Repórteres: Carlos Antônio Trovoada Costa e Maiane Nascimento Maciel.

Fotos: Maiane Nascimento Maciel

 

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou em 2019 que, sob situações ocupacionais idênticas, as mulheres dedicam mais horas em afazeres domésticos e cuidando de pessoas que os homens, restando menos tempo para o trabalho remunerado.

A pesquisadora Michelly Carvalho, 34 anos, escritora de artigos sobre feminismo, professora universitária e ativista pelos direitos das mulheres, considera que homens e mulheres deveriam ter uma divisão mais igualitária do serviço doméstico. “O homem não se coloca no lugar da mulher, quando ele pensa que a mulher tem de fazer o serviço de casa…”, relata.

Casada, piauiense, atualmente mora em Imperatriz-MA, onde também leciona na Universidade Federal do Maranhão, Michelly é idealizadora e uma das fundadoras do Núcleo Interdisciplinar de Estudo, Pesquisa e Extensão Maria Firmino dos Reis, um grupo que estuda sobre o feminismo na cidade de Imperatriz. Doutora em Sociologia no exterior pela Universidade do Minho (UMINHO), em Portugal.

Nesta entrevista concedida ao Imperatriz Notícias, Michelly falou sobre a sua militância em favor das mulheres em situação de vulnerabilidade e a favor dos direitos humanos. Se caracteriza como “uma mulher inquieta, feminista, sensível as causas, sensível a várias coisas e teimosa em vários sentidos”.

Lutadora incansável por igualdade social, Michelly Carvalho diz que “devemos ter os direitos iguais, como os trabalhistas, profissionais e, acima de tudo tem que ter o reconhecimento na sociedade que a mulher é colocada sempre numa posição de inferioridade”. Sendo assim uma legítima idealizadora e representante da classe feminina na atualidade.

 

Imperatriz Notícias: Como defensora dos direitos da mulher, qual o principal motivo de você levantar a bandeira feminista?

Michelly Carvalho: Então… o principal motivo de levantar a bandeira feminista tem a ver com uma questão pessoal mesmo, eu acredito que é importante nós mulheres reconhecermos que existe uma desigualdade de gênero, uma desigualdade que nós mulheres somos subalternizadas, colocadas em uma posição inferior. É claro que existem algumas pessoas, um senso comum, que acredita que a mulher já conseguiu ocupar um patamar que até sei lá, 50 anos atrás, era impossível pensar. Mas apesar de todos os avanços que a gente já conseguiu, que a gente já pleiteou com muita luta, com muita resistência, existem muitas coisas ainda a serem conquistadas. Então a questão do feminismo não é uma questão de “mimimi” como estão pensando e falando, é uma questão de vidas mesmo, porque o machismo mata e o feminismo não. E isso é uma mentalidade que começa em casa, na família, e aí depois vai extrapolando esses segmentos, esses contextos.

IN: Professora a senhora falou sobre esses pensamentos e segmentos que começam em casa, dentro do âmbito familiar. Acha que para isso melhorar, essa conscientização tem que vir primeiro dos pais, das escolas ou de movimentos?

MC:Todos os segmentos são importantes. A família é importante nesse tipo de educação, mas ela não assume essa responsabilidade; e a escola também é importante. Tinha que começar dentro de casa de não haver essa diferenciação porque não é só as meninas que sofrem com esse machismo não, os meninos também sofrem, porque quando eles chegam na escola dizem assim: “você não pode chorar porque é homem”, e aí os meninos tem que se reprimir, não podem mostrar seus sentimentos, entende? Então a menina pode chorar… pode não sei o que… e aí na hora da educação física colocam as meninas sentadas e colocam os meninos para jogar futebol, entende? Isso tudo faz parte dessa problemática; então tem que partir de dentro de casa, mas também tem que ter nas escolas.

IN: Quais os valores que na sua visão poderiam promover direitos mais igualitários entre homens e mulheres?

MC: Eu acho que acima de tudo seria o respeito.

“Mais respeito que a gente chama de “sororidade”, que é se colocar no lugar do outro”

. O homem não se coloca no lugar da mulher quando ele pensa que a mulher tem de fazer sozinha o serviço de casa. Eles pensam assim: os dois tem filhos, trabalham e quando chegam em casa o homem tem o direito de chegar e se deitar com as pernas para o ar e a mulher não pode fazer isso pois tem que arrumar a casa, fazer a comida e cuidar do menino. Enquanto isso o homem está na frente da televisão.

