Funcionários e alunos relatam problemas que prejudicam o cotidiano escolar
Vinicius Morais
Salas improvisadas, ausência de laboratórios e recursos pedagógicos são apenas algumas das questões que revelam a distância da proposta de ensino em tempo integral, da realidade vivida na Unidade Municipal Integrada (UMI) Antônia Alves de Sousa, localizada no São Domingos em Cidelândia- MA. Mesmo com as limitações, professores se esforçam para manter o aprendizado e alcançar bons resultados.
A atual diretora, Carleane do Livramento Sousa Lopes, que está há 13 anos na instituição, conta sobre essa oposição. “Para escola em tempo integral, falta muito: não temos um ginásio coberto, refeitório, nem banheiros adaptados para esses jovens passarem o dia na escola”, observa. Segundo ela, o programa foi implantado, porém deve se adequar com o tempo.
Carleane relata ainda, que as verbas federais chegam reduzidas, após passarem pela administração municipal, enfatizando a ausência de componentes importantes para o funcionamento das atividades. “Esses recursos são para materiais e equipamentos pedagógicos, limpeza. Sabemos que esses itens não duram muito. Por exemplo, hoje estamos sem impressora e computador adequado”, afirma.
A líder comenta que os estudantes entram 7h30 e saem às 14h30, em função tanto diminuição dos horários das horas-aula de 50 para 45 minutos, quanto pela necessidade de um espaço de lazer para auxiliar nas atividades físicas. “Na verdade, o ensino integral era para ter uma carga horária extensa, as sete horas são as mínimas”, explica.

De acordo com a vice-gestora, Ismara Morais, que está nessa função há um ano, no setor público, todos os centros educacionais apresentam essas dificuldades e os reparos não ocorrem imediatamente. “As salas são climatizadas, os banheiros são adaptados e todas as atividades extracurriculares estão sendo desenvolvidas como deveriam”, declara.
Desafios pedagógicos
Na turma do pré-I, a professora Juliana Teixeira da Silva enfrenta dois desafios: ensinar com junção de alunos de diferentes idades e a falta de recursos. Ela desabafa que a mistura de crianças que estão compreendendo o alfabeto, com outras que já começaram a ler as sílabas afeta o aprendizado.
Além dessa barreira, a docente informa que precisa usar do seu próprio dinheiro para comprar materiais. “Às vezes, você quer prestar uma tarefa, mais acaba se limitando, a escola não tem condição de disponibilizar, termina afetando”, expressa. Para ela, é importante ter uma impressora, pois as atividades em papel reforçam os exercícios lúdicos, essenciais para a educação.
Questionada sobre qual mudança seria urgente, Juliana sinaliza que o conserto da central de ar melhoraria suas aulas. “Quando os alunos voltam do recreio, eles estão correndo, o calor é muito ruim, prejudica demais o rendimento deles e o meu também. Aqui os professores se viram como podem”, expõe.
A educadora pontua que a carência de uma biblioteca é algo preocupante, considerando o frequente incentivo à literatura. Em compensação, os profissionais utilizam-se de uma ideia para atender esse objetivo: “Eu vou me adaptando, todos os dias nós fazemos a leitura de um livro com eles na sala”, argumenta.
“A escola poderia ter esse espaço, temos os livros que vem do MEC [Ministério da Educação], creio que o projeto de leitura, trabalhamos, mas não da forma que era pra ser”, complementa a diretora. Carleane conta que há um desejo de levar os estudantes para esse ambiente educativo, mas por consequência da distância e necessidade de um transporte público, persiste esse impedimento.
A gestora reiterou que a instituição, por três anos seguidos, se manteve em primeiro lugar nas avaliações externas, e ficou em segunda posição na influência de leitura, em 2024, competindo com 217 redes de ensino do Maranhão. “É algo gratificante como profissionais, porém não tivemos nenhum reconhecimento. O que tivemos foi um banner, até foi prometido uma premiação, mas não houve”, lamenta.
A responsável ainda ressalta que na escola existem estudantes com problemas psicológicos, embora não haja disponibilidade de especialistas na região. “Aqui a realidade é muito difícil. Os profissionais de apoio não têm nenhuma formação para lidar com esses alunos. Não sabem como é de fato, estão ali somente para andar com os alunos, às vezes fazer alguma atividade, ou ir de sala em sala”, constata.
A pedagoga Márcia de Oliveira Pereira, que leciona no pré-II, defende que para orientar um conhecimento de qualidade, é preciso ter os suportes fundamentais: impressora e EVA. Ela relata que não ter esses materiais se torna um gasto a mais para os professores.
O docente de educação física, Paulo Antônio Borges, com quatro anos de atuação, comunicou que o seu trabalho é comprometido pela escola não ter uma quadra poliesportiva, pois práticas de esportes como handebol, badminton e futsal exigem esse espaço. Ele expôs que orienta suas aulas em um campo informal, e que essa circunstância oferece sérios perigos, como o contato excessivo ao sol e outras situações.
O instrutor demonstra que gostaria de acrescentar outras modalidades esportivas, mas ter que se locomover para Cidelândia, sem um transporte para levar os acadêmicos complica a situação. “Eles se deslocam de bicicleta, a aula de esporte só tem lá”, pronuncia, destacando que a teoria e a prática são inseparáveis para a sua área.
Precariedade estrutural
Alunos reclamam da escassez constante de merenda e água, bem como do calor. As cadeiras e mesas, além de pequenas, apresentam muitas avarias, como janelas quebradas, forros rachados e cerâmicas danificadas. Além do reduzido número de salas, o ambiente limitado se torna sufocante para eles.
João Gabriel Morais, do 7º ano, denuncia o mal odor percebido também pelos seus colegas de classe, vindo de uma fossa que fica nas proximidades do seu local de estudo. Ainda segundo o jovem de 14 anos, o bebedouro é uma ameaça à saúde das crianças. “Porque às vezes abrimos a torneira e sai areia”, revela.

Na visão do estudante, a caixa d`água, não possui as mínimas condições higiênicas para consumo. “Pegava e colocava no bebedouro e fazia merenda para nós”, critica. Ele também se incomoda com os fios expostos e isolados de maneira errada da bomba hidráulica, trazendo sérias ameaças de choque elétrico para os meninos que brincam nas imediações.

Promessa
Em entrevista, o secretário de Educação do município, Gilvan Ferreira Oliveira, disse que a meta não cumprida de atender o crescente número de acadêmicos e ampliar o ensino integral, ocorreu porque o modelo foi implantado na gestão política anterior. Ele admitiu que não existe previsão para construção de novos espaços, mas prometeu reformas básicas. “Vai contemplar mais a questão da troca de portas, janelas, mesas, cadeiras e colocar os quadros em duas salas”, garantiu.
Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2025.2, contou com a colaboração, nas correções finais, da aluna estagiária Milena do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul.