Texto de Brigithy Silva

Fotos de divulgação

"Então a dificuldade mesmo é você começar a entender que é um jogo mental e que você não joga só as cartas, você joga as pessoas também//'

“Então a dificuldade mesmo é você começar a entender que é um jogo mental e que você não joga só as cartas, você joga as pessoas também’

Cigarros, bebidas, cowboys e sorte. Quando falar de pôquer, você pode acabar ouvindo algumas dessas palavras. Porém essa é uma versão mais antiga desse esporte geralmente extraído de filmes mais antigos como a comédia Maverick de 1994 do diretor Richard Donner. O esporte que está recebendo no brasil apoio de grandes estrelas como o jogador de futebol Neymar Júnior vê sua média de jogadores aumentar a cada ano, segundo o gráfico divulgado pelo jornal O Globo em 2015 a média de jogadores por etapa durante o BSOP (Brazilian Series of Poker) foi de 53,4 em 2006 para 1.059,5 em 2015. O novo ambiente do pôquer inclui grandes cassinos, hotéis e resorts, além de famílias inteiras, vão jogadores com suas esposas e filhos ou vice-versa. E um novo etilo de jogadores também cresce nesse esporte. São as mulheres. Há números cada vez maiores de participantes femininas nos torneios.

Uma delas é a jogadora de pôquer profissional, multicampeã e representante feminina na equipe maranhense de pôquer Carla Cristiane Del Castilho, 31 anos, ou apenas Kaká Del Castilho. O que começou como uma brincadeira, logo se tornou algo sério. De um passa tempo de cartas com os amigos todas as quartas-feiras ao sonho de competir no torneio mundial de pôquer, o WSOP (World Series of Poker). Kaká Del Castilho começou cedo no esporte, aos oito anos corria de Kart, e logo passou para o judô. Seu primeiro contato com o pôquer profissional foi em um time feminino como representante do Nordeste. Depois de muito estudo, preparo e vitórias, foi convidada a integrar o grupo Team Foster 888 de jogadores profissionais de pôquer.

– A gente era realmente muito a minoria, hoje já fazemos torneios em São Paulo que dá quase 200 meninas. Isso é muito bom.

Em nossa conversa ela fala um pouco do universo feminino dentro dos torneios e a sua luta para quebrar algumas crenças atribuídas ao pôquer. Como a ideia de endividamento e sorte que são geralmente associados a esse esporte. Ela conta entre risos a experiência que teve com o próprio pai:

– Eu até entendo, as pessoas mais antigas acreditam nisso (conceitos), meu pai era assim. “Você vai perder seu dinheiro? ” – Não pai, não estou jogando valendo dinheiro. Eu pago uma inscrição igual qualquer outro esporte, as fichas são fictícias. Hoje ele entende. Já sabe. Mas antes ele tinha aquela parada: “ah vou perder a casa, o carro”. Alguns filmes mais antigos mostram aquele ambiente de cigarro, a galera fumando, bebendo, e não tem nada disso. Os ambientes são fechados e climatizados, tem diretores de torneio. Se você quiser fumar tem que ir para fora do evento. É bem legal mesmo. Vou até levar minha cachorrinha agora. (Risos)

"Você tem aquele fator sorte, 20%, mas o resto é pura habilidade"

“Você tem aquele fator sorte, 20%, mas o resto é pura habilidade”

Imperatriz Notícias: O pôquer é um jogo de azar?

Kaká Del Castilho: Não. Não. Há muito tempo já foi desmitificado. O pôquer é considerado um esporte da mente assim como o xadrez, hoje ele já está na regulamentação. Foi comprovado que ele é habilidade sim. Até porque você não joga só mãos com valores. Você tem a capacidade de blefar, tem a leitura corporal que se faz do seu oponente. Então tem várias coisas além das cartas que você consegue observar para se sobressair no jogo. É bem interessante. Você tem aquele fator sorte, 20%, mas o resto é pura habilidade.

IN: Qual a maior dificuldade em jogar pôquer?

KDC: O jogo em si é simples, as regras do pôquer são fáceis. É você pegar e ler quais são as regras, as jogadas da menor para maior. Não é nada difícil. O negócio é você ir jogando, adquirindo experiência, ir aprendendo. Porque tem mais além das regras, que é o que eu falo, a dificuldade vai ser sempre está pensando o que seu oponente pode ter. É muito uma questão de metagame, que é pensar o que o seu adversário pode ter e o quê o seu adversário pensa que você pode ter. Então a dificuldade mesmo é você começar a entender que é um jogo mental e que você não joga só as cartas, você joga as pessoas também. É jogando que a pessoa vai lidando com isso. Você vai observado que participar de um torneio, ou coisa assim, não basta só saber as cartas.

