Texto de João Pedro Santos Costa

Foto de Divulgação

 

"No futebol trabalhamos a recuperação porque o “boleiro” é o cara que joga fim de semana. Ele só quer jogar, não cuida. Ele sente um pouquinho, bota um gelo, melhorou, vai jogar de novo. Só para quando arrebenta de vez (risos).

“No futebol trabalhamos a recuperação porque o “boleiro” é o cara que joga fim de semana. Ele só quer jogar, não cuida. Só para quando arrebenta de vez (risos)”

Ele já passou por grandes times de futebol do Maranhense, como o Moto Clube de São Luis, JV Lideral de Imperatriz, e hoje atua no Cavalo de Aço. Longe de ser o jogador de futebol que sempre sonhou, Wallace Cardoso encontrou no “cuidar dos atletas” uma maneira possível de sem manter próximo do esporte que admira desde a infância. Formado em 2007 em Fisioterapia ele se especializou em fisioterapia esportiva e é responsável pela recuperação dos atletas do time imperatrizense. Nessa conversar, além de falar ‘de bola’ descobrimos um pouco mais sobre a rotina do esporte que é paixão nacional e dos bastidores de quem atua diretamente nos gramados.

"No Cavalo de Aço a principal dificuldade que a gente tem é a falta de estrutura. Não temos um departamento de fisioterapia do time"

“No Cavalo de Aço a principal dificuldade que a gente tem é a falta de estrutura. Não temos um departamento de fisioterapia do time”

Imperatriz Noticias (I.N) – Por que cuidar dos jogadores e não jogar futebol?

Wallace Cardoso (W.C) – Quando era estudante, jogava futsal, futebol, joguei dos sete até os 18 anos. Na verdade, quando terminei o Ensino Médio eu queria fazer Educação Física, queria estar envolvido no esporte, na bola de alguma forma. Só que me frustrei, porque não passei no vestibular de Educação Física, então fiquei naquela, sem saber o que fazer. Aí surgiu o vestibular de Fisioterapia, fui ler e pesquisar sobre essa profissão e vi que tinha especialidade esportiva, que podia estar lidando com o atleta, com o esporte. Fui fazer, mas não conhecia a profissão, não sabia o que era. E a questão de depois ter feito a especialização em fisioterapia esportiva foi por causa de sempre querer estar perto do futebol.

I.N – No futebol, você trabalha mais com a prevenção ou a recuperação de atletas?

W.C – No futebol mais com a recuperação. Com outros atletas de corrida ou bicicleta, que praticam outras modalidades, trabalhamos mais com a prevenção. No futebol trabalhamos a recuperação porque o “boleiro” é o cara que joga fim de semana. Ele só quer jogar, não cuida. Ele sente um pouquinho, bota um gelo, melhorou, vai jogar de novo. Só para quando arrebenta de vez (risos). Mesmo no Cavalo de Aço trabalhamos com a reabilitação e deixamos a prevenção mais para o preparador físico.

I.N – O que dá mais trabalho: a prevenção ou a recuperação?

W.C – A recuperação. Recuperar é muito mais difícil. O trabalho de prevenção também gera menos custos, gasta menos tempo e dá uma segurança maior para o atleta. A reabilitação dá mais trabalho porque se for uma lesão séria vai demandar tempo, além da questão psicológica do atleta. No futebol, a gente tem um calendário no Brasil muito apertado, então o cara joga quarta-feira e sábado, quinta-feira e domingo, não tem muito tempo pra recuperar. Às vezes, joga duas vezes na semana e se o atleta fica uma, duas semanas parado, perdeu três, quatro jogos. Isso, pra nós do Maranhão, que temos o campeonato maranhense curto, é muito.

I.N – E aquela história de que jogador é mimado, precede?

W.C – Jogador de futebol, você é doido? Se deixar, ele quer que você carregue ele nos braços (risos). Em geral, jogador de futebol é muito mimado. Gosta de ter regalia. Na verdade, o jogador de futebol no Brasil é mimado. Tem alguns que são guerreiros, porque tem aquele cara que tem o sonho mesmo, ele vai lutar, dormir em qualquer lugar, mas em geral quando está no profissional, saiu da base, ele fica mimado.

