Voz Literária · Quem vive conta

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Em libras, Imperatriz reivindica direito e inclusão da pessoa surda

Falta de espaço dificulta o acesso da população surda aos serviços públicos

Bruna Braz

A ausência de intérpretes de Libras em hospitais, bancos, repartições públicas e estabelecimentos privados continua sendo uma das principais reclamações da comunidade surda. A dificuldade compromete o acesso aos direitos básicos, como saúde, educação, justiça e atendimento administrativo, evidenciando que a inclusão está ainda distante de ser uma realidade plena. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 2.6 milhões de brasileiros possuem dificuldade permanente ou grande deficiência para ouvir, dependendo da acessibilidade para garantir autonomia.

Embora a Língua Brasileira de Sinais (Libras) seja reconhecida oficialmente no Brasil, desde a Lei nº 10.436/2002, e tenha sua regulamentação fortalecida pelo Decreto nº 5.626/2005, a realidade da comunidade surda em Imperatriz, no sudoeste do Maranhão, é marcada ainda por desafios no acesso à comunicação, aos serviços públicos e à participação social.  

Sem autonomia para exercer os seus direitos, muitos surdos precisam do auxílio de seus familiares para realizar qualquer tipo de atividade. “Sempre que precisei de atendimento médico, era uma luta, porque eu dependia muito da minha filha, e, como ela era criança, as pessoas costumavam ser maldosas ou querer passar a perna”, relata Patrícia Morais, 41 anos, sobre parte de sua vivência como surda.

Gravidez de Patrícia foi marcada por inacessibilidade em meados de 2015. (foto: Patrícia Morais)

A realidade descrita por Patrícia é semelhante à de muitos surdos que fazem parte dessa comunidade. “Foi muito difícil para eu sentir que estava fazendo papel de mãe, porque eu não conseguia marcar uma consulta para minha filha. Quando tinha reunião na escola, eu não comparecia, porque, mesmo que eu estivesse lá, eles não me entendiam, então era melhor que eu não estivesse presente”, relembra Patrícia sobre como a sua maternidade foi afetada pela falta de acessibilidade.

Outro aspecto destacado por Patrícia é o sentimento de exclusão provocado pela falta de preparo nos locais em que vai. Ela afirmou que frequentemente percebe a má vontade dos atendentes, o que a dificulta que se sinta confortável nos ambientes.

Em outro relato, Bianca Ericeira, de 32 anos, professora de Libras, recorda os momentos de sufoco em que precisou de atendimento médico. “Existem profissionais da saúde, principalmente os mais velhos, que se recusam a tirar a máscara para que possamos fazer leitura labial”. Ela explica que, quando isso acontece, torna-se impossível compreender completamente o diagnóstico, as orientações sobre medicamentos ou procedimentos clínicos. “Se o mundo fosse surdo e só tivesse um único ouvinte, então você ia sentir como um surdo sente”, ressalta Bianca.

A reflexão feita pela docente evidencia que essa exclusão não acontece apenas pela ausência da audição, mas, principalmente, pelas barreiras criadas por uma sociedade que ainda não está preparada para conviver com as diferenças linguísticas e culturais da população surda.

Bianca Ericeira, professora do Instituto Libras de Imperatriz. (foto: Bianca Ericeira)

Além da saúde, a educação é o ambiente onde a comunicação tem uma falha mais evidente. Andressa Ribeiro, de 29 anos, professora de Libras, relata que frequentemente deixa as reuniões escolares com a sensação de não ter sido verdadeiramente ouvida. Segundo ela, mesmo estando presente, muitos profissionais preferem direcionar as explicações ao outro responsável da criança, ignorando sua autonomia enquanto mãe.

“Na escola, as professoras costumam falar as coisas para o pai do meu filho, mas eu não aceito. Eu tenho direito de saber de todos os detalhes, não quero nada resumido”. Para ela, essa atitude demonstra que ainda existe despreparo por parte das instituições de ensino para lidar com as famílias surdas.

Andressa Ribeiro, docente do Instituto de Libras de Imperatriz. (foto: acervo pessoal)

Inclusão

Nos últimos anos, algumas iniciativas têm buscado ampliar a acessibilidade em Imperatriz. A Câmara Municipal já discutiu propostas para ampliar a contratação de intérpretes de Libras em repartições públicas e fortalecer a inclusão nos serviços municipais. Também foram debatidos projetos relacionados à instalação de sinalização em Libras em órgãos públicos, medida que pode facilitar a orientação e a autonomia das pessoas surdas durante o acesso aos serviços.

Além das ações voltadas à educação, a cultura também tem se tornado um espaço de valorização da comunidade surda em Imperatriz. Durante o Arraiá da Prefs, realizado pela Prefeitura de Imperatriz em 2026, uma das apresentações que mais chamou a atenção do público foi a participação de um grupo junino formado por pessoas surdas, da Escola Bilíngue para Surdos Professor Telasco Pereira Filho. A quadrilha levou ao arraial uma apresentação adaptada à Libras, demonstrando que a cultura popular pode ser vivenciada de forma acessível e inclusiva.

Junina adaptada para Libras, evidenciando inclusão e cultura para a comunidade surda. (foto: Matheus Lima)

Na área da educação, Imperatriz também mantém a Escola Municipal Bilíngue para Surdos Professor Telasco Pereira Filho, referência no ensino voltado à comunidade surda. Além disso, a Secretaria Municipal de Educação realiza, periodicamente, cursos gratuitos de Libras e campanhas educativas para incentivar a aprendizagem da língua entre professores, estudantes e a população em geral.

A iniciativa foi elogiada por ampliar a visibilidade da comunidade surda em um dos maiores eventos culturais do município. Para as entrevistadas desta reportagem, ações como essa são importantes porque mostram à sociedade que pessoas surdas participam ativamente da vida cultural da cidade e devem ocupar todos os espaços, seja na educação, na saúde, no trabalho ou no lazer.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.