IN: Como é ser uma mulher em um esporte predominantemente masculino?

KDC: Hoje a gente já venceu uma barreira bem grande. Já tem mais mulheres no evento. Realmente a maioria é masculina, somos a minoria ainda. Mas vem crescendo bastante. As mulheres estão perdendo aquele medo. Acho que em como qualquer outro esporte, as mulheres são a minoria e aos poucos vão ganhando espaço. E o legal do pôquer é que você não tem essa coisa física que difere um do outro. É mental. Então a mulher pode jogar de igual para igual com um homem sem problema algum. Acredito que hoje é um negócio bem legal, as mulheres estão participando bem mais. Não tem mais aquela coisa de até os homens te olharem e: “ah uma mulher, é mais fácil de jogar”. Não. Eles já respeitam bastante porque sabem que tem muita mulher jogando bem.

IN: O fracasso feminino no pôquer é atribuído a conceitos machistas sobre mulheres. Entre eles temos intuição feminina, passividade, sentimentalismo, falta de raciocínio lógico/matemático. Você já sofreu discriminação por ser uma mulher durante um torneio?

KDC: Eu não tenho muito do que reclamar, porque sempre me respeitaram bastante. Mas já houve situações do tipo: eu levo a mão até o final (board, são 5 cartas viradas na mesa), e o cara só pagou a jogada porque ele pensou assim: “não, não vou perder para uma mulher”. Eles desconfiam muito da mulher jogando e no pôquer a gente desconfia mesmo, pode está blefando. Muitas vezes eu estou mentido “uma mão” para tentar levar ela no blefe. Mas muitas vezes eles pagam um pouco de orgulho sim, por ser uma mulher (a adversária). Ainda tem um pouco disso. Mas até que preconceito em si, não. A maioria hoje vê como uma coisa legal a mulher jogando.

IN: Você acha que alguns homens ainda ficam chateados quando perdem para alguma mulher?

KDC: Ainda tem. Eu já venho de outros esportes masculinos e também tinha muito disso. No kart eu sofri, porque eu ganhava dos homens e eu era a única mulher correndo no meio deles. E eu ganhei várias corridas e tinham aqueles meninos que nem falavam comigo quando acabava a corrida só porque eu ganhei deles. Virava o rosto.

IN: Algumas jogadoras declaram que usam estratégias como “sensualidade” ou se aproveitam de conceitos como “sexo frágil” para distrair os competidores masculinos. Você acha que isso é correto?

KDC: Eu tenho uma opinião particular, a gente tem que saber se comportar em qualquer ambiente. Por eu saber que o pôquer é um ambiente mais masculino, então eu não vou com roupas que não são apropriadas para um ambiente desses. Já que na mesa a visibilidade é da barriga para cima. Então eu não vou usar um decote, porque nós estamos ligados o tempo todo, um só olhando para o outro, eu não usaria isso. Acho que tem ambiente para tudo. Mas tem sim mulheres que usam. E existem aqueles comentários, como vai existir homens que vão dá em cima, tem muito isso. Acho que vai do que cada jogadora pretende. Ninguém nunca faltou com desrespeito comigo. Mas tem as jogadoras que eu já vi que vão com decote, não sei se isso é estratégia que serve para elas distraírem jogadores. Mas eu não vejo como algo positivo para quem é profissional.

IN: Para o campeonato nacional por equipes é obrigatória ter uma mulher em uma equipe formada por seis jogadores e um técnico, como você avalia essa obrigatoriedade e o que você percebe como dificuldade para ter mais mulheres na equipe e não apenas preencher a vaga obrigatória?

KDC: Eu vejo até por um lado positivo. Como a maioria dos melhores jogadores são homens, deixar apenas a escolha para o técnico acaba que nós (mulheres) nunca teríamos oportunidade. Obrigando ter uma mulher (na equipe), eles vão ter que escolher quais são as melhores mulheres dos estados para selecionarem. Mas isso não significa que é só uma mulher, pode sim convocar outras mulheres. Acho isso legal porque como nós ainda somos minoria, acho que foi uma maneira de incluir mais a mulher no esporte. Eles vêm lutando junto com a gente tentando abrir mais espaço. É o espaço que estamos ganhando aos poucos, até que chegue o dia onde não vai ser preciso a obrigatoriedade. Naturalmente vão chamar as mulheres para jogar.

