Texto e fotos de Daniele Lima

 

"As informações contidas no rótulo têm um porquê de estarem ali, então, todas elas são importantes de maneira geral"

“As informações contidas no rótulo têm um porquê de estarem ali, então, todas elas são importantes de maneira geral”

 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tornou obrigatório, através da lei n° 8.543 de 23 de dezembro de 1992, que todos os alimentos industrializados comercializados no país possuíssem um rótulo. Nesse espaço devem ser encontradas as informações nutricionais dos alimentos, como a quantidade de gordura, carboidratos e sódio, entre outros. Entretanto, para o consumidor comum, a tarefa de entender a rotulagem é complicada, o que faz com que muitos ignorem essas informações.

De acordo com a coordenadora do curso de Engenharia de Alimentos, por desconhecer as informações contidas nos rótulos, as pessoas acabam consumindo nutrientes, como sódio e açúcar, muito além do que é recomendável diariamente, o que pode provocar complicações na saúde, como o diabetes, hipertensão e obesidade. A ponderação é ratificada pelos números dos órgãos oficiais, de acordo com um levantamento anual do Ministério de Saúde, houve um crescimento de 60% de adultos obesos em dez anos, ainda de acordo com órgão, 17 milhões de brasileiros sofrem com hipertensão.

Para explicar sobre a importância de se ler o rótulo dos alimentos, entrevistamos a coordenadora do curso de Engenharia de Alimentos da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em Imperatriz, Germânia Bezerra. Formada em Engenharia de Alimentos pela Universidade Federal do Ceará (UFCE), mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos e doutora em Biotecnologia, a docente ingressou na instituição em Imperatriz em 2013 e atua como coordenadora desde 2014. Atualmente faz pesquisa pelo Programa de Avaliação de Teor de Sódio, que é coordenado por diversas professoras do curso e tem o objetivo de reduzir o teor de sódio encontrado em alimentos e também desenvolve trabalhos de avaliação de rótulos.

Nesta entrevista, a doutora fala sobre a importância de se observar o rótulo na hora da compra dos alimentos industrializados, além do prazo de validade e a origem do produto. Também esclarece as questões em torno dos alimentos transgênicos, gorduras trans e os termos light e diet, além de dar dicas para uma alimentação mais saudável.

 

Imperatriz Notícias: Por que os rótulos dos alimentos são tão difíceis de serem entendidos pelo consumidor?

Germânia Bezerra: Não é difundido como usar essas informações, acho que, por isso, as pessoas consideram que são difíceis. Em paralelo, também é importante buscar uma forma mais prática para rotular, como o semáforo nutricional, só olhando as cores, as pessoas podem ver se o nutriente está moderado. Obviamente, existe a questão da linguagem técnica, mas eu acho que as pessoas acham mais difícil por não estar difundida a utilização. Mesmo que se use uma linguagem mais fácil, tem que ser difundido como se usa essa linguagem, entra no mérito da comunicação também.

 

IN: Discute-se que os rótulos não são claros aqui no Brasil, alguns outros países já implementaram rótulos que seriam mais fáceis para o consumidor entender. Quais as mudanças que a senhora acha que são necessárias para obter esse rótulo mais claro no Brasil?

GB: A gente já fez alguns trabalhos sobre o semáforo nutricional, como se fosse um semáforo mesmo. Quando está vermelho, o percentual de um nutriente está elevado, quando é amarelo está moderado e dentro da recomendação é verde. Alguns países já trabalham isso, alguns pesquisadores já testam isso junto com os consumidores. Porque, realmente, a leitura é muito complexa, principalmente na questão nutricional, as pessoas ficam sem entender.

 

IN: Em geral, os consumidores comuns, não possuem o hábito de ler os rótulos dos alimentos. Como isso prejudica na saúde dos brasileiros?

GB: As informações contidas no rótulo têm um porquê de estarem ali, então, todas elas são importantes de maneira geral. Você tem a origem do produto, o prazo de validade, o conteúdo líquido, os ingredientes…. A partir do momento em que você não lê essas informações, isso tem implicações diferentes. Por exemplo, um indivíduo saudável que não observa o prazo de validade corre risco na questão da contaminação dos alimentos. Se você não visualiza a informação nutricional, vai ter implicações diferentes para indivíduos diferentes; se forem saudáveis, pode implicar em uma dieta não equilibrada e vir a adquirir algum tipo de patologia, como a obesidade; se for um indivíduo com patologia, como diabetes ou hipertensão, pode agravar essa doença. Por isso é importante você observar todos os conteúdos que tem lá. Por exemplo, a origem do produto, digamos que você leve um produto para casa e de repente ele está com algum problema, então você tem como entrar em contato com quem produziu para lhe ressarcir e até para você alertar outras pessoas.

 

IN: Então, se alguém comprar um alimento vencido, o primeiro passo é falar com a empresa ou ir ao estabelecimento onde comprou?

GB: O primeiro passo é ligar para o Atendimento ao Consumidor. É importante observar se você manteve o produto sob as condições do fabricante, pois há uma diferença entre prazo de consumo e prazo de validade, que também devem constar nos rótulos. O prazo de validade é com o produto fechado do jeito que ele veio da indústria e o prazo de consumo é depois que você abre, tem a recomendação do fabricante.

