Texto e fotos de Frida Bárbara

O Instituto de Projetos Educacionais e Sociais (PES) é uma organização sem fins lucrativos que atua na região Tocantina desde 2002. O grupo promove o desenvolvimento social em escolas e comunidades por meio de projetos que oferecem espaços para a inserção de crianças e jovens no meio artístico e cultural.   Entre as atividades realizadas, o instituto já implantou uma rádio comunitária no bairro Caema, com o objetivo de unir e promover interação entre a comunidade. A ONG também oferece aulas de dança, cinema, fotografia, capoeira e teatro para alunos de escolas da rede municipal de ensino com o projeto Universidade da Infância e Juventude.

O PES tem parcerias com a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) através da extensão dos cursos de  Comunicação Social, História, Geografia e Pedagogia e recebem ajuda de alunos e ex-alunos dessas instituições para a realização de oficinas e outras tarefas. Atualmente, a ONG promove ações nas áreas de Educação e Cultura, como o “Festival Cultural de Fanfarras, Danças e Poesias” com alunos  de toda a rede pública escolar de Imperatriz. Você pode conferir fotos e outras informações dos festivais e apresentações dos jovens beneficiados pelos projetos, acessando o link: https://www.facebook.com/institutopes/?ref=ts&fref=ts.

Desde que iniciou suas atividades, há 14 anos, o PES já beneficiou mais de 25 mil pessoas, entre crianças, jovens e adultos que tiveram suas vidas transformadas pelas iniciativas de projetos desenvolvidos. Nesta entrevista que segue, conversei com Nilcea Martinho, socióloga e presidente do instituto, para falar mais sobre as ações promovidas pelo PES, as dificuldades enfrentadas para a realização das atividades, os projetos futuros para a cidade, bem como, a falta de incentivo e pouca valorização cultural por parte do Estado. Confira!  

 

Imperatriz Notícias- Qual a maior dificuldade na captação de recursos para o financiamento dos projetos do Instituto PES?

Nilcea Martinho- Todas. O nó da questão é a captação de recursos. Agora, por exemplo, nós estamos com o projeto “Universidade da Infância e da Juventude”, em parceria com a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e Universidade Federal do Maranhão (UEMA), e o recurso que mantém o projeto vem do Fundo da Infância e Adolescência (FIA) e Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente. Só pra você ter uma ideia, esse projeto já era pra ter sido encerrado, a proposta dele era de dez meses, mas até agora, nós já estamos há um ano e meio funcionando, e ainda estamos na terceira etapa do recebimento de recursos, que deveriam ser cinco e já ter terminado. Então a gente trabalha mesmo por nossa vontade e por conta de nossos parceiros e voluntários. Todos os nossos professores das oficinas, são voluntários.

"Eu gostaria que o Instituto fosse mais atuante, né?"

“Eu gostaria que o Instituto fosse mais atuante, né?”

I.N- Qual o perfil dos adolescentes e crianças assistidas pelos projetos do Instituto PES?

M- São crianças e adolescentes da rede municipal de ensino, principalmente as que estão em situação de risco social, como na comunidade do bairro Caema.

 I.N- O bairro Caema, principal bairro atuante do Instituto PES, é, constantemente, taxado como violento por boa parte da sociedade. De certa forma, há uma preocupação maior com as políticas públicas e realização de atividades com os jovens desse bairro?

N.M- Eu gostaria que o Instituto fosse mais atuante, ? Porque como os recursos são poucos. Mas, eu acho que a própria questão da rádio comunitária dentro do bairro onde a gente faz uma divulgação nos outros projetos, nos nossos outros locais de trabalho, já dá uma nova perspectiva para esse bairro, que geralmente é muito estereotipado de marginalizado e de violento, possibilidades que eu nem acredito, porque eu já estou há cinco anos indo no bairro Caema e nunca fui violentada, de nada, muito pelo contrário, sempre que vou lá realizar trabalhos comunitários, toda a população é muito aberta e está sempre participando. Mas eu vejo que quanto mais, melhor. Se tivesse possibilidade mesmo de a gente está fazendo um trabalho mais amplo lá, haveria maiores possibilidades para esses jovens, crianças e para a comunidade de uma forma geral, e até mesmo para essas famílias enxergarem que é preciso que elas motivem, incentivem e que levem os filhos para participarem de novas atividades.