IN: De 2006 a 2014 somente homens foram campeões brasileiros de pôquer na modalidade Hold’em do torneio BSOP (Brazilian Series of Poker). E no ranking atual de 2016 temos até o momento apenas uma mulher entre os 100 melhores colocados no ranking da categoria Hold’em. A quê você atribui essa dificuldade e o que você acha que é preciso fazer para que as mulheres ocupem posições mais expressivas nos campeonatos?

KDC: De conhecimento de jogo em si, todas as meninas estão preparadas. As que estão jogando os eventos principais é porque sabem nós temos capacidade para estar jogando de igual para igual. E não adianta, é jogando que você vai adquirindo experiência além dos estudos táticos. O que eu vejo como dificuldade é que o brasileiro de pôquer ocorre durante várias cidades no ano, são oito etapas. E a questão é que faltam as vezes investimento para as mulheres estarem acompanhando o circuito como os homens. Algumas meninas são namoradas de jogador e acompanham. Eu sou daqui do Maranhão, então eu tenho que ter um investimento para estar acompanhando o brasileiro de pôquer, tem um custo para isso, além de se inscrever no torneio. Eu vejo muito isso ligado a região mesmo, muitas meninas que se destacam, dependendo de onde está ocorrendo o evento, muitas vezes são de lá mesmo ou próximo de lá. Eu me sinto um pouco presa aqui porque eu não tenho oportunidade de estar indo em todos os torneios, eu vou no que dá para ir, eu me organizo. Mas minha vontade era acompanhar o circuito o ano inteiro.

Acho que o pôquer está indo para um lado que as empresas estão começando a olhar. Vai começar a surgir patrocínio para isso. Vai ser uma coisa legal para ter oportunidade igual todo mundo.

IN: Você foi campeã da competição Ladies no 888 Poker Festival de 2016. A mulher mais bem colocada ficando em 22º lugar no BSOP etapa de Fortaleza 2012. E recentemente foi campeã na categoria Ladies da última etapa do circuito Maranhense 2016. Como você vê a importância de torneios voltados só para as mulheres no pôquer?

KDC: É uma forma de atrairmos mais meninas. Eu recebia muitas mensagens de meninas que falavam: “acho demais você jogar, eu queria ir”. E eu falo: “Vamos! Vamos para o torneio, vai ser legal”.  E elas respondem: “Ah não, mais eu não sei jogar, tenho vergonha porque (as participantes) são só mulheres que sabem jogar”. Não é assim, a intenção do torneio específico para mulheres é fazer perder um pouco da vergonha. Para que elas conheçam o ambiente. É bem massa, bem organizado. Acontecem nos maiores salões de hotéis, resorts. A estrutura que eles propõem para nós é a nível internacional. O evento Ladies pode ter um preconceito porque é só pra mulheres, mas eu vejo de forma positiva. É divertido você está em uma mesa só com mulheres, troca figurinhas, as meninas conversam, brincam, então é bem legal.

IN: Você acha que é possível ter uma carreira financeiramente estável como jogadora profissional de pôquer?

KDC: Tem sim. Como sabemos que é um esporte de habilidade, por mais que tenha aquele fator de que você vai perder muitas vezes, a maioria das vezes. A longo prazo, sabemos que você pode ganhar mais do que perder se estiver se dedicando naquilo. Temos que analisar os erros que cometemos durante um torneio para tentar minimiza-los. As empresas estão começando a olhar para o mercado do pôquer. Querendo ou não, está abrindo uma mídia grande, até porque tem o Neymar que é embaixador do pôquer no Brasil, o Ronaldo fenômeno, e o Cristiano Ronaldo. De certa forma eles estão ajudando. Eu acho legal que está começando a ir para esse lado. É financeiramente bom para essas empresas que vão está patrocinando jogadores, como hoje há empresas que patrocinam e os sites de pôquer. Qualquer jogador quer ser patrocinado por um site, porque você é contratado só para jogar. Você ganha salário só para isso. Eu jogo para dois times, um eu jogo para a live que é o ao vivo e o outro eu jogo só para online. O online eu jogo para um time e recebo. O ao vivo eles nos pagam para ir em determinado torneio.