam cedendo espaço à responsabilidade e ao rigor com que ela conduz o compromisso de reger a universidade. Situações essas que são mais complexas quando se trata de ser mulher, mãe e profissional.

Professora Luciléa e sua mãe dona Laura, matriarca de sua família (Foto: acervo pessoal).

No centro de suas atenções afetivas está sua mãe, dona Laura, de 91 anos, com quem mora. Os finais de semana são sagrados e dedicados ao cuidado da matriarca, ela equilibra a responsabilidade de gerir uma universidade com o dever filial de presença e carinho.

Nas etapas anteriores da vida profissional, quando os filhos Sarah, João e Marcos eram pequenos e a jornada se dividia entre três escolas, a sustentação da rotina só foi possível graças à construção de redes de apoio sólidas. Luciléa recorda com gratidão a convivência com  Jovelina, uma funcionária que morou em sua casa durante uma década, estudou, concluiu o ensino médio, passou em um concurso público e pôde estruturar sua própria vida. “Sempre tem alguém por trás que te dá apoio. Seria impossível você conseguir sozinha”, reflete.

Longe dos rituais burocráticos do cargo, é nos gestos simples do lar que Luciléa reencontra sua calmaria. Nas raras brechas de uma rotina intensa, o alívio surge ao cuidar das plantas do quintal, cozinhar sem pressa ou sentir o cheiro de um bolo no forno. Diante do ritmo envolvente da vida acadêmica, a saudade de viver a própria casa desperta reflexões íntimas: “Às vezes eu fico um pouco perdida dentro de mim mesma, sabe? Mas tem o outro lado, de uma pessoa que gosta de estar em casa”. É no silêncio do cotidiano que ela desacelera o pensamento e reconecta-se com suas origens. 

Um de seus hábitos mais curiosos revela uma memória afetiva que remete diretamente à juventude no bairro Liberdade. Ao chegar em casa, a reitora tem o costume de ligar a televisão imediatamente, deixando o aparelho funcionando como um fundo sonoro enquanto realiza suas tarefas. A mania nasceu na época em que seu pai comprou a primeira TV a cores da sua rua em São Luís. Como a casa ficava cheia de vizinhos reunidos na janela para assistir à programação, a TV ligada tornou-se para ela um símbolo de aconchego e companhia.

A paixão pelo futebol também ocupa lugar especial em suas preferências. Torcedora declarada do Flamengo, gosta de acompanhar as partidas e vivenciar a emoção dos jogos com entusiasmo.

A relação de Luciléa com a música é profundamente ligada à paisagem sonora da sua juventude nos anos de chumbo da ditadura militar. Naquela época, enquanto canções brasileiras de artistas como Elis Regina e Caetano Veloso sofriam a proibição e a censura nas rádios, as emissoras preenchiam a programação predominantemente com sucessos internacionais. 

A professora relembra que sem dominar o inglês na ocasião, ela e outros jovens ouviam aquele repertório estrangeiro sem imaginar que várias daquelas faixas também carregavam mensagens de resistência. Essa vivência marcou sua memória afetiva, que hoje se entrelaça ao amor pelo Carnaval maranhense, pelas festas de Bumba Meu Boi e pela admiração por ícones do pop como Michael Jackson, de quem aprecia até hoje o clássico Billie Jean. 

Nas poucas horas dedicadas ao entretenimento audiovisual, prefere produções que retratam a força feminina, dramas com nuances espirituais e narrativas ambientais. Ao olhar para trás e avaliar sua trajetória desde a praia de Peru até a reitoria da UEMASUL, Luciléa não enxerga seu papel como um feito isolado, mas como o resultado de uma caminhada coletiva sustentada pela fé no conhecimento e no respeito ao ser humano.

Reitora Luciléa nas dependências da UEMASUL (Foto: acervo UEMASUL).

Como um registro complementar à sua trajetória pessoal e acadêmica, reunimos os títulos culturais, produções audiovisuais, preferências musicais mencionadas por Luciléa ao longo de seus relatos: