Jovens universitários buscam alternativas econômicas para custear estudos e despesas

Por Eula Rebeca, Mariana Albuquerque de Oliveira, Naum Santos Gomes e Wanderson Rodrigues Sousa

A juventude no Brasil hoje se subdivide em uma tríade que se distribui em grupos: o primeiro, formado por jovens estudantes, o segundo por jovens trabalhadores, e o terceiro por jovens que trabalham e estudam. O que em análise, abre portas a um quarto grupo, o de universitários autônomos, que se desdobram entre estudo e trabalho independente.

No Brasil, cerca de 6,2 milhões de estudantes buscam por independência econômica, segundo dados divulgados pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), na quinta Pesquisa do Perfil Socioeconômico dos Estudantes das Universidades Federais, 70,2% dos estudantes são de baixa renda, com renda familiar per capita de até 1,5 salário mínimo por mês.

Também foi apurado a quantidade de alunos que já pensaram em desistir da graduação e os principais motivos que os levariam à desistência. O mais citado (32,7%) foram as dificuldades financeiras. Fator potencial para que o jovem universitário opte por meios alternativos de renda, já que se depara com a dualidade: estudar ou trabalhar?

Perfil do universitário

O Instituto de pesquisas Data Popular, em 2012, revelou que o perfil dos estudantes que ingressavam na universidade havia mudado para um aluno mais empreendedor e independente.

E esse perfil pode ter se consolidado, já que de acordo com o censo de 2016, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Dionísio Teixeira (INEP), quase 3 milhões de alunos concluintes de ensino médio ingressaram em cursos de educação superior de graduação em todo o país. De acordo com esse estudo, sete em cada dez universitários brasileiros trabalham e movimentam com seu próprio salário, mais de 84 milhões de reais ao ano, refletindo na busca por independência econômica por 70% dos estudantes matriculados naquele ano.

Em 2017, a cidade de Imperatriz contava com 16 mil matriculados em faculdades privadas, instituto federal e universidades públicas. É comum o fornecimento de bolsas e auxílios acadêmicos por parte dessas instituições. Segundo a assistente social da Assistência Estudantil da UFMA, campus Centro, Isabela Mendes, a universidade disponibiliza oito categorias de bolsas/auxílio, com em média, 313 bolsas e auxílios, mas que ainda sim não atendem a todos que precisam; sem esse reforço, muitos jovens, para chegar até o final da graduação, recorrem a formas alternativas de lucro, com pequenos negócios, que envolvem contatos nas universidades e fora delas.

                                                         Gislei Moura: dedicação ao próprio negócio/Foto: Gustavo Viana

Autonomia é opcional?

A carga horária e a demanda de estudos interferem potencialmente na busca por um emprego regularizado. “É difícil achar empregos que tenham horários flexíveis ou de somente meio período. Quem faz faculdade durante o horário comercial acaba tendo como opção de trabalho os empregos que têm como horário de trabalho das 18h às 00h. O acadêmico se vê em meio a uma encruzilhada”, conta a vendedora de brigadeiros gourmet e acadêmica do curso de Engenharia Florestal da UEMASUL, Lorena Sousa.

Gislei Moura, estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão, fez da venda de brownies uma fonte de renda. “O processo de preparo demandava muito tempo, em média uma noite inteira ou até um dia inteiro, quando são muitas receitas”, detalha a aluna.

Lidar  com o ambiente universitário é um desafio e quando isso se alia à necessidade de uma dupla jornada (no caso, administrar o próprio negócio), o jovem universitário precisará contar com uma boa administração do tempo e do dinheiro. Fora os impasses e contratempos que podem ocasionar em abandono, seja do curso ou do negócio.

                                                   Boas vendas dependem de organização financeira/Foto: Lorena Sousa

Análise de mercado

Para conseguir lidar com toda essa situação e se sair bem tanto no ambiente acadêmico no negócio, a contadora, formada pela Universidade Federal do Maranhão, Talyta Maria Santos, aposta na organização como estratégia.  “Não é fácil separar o financeiro do pessoal, pois no cotidiano sempre temos imprevistos. Mas o estudante terá que fazer todo esse controle através de uma planilha. De tudo que ele precisa gastar para continuar com as vendas e de como ele guardará esses recursos adquiridos. Além disso, é importante que haja separação do dinheiro adquirido no trabalho com o dinheiro pessoal, e um dos passos iniciais é criar uma conta”, aconselha.

A contadora explica que a organização é a chave do bom negócio. “É ideal que o estudante faça uma análise de mercado, o que ele vai vender, para quem ele vai vender e quais as necessidades do seu cliente. Tudo isso é importante”.

Não existe uma fórmula específica para que o estudante universitário consiga conciliar o trabalho e as tarefas acadêmicas. Lizandra Silva Sodré, psicóloga da Universidade Federal do Maranhão, considera ser imprescindível a disciplina para que o jovem consiga cumprir com os objetivos. “É importante que o estudante busque uma administração adequada do tempo, não deixando de lado as obrigações acadêmicas, mas também não deixando a desejar na função que está exercendo no mercado de trabalho”.

Lizandra alerta que os estudantes podem ter dificuldades em lidar com o emocional, com a sobrecarga de trabalho, falta de concentração na faculdade e no engajamento das atividades, mesmo as do dia-a-dia. A psicóloga recomenda que os estudantes busquem ajuda profissional, que é ofertada nos núcleos de apoio psicológico oferecidos gratuitamente pelas universidades públicas. Assim, poderão superar as os obstáculos e amadurecerem ao superar dilemas e aflições cotidianas.

 

Edição: Roseane Arcanjo Pinheiro

Foto/abertura: Gislei Moura

Reportagem especial produzida para a disciplina Técnicas de Reportagem do Curso de Jornalismo da UFMA Imperatriz (2019.1)