IN: Você já ajudou alguma mulher em situação de vulnerabilidade?

MC: Já eu já ajudei algumas amigas, com problemas de relacionamento com questões de abuso. Mas tem um caso concreto que foi uma vez que eu estava saindo de uma farmácia e aí estava uma mulher, tinha um ex-namorado agredindo verbalmente ela. Eu vi que ela estava bem acuada né, e ele tava humilhando ela na frente de todo o mundo. Aí parei, fiquei pensando: Meu Deus o que é que eu faço? Porque eu falo [sobre feminismo] e cadê as ações? Aí pensei… não quero ser igual essas pessoas que passam e ficam só olhando, então eu criei coragem e perguntei se ela queria ajuda. Eu achava que ela ia dizer que não, ignorei que ele estava lá… ela disse: “sim, eu quero”, aí ofereci uma carona para levá-la pra casa. Ele era uma pessoa muito controladorae ela decidiu que não queria ficar mais com ele. Deixei ela em casa e uns dez minutos depois [ela ligou] dizendo que ele tava lá. Aí ofereci uns telefones de umas amigas minhas, ofereci ajuda, núcleo de defesa da mulher, OAB do Piauí e etc.

IN: Você enfrenta ou já enfrentou algumas situações de desvalorização por ser professora de universidade e defensora da mulher?

MC: Por ser professora de universidade, não. Mas por ser mulher, sim. No sentido de achar como se eu soubesse menos por ser mulher. E por ser defensora dos direitos das mulheres de vez em quando aparece alguém que fala que feminismo é besteira e tal…. Quando morava em Teresina participava da igreja, em um grupo de oração, eu e meu marido sempre fomos muito ativistas dos direitos humanos. Aí a gente começou a ver que nós não nos identificávamos mais com as pessoas que estavam na igreja. O próprio padre descriminava os homossexuais e as pessoas de forma geral são muito conservadoras. E sentia que tinha de esconder a minha militância, entende? Aí resolvi não continuar mais [frequentando a igreja], pois as ideias não batiam.

IN: Diante da atual conjuntura do Governo [Bolsonaro], você acredita que esses movimentos podem ser barrados?

MC: Não, acho que não, acredito que não seja barrado. No início eu fiquei com medo que quando ele assumisse fizesse de tudo para fechar, perseguir as mulheres que se organizavam, pedindo direitos iguais e lutando contra o governo dele. Depois o Sergio Moro acabou dando uma acalmada que não ia ser assim e tal. Desde a época da eleição [do Bolsonaro] teve perseguição; não só uma perseguição organizada, mas uma perseguição da pessoa do vizinho que votou nele e tá lá fazendo papel de policial dele. Então é claro que vai ter, as pessoas vão estar lá olhando… os estudantes que ficam filmando professores, falando mal dele. Não institucionalmente, mas sim de pessoas que seguem os pensamentos dele e apoiam esses planos.  Essa perseguição vai ser mais velada e não oficial.

IN: Qual a relevância desses temas serem discutidos nas escolas e universidades?

MC: Essa temática é importante para ser discutida porque tem a ver com a vida de cada um de nós, tem a ver com minha relação com minha família, tem a ver com minha relação com meu namorado. Quando a gente fala de feminismo está falando de uma coisa global. Perpassa em todos os âmbitos da nossa vida: quando eu falo disso, eu falo da menina não seguir com um relacionamento em que ela seja espancada, ou sofra violência psicológica ou quando o pai não respeita e espanca a filha ou quando o pai não respeita a mãe, xinga e fala nomes feios, bate na mãe. Isso tudo tem a ver com feminismo.Quando na família alguém diz “quem tem que lavar a louça é fulana, porque ela é mulher”, isso está relacionado. Por isso é importante colocar esses temas em debate.

IN: Os meios de comunicação não têm preparo para tratar sobre as temáticas ligadas à violência contra a mulher?

MC: Deveriam estar mais preparados para tratar dessas temáticas, porque faz parte de uma temática muito sensível, sabe?Pois a gente está falando com a pessoa que foi estuprada, agredida, xingada, que sofreu agressão psicológica. Basta vermos o caso daquela advogada que recebeu várias pancadas de um homem, e ficou praticamente irreconhecível e as pessoas falavam porque ela foi para o quarto com ele, porque só tinha ficado uma vez com ele, e ela já levou uma vez para a casa dele… Gente, mas porque a culpa é dela? A culpa não é dela, a culpa é do cara que bateu nela!