 

I.N – Quais as principais lesões de atletas profissionais e amadores?

W.C – Tanto no atleta profissional quanto no amador é a lesão muscular. Lesão muscular é o carro-chefe. E no atleta do futebol, além da lesão muscular, é a lesão de ligamento cruzado anterior. Geralmente o atleta de fim de semana não tem uma preparação, não faz um trabalho preventivo de fortalecimento muscular, seja na academia ou em outra atividade física, por exemplo, em treinamento funcional. Ele acaba só jogando, desgasta a musculatura, gerando as lesões.

 I.N – Como os praticantes de esportes podem evitar essas lesões?

W.C – O que a gente recomenda é que faça alguma atividade física além da atividade esportiva. Se você é corredor, gosta de correr em fim de semana, corre nas corridas que tem na cidade, faça pelo menos de duas a três vezes na semana um trabalho de musculação, fortalecimento muscular em qualquer atividade, porque os músculos protegem as articulações, vão proteger os joelhos, os tornozelos, a coluna.

I.N – O fisioterapeuta lida com o emocional do atleta?

W.C – Demais. A gente lida muito com o emocional do atleta, até porque quando o atleta vem para gente, principalmente no clube de futebol profissional, no auto rendimento, ele vem machucado e deprimido. Porque assim, o que atleta sempre quer é jogar, seja jogador de futebol, vôlei, basquete… Ele quer estar jogando, não existe essa de o cara ser poupado. Não, o atleta quer mesmo é jogar. Quando o atleta está na fisioterapia é porque ele não pode jogar, está machucado. Então a gente tem que lidar o tempo todo com o emocional, mostrar que aquilo é uma fase passageira, que vai dar certo. O fisioterapeuta por lidar com o dia a dia acaba sendo um pouco de psicólogo.

I.N – No Cavalo de Aço quais são as principais dificuldades desse profissional?

W.C – No Cavalo de Aço a principal dificuldade que a gente tem é a falta de estrutura. Não temos um departamento de fisioterapia do time. Hoje eu terceirizo a minha clínica para o time e para que os jogadores sejam atendidos. Nós não temos um espaço no time, ou seja, um espaço de avaliação fisiológica, fisioterapêutica, mais individualizado para o atleta, para que ele tenha o conforto de fazer no próprio clube. Hoje no Cavalo de Aço essa é a principal dificuldade. Em outro time que já trabalhei, conseguia fazer um trabalho de excelência porque tinha um setor próprio, uma sala própria de fisioterapia, com todos os recursos que tinham disponíveis na época.

 

I.N – O senhor tem algumas histórias engraçadas que já passou dentro do futebol como fisioterapeuta?

W.C – Cara tem muitas histórias engraçadas. No futebol tem muito causo. Costumo dizer, futebol não dá dinheiro pra gente, mas histórias dão muito (risos). Uma das histórias engraçadas que aconteceu comigo, foi quando ainda trabalhava no JV L ideral, em 2009, foi em um jogo contra o time do Nacional de Santa Inês. O estádio de Santa Inês estava interditado, aí a gente foi jogar em Vitoria do Mearim, em um estádio pequeno, grama alta. Nessa tarde em Vitoria do Mearim choveu muito e eu me esqueci de levar minha chuteira (risos). Então trabalhei de tênis, o campo molhado, encharcado, e a arquibancada pequena, mas estava cheia. O jogo era JV Lideral x Nacional, se não me engano, era um jogo que valia classificação para as semifinais, e o jogador machucou do outro lado do campo, e eu corri com o massagista, e pra acompanhar o massagista, eu acelerei o passo, só que na hora de frear eu estava sem chuteira (risos), escorreguei e caí no chão. A torcida começou a gritar e sorrir. É umas das historias que a gente viveu.