Histórias de duas marcas locais mostram como a rede social se tornou espaço de venda,identidade e relacionamento com clientes

Por Luana Rodrigues
O comércio digital vive uma expansão acelerada no Brasil, e Imperatriz não ficou de fora. Entre 2019 e 2024, as vendas online de micro e pequenas empresas no país cresceram perto de 1.200%, saltando de R$ 5 bilhões para R$ 67 bilhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Embora o levantamento abranja todo o e-commerce, ele revela um movimento que aparece com força na cidade: empreendedores apostando nas redes sociais como principal espaço de trabalho.
É nesse cenário que empreendedoras como Kamila Passos, 25 anos, da Missfitness, e Amanda Hyohanna Viana Costa, 28, da marca de moda praia Hyobikini, organizaram seus negócios a partir do Instagram, sem ponto físico, transformando o feed em vitrine, loja e canal direto com clientes.
Para Kamila, a mudança para o empreendedorismo digital surgiu do desejo de liberdade após trabalhar como CLT em uma clínica. Ela conta que o Instagram ofereceu exatamente o que procurava: “Escolhi vender pelo Instagram porque ele oferece visibilidade, interação e vendas rápidas. É um canal onde posso criar conexão real com minhas clientes e fortalecer minha marca todos os dias.” Além disso, Kamila destaca um dos principais benefícios que encontrou no modelo digital: a liberdade de fazer os próprios horários, algo que, segundo ela, é mais improvável em uma rotina tradicional de trabalho.
A trajetória de Amanda também começou longe das vitrines tradicionais. Ela já empreendia no ramo alimentício antes de migrar para o vestuário e criar a Hyobikini em 2020, momento em que a pandemia impulsionou os negócios digitais. Desde então, o online se tornou seu espaço natural. “Comecei durante a pandemia, então de qualquer forma teria que ser online. Até hoje a semente do físico não foi plantada no meu coração. Sinto que o e-commerce só cresce.”
Amanda também aponta benefícios que considera fundamentais para quem empreende no Instagram: o alcance que a plataforma entrega quando o conteúdo é bem produzido, a aproximação com as clientes e a possibilidade de começar sem grande investimento, já que uma loja física exige custos que muitos empreendedores não conseguem assumir no início.
Segundo Dideia Torres, analista do Sebrae, o uso do Instagram como principal canal de vendas é uma alternativa viável para pequenos negócios de Imperatriz, especialmente na fase inicial. “A rede social funciona bem para divulgação, relacionamento e geração de vendas, desde que esteja integrada a outros canais, como o WhatsApp e um atendimento mais estruturado”, explica. Ela ressalta, no entanto, que o digital não elimina a necessidade de organização e planejamento.
O funcionamento das vendas nas duas lojas segue um fluxo semelhante: chamadas pelo direct, finalização da compra pelo Instagram ou WhatsApp e entrega por entregador ou retirada. Na Hyobikini, um site recém-lançado complementa esse processo, oferecendo benefícios como desconto na primeira compra, delivery grátis acima de determinado valor e até um grupo VIP para aproximar ainda mais as clientes da rotina da marca.
As estratégias de conteúdo também variam conforme o público. Na Missfitness, os stories são o formato de maior retorno, enquanto na Hyobikini o destaque fica para os provadores e reels, que geram maior engajamento e levam clientes para o direct. Mas o digital também impõe desafios. Kamila explica que algumas clientes ainda têm dificuldade em comprar sem provar, o que limita parte das vendas. Já Amanda lembra que, no início, encontrar fornecedores dispostos a vender pequenas quantidades foi um obstáculo, além da necessidade de conquistar a confiança de quem não podia ver ou trocar o produto antes de comprar. “Empreender é uma eterna montanha-russa e um constante aprendizado”, resume.
Esses desafios são comuns entre empreendedores digitais, segundo o Sebrae. De acordo com Dideia Torres, a dependência excessiva de uma única plataforma e a dificuldade de converter engajamento em vendas estão entre os principais obstáculos. “Por isso, orientamos a diversificação de canais, a profissionalização da gestão e o uso estratégico das redes sociais, para que o negócio não fique refém apenas do algoritmo”, afirma.
Quando o assunto é futuro, as visões divergem. Kamila pretende abrir um showroom, não uma loja tradicional, mas um espaço exclusivo para experimentação das peças. Amanda, por outro lado, afirma que, por enquanto, não pensa em ponto físico e mantém o foco no e-commerce e no relacionamento digital.
Para a analista do Sebrae, modelos sem loja física ou híbridos tendem a ser mais sustentáveis do que o varejo tradicional, principalmente no início do negócio. “Esses formatos reduzem custos fixos e riscos, o que favorece pequenos empreendedores, desde que o modelo esteja bem planejado e alinhado ao perfil do cliente”, avalia.
Mesmo seguindo caminhos diferentes, as duas concordam em um ponto: o Instagram é mais do que uma vitrine. É a base do negócio, o espaço onde criam comunidade, fortalecem vínculo com clientes e constroem, dia após dia, a identidade de suas marcas.