 

I.N-  No projeto Caema Ambiental, que beneficia moradores do bairro Caema com ações socioambientais e de inclusão, o instituto abriu inscrições para trinta jovens receberem o curso de manuseio dos aparelhos da rádio comunitária que foi implantada no bairro, todas as vagas foram preenchidas, mas ao final do curso restou apenas 1 aluno. Quais as dificuldades enfrentadas por vocês para que esses jovens continuem até o final dos projetos?  

M- Eu considero que as dificuldades são familiares mesmo, a falta de incentivo por parte da família que não consegue enxergar a perspectiva de que, quanto mais a criança tenha conhecimento em várias áreas, melhor. Quando a família não se apercebe disso e não estimula, naturalmente, o adolescente por si só nem sempre consegue enxergar um futuro se não tiver ninguém motivando ele. Por isso acontece essa evasão que nós conhecemos.

Atividades artísticas do projeto

Atividades artísticas do projeto

I.N- De que forma vocês notaram o impacto das ações promovidas pelo PES na vida das crianças assistidas?

N.M- O Instituto PES ficou parado por dois anos, de 2009 até 2011, porque eu estava muito cansada e tinha ouça gente, como sempre, para ajudar. Em 2012, quando retornamos as atividades , demos início a um trabalho ainda mais voltado para a área cultural e educacional e desde então observamos um resultado muito positivo, de mudança de comportamento mesmo, de ideia, de uma nova visão cultural por parte dessas crianças e de suas famílias.

 

I.N- Ao longo desses 14 anos de Instituto teve alguma história marcante ou alguém que teve destaque profissional que foi resultado de algum projeto promovido pelo PES?

M- Olha, o propósito do projeto mesmo é de incentivar essas crianças à cultura e a educação. Talentos nós temos muitos, mas ainda não teve, de verdade, nas oficinas de música, dança, capoeira, não tivemos alguém que caminhasse para a parte mais profissional, não. Nosso objetivo é fazer esse incentivo inicial para que eles percebam os talentos e a partir daí eles possam dar continuidade a essas atividades em outros lugares.

 

I.N- Como você se sente, como cidadã, por fazer parte de uma ONG que faz a diferença na vida de tantas famílias?

M- Olha, eu falo pra você com toda a sinceridade, eu me sinto muito feliz! Eu não sei nem se as pessoas que fazem, que participam dessas oficinas, esses alunos, pais, se sentem tão felizes como eu. Porque eu acho que toda vez que você está disseminando conhecimento e proporcionando essa nova perspectiva na vida dessas crianças, você também está se ampliando enquanto ser humano, está melhorando

 

I.N- Para encerrar, como você enxerga o incentivo do Estado em relação à valorização da cultura nas escolas? Há, de certa forma, um negligenciamento?

M- Eu acho que essa temática da valorização da cultura é questão nacional que, durante algum tempo esteve melhor, nós não podemos negar, sem partidarismo, sem citar nomes, a cultura deu um bom avanço. Infelizmente, a maior parte das escolas não consegue enxergar que educação e cultura são paralelos. O governo, os professores, os profissionais da área de educação ainda não conseguem enxergar isso como política pública, acham que é bobagem, que não tem importância na vida das pessoas. Se a gente não consegue entender a cultura de um povo, nós não vamos conseguir passar para as pessoas que é preciso a gente ter ética, é preciso sermos cidadãos e é preciso lutarmos por uma educação melhor, que tudo isso faz parte da nossa cultura.