Texto: Karla Rodrigues e Maria de Fátima

Fotos: Maria de Fátima e arquivo pessoal

A tecnologia passou a ser o alicerce das relações sociais. Antes mesmos de ir para a escola e ser alfabetizada, muitas crianças já sabem manusear tablets e celulares. Uma pesquisa realizada pela AVG Tchnologies em 2016 com famílias de todo o mundo mostrou que 66% das crianças entre 3 e 5 anos de idade conseguiam usar jogos de computador. No caso das crianças brasileiras o levantamento apontou que 97% entre 6 e 9 anos usam a internet.

Para a psicóloga Dayse da Silva Chaves, os pais devem ficar muito atentos ao tempo que os filhos passam na rede. Dayse é graduada em psicologia pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP), possui especialização em Neuropsicologia pela Universidade Araraquara (UNIARA), mestranda em Psicologia Clínica pela Universidade do Rio dos Sinos (UNISINOS) e professora do curso de psicologia de uma Faculdade particular em Imperatriz. Tem experiência na área da saúde pública com atuação nos programas do Núcleo de Apoio a Família (NASF) e Centro de Atendimento Psicossocial (Caps).

Na entrevista que segue, a psicóloga trata sobre a influência da tecnologia no desenvolvimento físico, mental e social da criança, orienta os pais a estabelecer regras, para que os pequenos não exagerem na hora de usar os dispositivos, alerta os pais a identificar quando o filho está dependente dos dispositivos eletrônicos, e também aponta para os perigos que o mundo virtual oferece.

Imperatriz Noticia – No mundo cada vez mais marcado pela tecnologia, é fácil encontrar crianças que ainda nem falam direito usando celulares ou tablets. A inserção tão precoce no mundo virtual é benéfica para os pequenos?

Dayse Silva – Não é, no desenvolvimento humano, as crianças passam por diversas fases, de se desenvolver psíquica, cognitivamente, fisicamente e psiquisocialmente, cada uma dessas fases, servem para prepará-las para outra fase, a medida que ela cresce a cognição vai amadurecendo e crescendo socialmente. Quando uma criança muito pequena é inserida em um mundo virtual de maneira muito forte, ela termina que perdendo alguns benefícios saudáveis para o seu crescimento e desenvolvimento, pois seus estímulos não estão preparados. Não é a tecnologia em si que é maléfica, mas, o tanto de tempo que essa criança é exposta.

I.N – E qual seria o tempo ideal para a criança usar os dispositivos eletrônicos?

D.S – Deve ser limitado ao tempo que a criança vai ter de lazer, depois de fazer as obrigações da escola e com os afazeres de casa. O ideal para crianças muito pequenas é que elas não fiquem muitas horas no celular. O adolescente, ele até tem a tendência de ficar mais tempo, só que mesmo assim tem que controlar para que ele não perca a noite toda viciados nesses aparelhos. Os pais devem estipular o tempo, de acordo com a idade da criança, se é uma criança de oito, dez anos, ficar mais de uma hora ou duas horas já vai ser prejudicial.

“Se eu não deixo meu filho pequeno andar sozinho nas ruas, eu não devo deixar que ele fique sozinho por muito tempo na internet”

I.N – Tem uma idade especifica para a criança possuir um perfil em redes sociais?

D.S – O ideal é que seja na adolescência por voltas dos 11 a 12 anos, que é onde eles estão aptos a conhecer novas pessoas, com essa faixa etária já têm autonomia e uma consciência crítica a respeito do mundo, e é claro que os pais sempre têm que acompanhar, dando o direcionamento sempre. É bom que os pais sempre saibam as senhas dos seus filhos, e que regularmente eles investiguem o que seus filhos de fato estão acessando.  Para crianças que são menores de 9 anos seria bom, se fosse criada uma conta conjunta, onde os pais pudessem participar também, e ensiná-los o conteúdo que eles podem ou não acessar. Não é o fato de usar, mais como é utilizado.

I.N – Tem como uma criança que cresceu e aprendeu com o celular desaprender a ficar sem ele?

D.S – É melhor evitar que a criança se acostume, do quer tirar quando ela já está acostumada. Vivemos meio que sem tempo, os pais oferecem um celular para entreter uma criança, para que ela possa ficar quieta, isso leva a dependência, naquele mundo cheio de magias, depois de algum tempo essa criança não vai querer mais viver sem essa tecnologia. Para as crianças que já possuem esse hábito frequente, é aconselhável que os responsáveis, possam começar a tirar os poucos, diminuindo o tempo que ela passa com esses dispositivos, não é uma tarefa simples, no início eles vão fazer birras, e você tem que agir com firmeza e sempre oferecer atenção gradativamente. Não será fácil, mas a criança vai aprender a ficar sem.

I.N – Como   os pais podem identificar, se o filho está exagerando com o uso dos dispositivos?

D.S – Quando a criança não sente vontade de fazer nada mais, a não ser está no dispositivo, deixando de fazer suas obrigações, crianças tem que brincar juntos com outras crianças, para que haja uma interação entre eles. Se a criança faz birras para não sair dos aparelhos eletrônicos, já é sinal de alerta, é normal uma criança ou até mesmo um adulto ficar no celular, o que não é normal é passar muito tempo ao ponto de deixar de fazer suas atividades ou até mesmo deixar de se comunicar com outras pessoas para estar diante de uma tela. Falta de interação com as pessoas a sua volta, ou falta de estímulos para brincar de outras coisas.

I.N – O mundo virtual oferece algum benefício aos pequenos?

D.S –  Aproxima de mais pessoas, tem acesso às informações, isso é muito para as crianças, facilita o aprendizado com várias formas diferentes.  O cérebro se desenvolve mais rapidamente e a cognição motora também. São muitas informações em questão de segundos, que a mente começa a processar várias formas simples de aprender.

I.N – Quais os malefícios para crianças que são inseridas precocemente perante a esses dispositivos eletrônicos?

D.S –  O principal é a perda pelo interesse social, que é tão importante para o desenvolvimento humano. O fato de estar no mundo virtual, eu me perco do mundo real, perdendo o interesse pelo espaço físico e a interação social. E o outro malefício é se passo muito tempo no entretenimento, termina que deixando de fazer algo para você, deixando suas obrigações por conta do aparelho, deixando de vivenciar algo real para viver no mundo virtual, isso não é proveitoso para o ser humano.

I.N– De acordo com uma pesquisa da empresa de ciber segurança Symantec, no Brasil, mas de 62 milhões de pessoas foram afetadas por crimes virtuais, somente em 2017. Como diminuir os riscos, para que as crianças e adolescestes não sejam vítimas de pedofilia através da rede?

D.S –  A internet é um mundo, e os pais tem que entender que seus filhos estão expostos a esse mundo. Se eu não deixo meu filho pequeno andar sozinho nas ruas, eu não devo deixar que ele fique sozinho por muito tempo na internet, sem fiscalização e sem orientação. Devemos educá-los da mesma forma que falamos diariamente: não converse com estranhos, não entre em lugares que não conhece, me chame sempre que algo te chame a atenção, passando sempre a eles um elo de confiança. Eles precisam saber que a internet também é um mundo, e que, como o mundo real, no mundo virtual também tem riscos, e que ele precisa estar atento a tudo.