 

IN: Quais os pontos principais nos quais as pessoas devem prestar atenção ao ler o rótulo dos alimentos?

GB: Tudo é importante, porque se você deixa passar algo nele há implicações diferentes, problemas diferentes. Então, eu considero que todos são importantes. A questão é: uma pessoa que tem alguma patologia, como um alérgico, que observação ele tem que ter? Sobre os alergênicos, se contém algum ingrediente que é alérgico para ele. Uma pessoa que está querendo fazer uma dieta vai olhar para a questão da informação nutricional, então, como eu lhe disse, todos são importantes. Mas, o prazo de validade é essencial para não comprar um alimento vencido.

 

IN: Há 14 anos, os alimentos transgênicos começaram a fazer parte das prateleiras dos supermercados e isso levantou diversas questões polêmicas envolvendo o perigo que esse alimento pode trazer. Em sua opinião, os alimentos transgênicos devem ser evitados ou, na verdade, eles não causam danos à saúde?

GB: Essa é uma coisa polêmica. Não existem dados que comprovem o risco biológico. Como a gente não têm dados que comprovem, esses produtos foram liberados pelos órgãos regulamentadores. Tecnicamente, a gente não pode dizer se eles são bons ou são ruins, fica muito a critério do consumidor. Por conta desse ponto de interrogação, como eles são regulamentados, seu consumo é permitido. Inclusive, em outros países também há essa mesma situação, não é só no Brasil. Na realidade, são poucos os países que ainda têm a identificação dos transgênicos nos rótulos.

IN: Mas, em sua opinião, é melhor evitar os alimentos transgênicos?

GB: Eu, particularmente, evitaria. Mas a tendência é que eles se espalhem, às vezes a gente consome resíduos de transgênicos sem saber. Hoje em dia você tem isso na soja e no milho, principalmente, mas eles entram na formulação de derivados também, por exemplo, entra no trigo, na farinha, a farinha é usada para fazer o pão, entendeu? É uma coisa bem complexa.

IN: A gordura trans, que é uma gordura artificial, é muito utilizada na composição de vários alimentos. Quais riscos ela pode gerar para a saúde os brasileiros?

GB: A gordura trans não é encontrada naturalmente. Você pega o óleo vegetal e você faz a hidrogenação, a intenção é dar características interessantes para os produtos industrializados, como a textura. A gente deve evitar a gordura trans, inclusive, as indústrias já tem consciência de que devem reduzir, porque ela causa, principalmente, doenças cardíacas. Também favorece a obesidade e a diabetes, mas, principalmente, doenças do coração.

IN: Como isso se dá para uma pessoa que já têm uma doença cardiovascular?

GB: Agrava, por que as trans têm a tendência de aumentar o colesterol ruim, que é o LDL, e reduzir o bom, que é o HVL. A tendência é provocar doenças cardiovasculares, se a pessoa já tem, vai agravar.

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“As pessoas não entendem o que é o light e o diet, pensam que são mais saudáveis, mas eles têm aplicações diferentes”

 

IN: O consumidor costuma associar os alimentos light e diet como alimentos mais saudáveis, isso é realmente verdade?

GB: Às vezes as pessoas não entendem o que é o light e o diet, pensam que são mais saudáveis, mas eles têm aplicações diferentes. Por conta dessa conceituação errada, acabam pensando que o diet não tem gordura e o light não tem açúcar, não é isso. O diet é um alimento para fins especiais, onde há quantidades insignificantes ou nenhuma de um nutriente específico, pode ser açúcar, pode ser gordura, algum nutriente. Já o light tem quantidades reduzidas de algum nutriente, e esse percentual varia de nutriente para nutriente dentro do alimento. Por exemplo, no chocolate diet, que é isento de açúcar, tiraram o açúcar para o diabético comer aquele produto, no entanto, para a questão tecnológica, para ele ficar com aquela consistência, usam, em contrapartida, mais gordura. Então, aquele alimento é calórico. Quando você fala que é mais saudável, depende da situação. Com o light é a mesma coisa, reduzem um nutriente e, em alguma situação, tem que fazer uma compensação tecnológica. Por isso é importante olhar os rótulos, para saber o que tirou e colocou para fazer essa compensação.

 

rotulo3IN: Como uma pessoa comum pode saber se o produto que está comprando tem um teor alto de sódio ou açúcar?

GB: Você vai ser através da recomendação nutricional do teor de sódio, no caso dos açucares, vê através dos carboidratos, se estão dentro dessa categoria. Existem recomendações diárias para um indivíduo. Geralmente, a gente consome bem mais, principalmente o sódio.

 

IN: Pensando em começar uma alimentação mais saudável, quais os tipos de alimentos que as pessoas devem evitar?

GB: Cada indivíduo tem uma necessidade específica, vai variar de acordo com o sexo, com a idade, com a atividade que a pessoa emprega. São muitos fatores que estão relacionados com a questão da dieta. A quantidade de calorias que consta no rótulo é para um indivíduo saudável e adulto. O ideal seria a pessoa procurar um profissional nutricionista, principalmente se quer emagrecer ou engordar. Mas de forma geral, se deve evitar alimentos gordurosos, com excesso de açúcar, com muito sódio, pois vão estar veiculados a doenças cardiovasculares e diabetes.