Buscar ajuda é a melhor alternativa para superar a dor e evitar o suicídio

“Não podemos falar em suicídio sem falar em saúde mental”, analisa a assistente social Ana Cristina de Assumpção Oliveira

                                                      Ana Cristina (em pé): família deve apoiar

A solidão, o abuso de drogas, a situação financeira, problemas nos relacionamentos e dificuldades familiares são questões que podem levar pessoas ao suicídio. Ana Cristina de Assumpção Oliveira, assistente social que trabalha no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), afirma que o suicídio não é uma atitude isolada. É uma consequência de várias situações vivenciadas e acumuladas no íntimo da pessoa, e que, muitas vezes, pelo machismo e pelo tabu em falar sobre saúde mental, esses sentimentos não são trabalhados e o suicídio se torna uma realidade.

Porém, a profissional, que concedeu entrevista ao projeto Coletivas, afirma que há solução para o sofrimento, a depressão, a ideação suicida e os transtornos mentais. “Alguns transtornos mentais não têm cura para a medicina, mas isso não impede que a pessoa viva normalmente”, ressalta a assistente social. Nesta entrevista, feita pela turma de Técnicas de Reportagem do Curso de Jornalismo, Ana Cristina defendeu a participação da família no tratamento e a valorização saúde mental com caminhos para a prevenção ao suicídio.

  Como se tem acesso ao tratamento no CAPS?

Ana Cristina de Assumpção Oliveira – É por encaminhamento, geralmente de algum órgão público como o CREAS (Centro de Referência Especializada de Assistência Social), o HMI (Hospital Municipal de Imperatriz), ou algum posto de saúde. Quando se detecta que a pessoa está precisando desse tratamento de saúde mental, se faz um encaminhamento do órgão para o CAPS. Ou as pessoas podem ir diretamente até lá. Quando é um usuário, é diferente, existe o que a gente chama de busca ativa, você vai atrás dessa pessoa, quando a justiça solicita que vá. Mas a demanda é imensa e infelizmente a saúde mental é precária no Brasil, está muito longe do ideal, e em Imperatriz a situação é ainda mais grave. Só que a saúde mental é importante, porque não podemos falar em suicídio sem falar em saúde mental, são simplesmente 1 milhão de pessoas que se suicidam no mundo por ano, a cada 40 segundos uma pessoa se suicida, e 85% dessas pessoas poderiam não se suicidar se tivessem sido orientadas, se tivessem acesso à saúde mental.

 Dentro do trabalho desenvolvido no CAPS existe a necessidade da participação da família durante o tratamento?

Ana Cristina de Assumpção Oliveira – Sim, porque quando tem uma pessoa com transtorno mental dentro de casa, se não for cuidado, a tendência é que adoeça a família inteira, igual a um dependente químico, um usuário de drogas dentro de casa adoece a casa inteira, é o que a gente chama de co-dependência. Hoje o paciente vai para lá de manhã, toma café, tem todo um roteiro de atividades, almoça, descansa, participa de outras atividades e cinco horas da tarde a família tem que buscar, justamente para que haja esta participação. Porque é preciso que esta pessoa tenha companhia, ela precisa ser inserida na sociedade. Para isso é necessário que a família participe e se responsabilize com o tratamento, como, por exemplo, para levar ela ao CAPS porque ela não pode ir sozinha, a família tem que ter atenção para notar quando a medicação estiver acabando e providenciar o restante. E, caso a pessoa tenha condições de estudar, é a família que tem a responsabilidade de providenciar esta educação. Então, é por isso que a família é realmente muito importante e é feito esse trabalho de conscientização.

 Quais os principais motivos que levam as pessoas a cometerem o suicídio?

Ana Cristina de Assumpção Oliveira – A solidão, o abuso de drogas, a situação financeira, problemas de relacionamentos, dificuldades na família, todas estas questões têm levado pessoas ao suicídio. Mas existe um caminho: falar sobre isso,  acabar o tabu de falar sobre suicídio, acabar o tabu de falar sobre saúde mental e as pessoas procurarem o psiquiatra ou psicólogo. Assim essa situação pode mudar.

 A senhora atende mais mulheres que homens? Qual o perfil?

