Texto e fotos de Yasmin Costa

 

“Minha casa é como se fosse o meu coração, tenho muito amor por ela, protejo, foi onde eu me encontrei enquanto artista, me tornei uma nova pessoa aqui”.

Os trabalhos do artesão e do artista plástico muitas vezes se confundem quanto aos seus significados, tendo como diferença principal o tratamento da arte como meio de expressão, que é feito pelo artista. É com base nisso que o imperatrizense Railton Saulo Araújo, de 30 anos, prefere se intitular como artista. Ele que tem três exposições no currículo, a última inspirada em duas obras do escritor Jorge Amado, conta que descobriu seu dom recentemente e uma mudança de casa fez sua criatividade aflorar.

Com origem humilde, Railton conta que antes da arte entrar em sua vida ele trabalhou como doméstico em casas de família. Hoje, tem seus trabalhos, feitos em casa, como sua única fonte de renda e se diz muito contente com isso, já que é uma função que exerce com muito prazer e amor. Além disso, ele também é conhecido por ser um colecionador apaixonado pela revista PlayBoy, com uma coleção que contém em torno de 360 exemplares.

O artista constrói suas obras a partir de objetos encontrados no lixo, e tem como principal inspiração a pintora mexicana Frida Khalo. Qualquer coisa pode ser restaurada por ele, o que lhe rendeu muitas críticas e o apelido de Rainha da Sucata, usado inicialmente como uma forma de denegrir o seu trabalho e que hoje é visto como uma forma de empoderamento, sendo, até mesmo, adotado como nome artístico. Ousado, hoje utiliza do projeto intitulado “Os novos Doces Bárbaros” como meio de divulgação e afirma que, apesar das muitas críticas, não se intimida com os comentários maliciosos que recebe.

Além do preconceito, que enfrenta até hoje, ele destaca a falta de apoio como principal obstáculo, não apenas para o trabalho dele, mas com os artistas da cidade em geral, o que faz com que muitos deixem de expor seus feitos. Relata ainda que suas exposições são realizadas apenas com a ajuda de amigos, que sempre o incentivam.

Nesta entrevista, Railton conta sobre seus projetos, desafios, suas descobertas com a arte, e faz uma análise acerca do cenário artístico atual da cidade. Ele nos recebeu em sua casa, conhecida como “castelo da rainha”, lugar de grande importância para sua história e que lhe rende muita inspiração.

Imperatriz Notícias: Quais materiais são base para o seu trabalho?

Railton Saulo Araújo: Faço de tudo, tudo o que pros outros não é mais interessante, tudo o que vão descartar, eu reciclo, dou um jeito. Cadeiras, mesas de apoio, garrafas, pratos, tecidos que transformo em colchas de cama, panelas, vasos que encontro no lixo mesmo. Então pra tudo dou jeito, arrumo outras utilidades para eles. Me considero um artista que não fica preso só a uma coisa, porque quando fiquei conhecido, era o “Railton das garrafas”, porque as fazia e eram um sucesso, mas depois fui fazendo outras coisas, hoje em dia é muito difícil ter algo que eu não restaure.

I.N: Como começou a sua história com a arte?

R.S.A: Me descobri artista tem pouco tempo, uns quatro ou cinco anos. Porque acho que dentro da minha pobreza não tinha tempo nem dinheiro pra fazer minhas artes, eram tantas preocupações que sufocavam um pouco meu dom. Quando melhorei minhas condições e mudei de casa foi onde me encontrei enquanto artista, meu dom, que é pegar, restaurar e transformar em arte o que você não quer mais, meio que aflorou. Esse lugar me dá muita sorte e me causa muito bem. Então comecei a fazer garrafas incríveis, lindas, e sempre tive o trabalho da minha prima como fonte de inspiração. Com o tempo fui diversificando mais, e como disse, hoje faço de tudo.

I.N: Você fala da sua casa de uma maneira muito especial, chegou até a denominá-la como “Castelo da rainha”. Como você a descreve?

O nome artístico Rainha da Sucata surgiu de críticas negativa, mas hoje se tornou marca registrada

R.S.A: Aqui na minha casa tem uma energia que criei e é como se fosse o meu céu, com meus gatos de estimação, é onde eu trago as pessoas que amo e as pessoas que vem fazer algum tipo de trabalho. Minha casa é como se fosse o meu coração, tenho muito amor por ela, protejo, foi onde me encontrei enquanto artista, me tornei uma nova pessoa aqui. Quanto ao nome que dei a ela, bem, já que sou uma rainha, tenho que morar num castelo.

I.N: Então, esse lugar também te inspira muito?  

R.S.A: Demais, não tem como, tem muita coisa, aqui o meu trabalho está por toda parte.

I.N: Como você enxerga o cenário artístico de Imperatriz atualmente?

R.S.A: Muito pobre, aqui tem artistas maravilhosos, tenho amigos que chamo de artistas “encubados”, isso é um crime, uma pessoa ser tão bom artista e não se declarar pra geral. E isso acontece porque não tem apoio, e quando não tem apoio como vai se mover? Conheci um cara aqui que pinta de maneira incrível e o chamei para estar comigo em minha exposição, para as pessoas conhecerem o trabalho dele. Acho que todo mundo deveria ter seu lugar ao sol.

I.N: Mas você acha que o imperatrizense valoriza a arte que é produzida aqui?

R.S.A: Eu acho que não, porque se valorizasse não existiria toda esta dificuldade, todos os artistas que vão para as praças expor seus trabalhos teriam seu lugar. Muitos deixam de mostrar seus trabalhos por medo, por falta de apoio. E essa falta de apoio sufoca, faz com que os talentos se escondam.

I.N: Qual a proposta por trás do projeto “Os novos doces bárbaros”?

R.S.A: A minha ousadia sempre inspirou, e eu queria muito divulgar meu trabalho de maneira mais ousada, então comecei a chamar meus amigos para fazer um ensaio sensual usando minha arte, e eles concordaram, no início eles eram um quarteto. As pessoas me julgaram muito por conta disso, mas mesmo assim achei que o resultado ficou incrível. As fotos foram feitas na minha casa mesmo, mostrando meu trabalho. Esse projeto deu um “boom”, muitas pessoas gostaram, disseram que foi uma maneira muito louca de chamar atenção. Isso deu tão certo que resolvi fazer “Os novos doces bárbaros”, nesse projeto resolvi ousar mais ainda, onde os modelos usavam apenas as minhas artes para cobrir o corpo, chamei meninos mais jovens, de todos os perfis, porque acho que todo mundo tem a sua beleza e ela deve ser mostrada. Deu tão certo essa forma de divulgar meu trabalho, que já vieram pessoas se oferecerem para participar.

I.N: Já pensou em transformar em exposição?

R.S.A: Já sim, mas a mente das pessoas ainda é muito fechada para aceitar trabalhos como esse.

I.N: Como você reage a esse preconceito?

R.S.A: No início as pessoas me chamavam de “Rainha da sucata”, diziam que eu era lixeiro, que andava catando lixo, que o que eu fazia qualquer pessoa pode fazer, isso me deixava muito chateado. Até hoje as pessoas olham torto, mas isso não me incomoda mais, de jeito nenhum.

I.N: Então o nome artístico que você adotou um dia já foi usado pra denegrir seu trabalho?

R.S.A: Sim, juntei as críticas e transformei no que vivo hoje, o que é muito interessante. Acho que quando você consegue transformar o que te agride numa coisa que te empodera, é maravilhoso.