Pauteiro: Kananda Araújo

Autoria: João Gabriel Mendes e Marcelo Mattos

Fotos e edição: Pedro Cabral

 

De acordo com os dados mais atuais levantados pelo IBGE, há 14 milhões de idosos no país. Dessa parcela, menos de 2% (quase 280 mil pessoas) continua trabalhando apesar de receber a aposentadoria. Na cidade de Imperatriz, do total de 14 mil aposentados, aproximadamente três mil pessoas (mais que 2% do total de idosos) continuam exercendo algum tipo de ocupação mesmo com o auxílio. São homens e mulheres com mais de 65 anos que, apesar de já terem contribuído, precisam ou querem seguir trabalhando para complementar ou sustentar sua família.

No dia a dia é comum encontrarmos exemplos de pessoas com a idade avançada que recebem a aposentadoria e, mesmo assim, exercem algum tipo de trabalho, podendo ser citadas variadas profissões como taxistas, eletricistas, vendedores autônomos, carteiros e entre outras. Nesse contexto, um dos motivos principais que os levam a continuar trabalhando seria o de complementar a renda, porém, há aqueles que trabalham para evitar a ociosidade – utilizando a profissão como um hobby.

Para o comerciante Luís Ferreira da Silva, 66 anos, o motivo que o leva a trabalhar é a necessidade de complementar a renda. De acordo com o vendedor – que trabalha há vinte anos nessa área -, o valor do auxílio é insuficiente para sustentar a família de sete pessoas e, por isso, torna-se necessário buscar uma alternativa para acrescentar à renda. “Em minha casa, dentre as oito pessoas, eu sou a única pessoa que exerce alguma profissão e por isso, sou o responsável por garantir o sustento da família”, afirmou o vendedor ambulante Luís Ferreira da Silva.

Mas nem todos que trabalham na terceira idade precisam, efetivamente, ajudar no sustento de seus familiares. É bem comum encontrar, também, idosos que preferem uma rotina de serviço para não ficar na ociosidade. É o caso do taxista Bernardo Rodrigues de Brito, 83 anos, aposentado como funcionário público, seria possível manter sua família (esposa, filha e três netas) apenas com o dinheiro da aposentadoria, sem a necessidade de uma segunda ocupação. Para ele o serviço tem como objetivo mantê-lo afastado da ociosidade. “Ficar dentro de casa é um problema, pois gera um grande desgaste”, explica Bernardo Rodrigues de Brito.

Luis sustenta família de oito pessoas

O eletricista José Rodrigues de Oliveira, 76 anos, possui um olhar particular em relação a importância do trabalho. Mesmo após um acidente de trabalho e, que o obrigou a se aposentar por invalidez, o trabalhador autônomo que realiza diversas ocupações das quais podem ser citadas a de eletricista, pedreiro, pintor e encanador –, ainda acredita que exercer alguma profissão é essencial. De acordo com ele, o trabalho funciona como uma via de mão-dupla, servindo como uma maneira de prover o sustento da família e ao mesmo tempo, uma forma de manter a mente ocupada.

Oliveira faz “bicos” para complementar renda e ocupar o tempo

De acordo com José Rodrigues precisamos nos manter ativos não importando nossa idade. “Devemos trabalhar enquanto pudermos, pois o homem quando tem condições deve trabalhar para evitar que sua mente fique vazia”. Contudo, não seria possível para o aposentado sustentar a casa somente com o auxílio fornecido pela aposentadoria. “O dinheiro que recebo da aposentadoria não é suficiente para sustentar uma família de seis pessoas”, admite.

De acordo com especialistas

Na perspectiva dos idosos, exercer algum tipo de profissão tem um significado muito maior do que apenas auxiliar na renda. Para eles, o trabalho é um meio de se manter ativo diante da sociedade – promovendo o sentimento de dignidade e colaboração social, servindo também como uma forma de evitar a solidão e a ociosidade. Essa perspectiva é partilhada pela mestra em ciências sociais e antropóloga Cynthia Sarti que no livro “A família como espelho: um estudo sobre a moral dos pobres” defende a ideia de que o trabalho serve como um ponto de fortalecimento da identidade e autoestima do trabalhador.

Para a doutora em Antropologia Social, Emilene Leite de Sousa, a aposentadoria acaba por dificultar ainda mais o processo de envelhecimento – que por si só, segundo ela, já é muito complicado no país, no qual não há uma valorização ou respeito ao idoso. “O trabalho possui uma grande valia para a sociedade em geral. Desde a infância, aprendemos a ver o trabalho como um importante fator na vida social, garantindo relações de amizade, sendo responsável por dignificar o homem e colaborar no desenvolvimento da responsabilidade e da disciplina. Nesse raciocínio, simplesmente parar de trabalhar impacta radicalmente no dia a dia dos idosos, torna-se muito difícil aceitar a transição entre a antiga vida ativa e a nova vida de aposentado”, afirma a antropóloga.

Antropóloga Emilene pondera sobre a importância do trabalho

Dados nacionais de uma pesquisa de 2016, promovida pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) mostrou que dos aposentados entre 60 e 70 anos, 42,3% seguem trabalhando. A grande maioria (46,9%) porque a aposentadoria não é suficiente para pagar as contas e despesas pessoais. Só 18,7% trabalham para se sentirem mais produtivos.