Ana Cristina de Assumpção Oliveira – São as mulheres que procuram mais, isso em todas as áreas. As mulheres procuram mais ajuda, porque, em geral, os homens são machistas. Mas quando elas procuram ajuda já estão na tampa, quase para transbordar. O perfil é diverso, geralmente é caso de violência doméstica, não é incomum chegarem meninas que foram abusadas pelo próprio pai, pelo tio, pelo irmão, situações que as levam ao estado de depressão, transtorno de ansiedade e alimentar, transtorno compulsivo, síndrome do pânico ou fobia social. Eu atendi uma moça há 15 dias que tentou suicídio, ela se automutilava, só que ela faz esta automutilação desde os seis anos de idade, ela fazia pequenos pontos. Foi molestada pelo irmão aos 5 anos, aí ele foi embora, e veio outro irmão que a molestou entre os 10 aos 13 anos, foi quando ela arrumou um cara para sair de casa, mas este a agredia constantemente. Ela teve uma filha, conseguiu se livrar do cara, mas continuava se mutilando, vivia toda cortada, e, por fim, cortou os pulsos para se suicidar. As pessoas pensam “como alguém consegue suportar a dor da mutilação?”. É bem simples: chega a um nível tão grande de dor emocional, que a dor física não tem sentido; quando alguém se mutila, é simplesmente uma válvula de escape, ele sente um grande prazer, alivia a dor emocional. Parece louco? É saúde mental. Então, no geral, são mais mulheres, infelizmente. Os homens são mais resistentes, quando eles vêm é mais por motivo financeiro, uso abusivo de drogas ou quando são traídos, algo que eles não aguentam.

 Você acredita que quando uma pessoa chega ao estágio dessa jovem que você falou, tem como ela se recuperar? Ela consegue superar com o acompanhamento psicológico?

Ana Cristina de Assumpção Oliveira – Sim, porque nada vem do nada. Uma fala muito comum é: “Do nada fico triste’’. Isso não é verdade, tem um motivo, uma razão, e um profissional ajuda você nesse atendimento. Eu sou uma pessoa que tem esperança de sobra, de que qualquer pessoa pode melhorar sua qualidade de vida. Alguns transtornos mentais não têm cura para a medicina, mas isso não impede que a pessoa viva normalmente. Eu atendo um paciente que tem esquizofrenia, ele passou no concurso da Polícia Rodoviária Federal, no da Polícia Civil, também foi aprovado para lecionar no IFMA (Instituto Federal do Maranhão), mas não pôde assumir, então ele usa os conhecimentos dele para ajudar pessoas a fazerem trabalhos de monografia e artigos. Como ele é sustentado pela empresa que trabalhava quando ficou doente, ajuda também na Casa do Idoso, é um menino inteligentíssimo. Faz o que para ele é possível, e, dentro das condições de sua doença, está vivendo feliz. Ele diz que ajudar os outros, o ajuda a sentir mais feliz.

  O que você acha do uso de medicação como tratamento para pacientes depressivos?

O Brasil é campeão em disseminar inverdades:“eu não vou tomar isso porque vai causar dependência’’. Têm pessoas que precisam de remédios por um período por causa da ansiedade, muitas vezes não dormem, às vezes chegam ao ponto de passar até quatro noites sem dormir e ninguém aguenta isso. Então, a medicação se torna necessária. E a família não tem como fugir disso, porque quando a pessoa tem surto, uma coisa que a família não quer é que falte o remédio.  Além de que, por causa da condição psicológica, os neurotransmissores baixam e a medicação ajuda a deixá-los em um nível normal, para que a pessoa possa ficar mais calma, mais leve, sendo capaz de resolver os próprios problemas. Indiscriminadamente, é claro, qualquer medicação faz mal, agora se é por indicação do especialista, não há problemas, até mesmo porque na medida em que os sintomas vão diminuindo as doses também, até chegar ao ponto, se for o caso, de não precisar mais dos remédios. Há hipóteses, infelizmente que, dependendo do tipo de transtorno o medicamento, é por toda a vida, mas não é a regra.

Como você falou, o medicamento é uma das formas de manter as crises, mas o acesso a esses medicamentos é fácil? São doados pelo governo ou são comprados?

Ana Cristina de Assumpção Oliveira – No posto de saúde do Bairro Três Poderes tem uma farmácia especificamente para saúde mental, mas é aquela coisa: falta. Porém, tem também o que a gente chama de farmácia de alto-custo, que não tem só remédios para transtornos mentais, mas remédios mais caros, uma média de R$180,00 para cima. Esses medicamentos são doados pelo Estado, é feito um cadastramento, preenchidos os formulários e enviados para São Luís e o paciente passa a receber essa medicação todo mês, sendo renovado o cadastro de 3 em 3 meses. Esta questão é um grande problema também, porque as pessoas precisam de medicação e, às vezes, estes medicamentos são caros, infelizmente.

Há críticas quanto à abordagem da Polícia Militar e até mesmo do SAMU, quando levam um paciente em crise. Seriam agressivos durante o procedimento. Você concorda com isso?

Ana Cristina de Assumpção Oliveira – Existe o que a gente chama de contenção, os policiais não são preparados para fazer essa contenção, o usuário está em surto e fica muito agressivo, de forma que ele pode fazer mal para si mesmo e pode fazer mal para outras pessoas, como, por exemplo, a família. Essa contenção deve ser feita pelo Corpo de Bombeiros ou o SAMU. O Corpo de Bombeiros contém a pessoa, amarra, dá um tempo para ela se acalmar para o SAMU poder levar para ser medicado. Depois que essa pessoa for medicada, se acalmar, ela vai ser encaminhada para o CAPS. Infelizmente, existe deficiência e péssimos funcionários em qualquer lugar. Existem pessoas que têm humanidade no trato das outras pessoas, elas fazem de tudo para aquela não se machuque. Porém, muitas vezes é um pouco inevitável, só o fato de alguém amarrar alguém com muita força, pode machucar, e em algumas situações amarrar é necessário, porém tem que fazer de forma realmente humanizada. Porém, existem pessoas de todo jeito, em qualquer lugar, gente que não consegue entender que o outro está em surto, às vezes delirando, surtos psicóticos, então tem que ser essa compreensão. Como eu falei, as pessoas estão despreparadas para lidar com a área da saúde mental, porque não sabem lidar com a situação, acham que vão ser mortos, esquartejados, porque é só o que a mídia mostra quando fala de transtorno mental: noticiam a falta de clínicas psiquiátricas ou os crimes cometidos por pessoas que sofrem de transtorno mental, mas  esquecem de dizer que os maiores crimes são cometidos por pessoas normais.

  Com base na sua experiência com o trabalho de prevenção ao suicídio, qual sua dica para as pessoas?

Ana Cristina de Assumpção Oliveira – O que eu falo é que tenham amigos, daqueles que possam tocar na sua dor de verdade e que consigam te amar do jeito que você é. Daqueles que pelo olhar sabem dizer se você está bem ou não. Outra coisa: resolva os seus problemas, fale sobre eles. Uma frase que eu gosto que diz: “morreu engasgada pelas palavras que não disse”. As pessoas estão morrendo porque sofrem sozinhas, caladas. Se essas pessoas que são, quem têm ideação suicida, tivessem pelo menos uma outra pessoa que a conhecesse, que a amasse, conhecendo todos os defeitos, todas as qualidades, talvez elas não fizessem isso. Se precisar, busquem ajuda. Se não estiverem bem, não conseguirem dormir, não estiverem se alimentando direito, se os sintomas começarem a aparecer, se vocês acordarem angustiados, busquem ajuda. Perdoe, isso também é muitíssimo importante. E perdão não é esquecer; perdoar é lembrar sem sentir dor. Mandela (líder africano que liderou a luta contra o preconceito racial) disse o seguinte quando saiu da prisão: “se eu não deixar aqui minha revolta, meu ódio, meu desejo de vingança, minhas mágoas, eu continuarei preso”. Então tenham amigos, quando estiverem juntos, esqueça o celular, converse, fale besteira, fala das suas dores, fale dos seus sofrimentos, peça perdão, diga que está magoado, diga que está ferido. Resumindo: Empatia e alteridade, e procure ajuda se precisar.

 

Equipe organizadora da coletiva e foto: Gabriela Magalhães,  Sara Kalinne, Isabela de Oliveira e Rubem Rodrigues