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Igor Aguiar

A nova tendência da moda não é seguir o que a passarela dita, a nova tendência é usar aquilo que já foi usado. Como? Basta uma busca rapidinha no Instagram com a hashtag #brechó pra começar a aproveitar o que há de mais vintage, único, fashion e o melhor de tudo: ajudar a evitar o desperdício de roupas que iriam parar no lixão da sua cidade. Esse é o chamado slow fashion, um movimento que veio para tentar diminuir o consumo de roupas e fazer o mundo respirar melhor. O boom dos brechós online que vem ocorrendo recentemente trouxe uma popularização gigantesca entre o público jovem. Eles juntam a iniciativa sustentável e o amor pela moda em prol de um mundo mais limpo.

De olho em quem faz a tendência

Quem está nos bastidores desse novo conceito do consumo consciente da moda deixa claro que isso é muito mais que um negócio, o brechó é uma necessidade de educação de consumo. É o que destaca Danilo Candido, o criador do BregNight (@bregnight), que há quase três anos vem se destacando no Instagram por ter peças exclusivas e principalmente por ter um toque super sustentável desde até mesmo as embalagens que as roupas são colocadas. Candido fala que a internet é um verdadeiro portal que liga as pessoas para uma boa causa: “A internet canaliza o cliente com o brechó, pois coloca as roupas que iam direto pro lixo se tornarem desejo de consumo”. Ele percebe que ainda há um certo preconceito nas pessoas em utilizarem esse tipo de espaço, mas também vê que isso vem sendo cortado aos poucos com a popularização dos brechós nas redes sociais. O sucesso é tanto que as peças do BregNight chegam a ser vendidas em horas ou mesmo em minutos. “O brechó faz com que a pessoa se sinta original. Os itens de brechó viraram presentes. Quem já imaginou presentear o namorado ou namorada com uma peça usada?, diz Candido. Ainda acrescenta que toda roupa pode ser reutilizada por mais que se tenha furos ou manchas nela, para isso se recorre a meios de customização. Ele comenta que consumo consciente e moda sustentável é ter o menos possível, que ter menos é mais, e que cuidar das roupas e preservá-las é sempre o melhor a se fazer para evitar o desperdício. Ele assume que quando começou com o brechó sua vida mudou bastante. “Eu realmente era extremamente consumista e hoje eu não compro mais nada novo, tudo é usado”. Candido já está montando um espaço físico pro BregNight, mas o perfil no Instagram vai permanecer.

Quem também abraçou essa causa e hoje é referência em consumo consciente da moda é o criador do Guga Bazar (@gugabazarslz), Gusttavo Lemos, que há um ano começou a investir nessa tendência no Instagram, incentivado por uma amiga. Lemos fala que tudo começou quando pegou as roupas que a irmã não usava mais e pôs para vender em sites de revenda. O melhor é que ele coloca na página peças de outros brechós. “As roupas que eu pego são de outros brechós que vem em fardos, de São Paulo e do Rio de Janeiro”, afirma Lemos. Ele percebeu a ascensão desses ambientes na internet e que a procura por roupas em brechós online é bem maior que nos físicos, pois ele já teve um ponto e observou essa diferença. Antes da criação do Guga Bazar, Lemos confessa que nunca tinha comprado nesse tipo de ambiente e que depois da criação do seu espaço no Instagram tudo mudou. “Eu nem tinha contato com brechó, mas depois me apaixonei. Eu vi que era outra realidade. Eu não compro mais em loja de departamento, só em brechó”. Ele ainda afirma que o segredo do sucesso é ter um público alvo. “Meu brechó é alternativo, com peças vintage e voltado pro público gay”. Além disso ele participa de encontros de brechós que fazem feiras que vão além da venda, há também todo um conceito com palestras e rodas de conversa sobre consumo consciente da moda e sustentabilidade.

Ludmilla Barroso criou há 7 meses o Achadinhos (@achadinhos.on) onde incialmente vendia suas próprias roupas. A partir daí ela começou a pesquisar sobre os conceitos de moda consciente da qual se apaixonou e hoje o perfil no Instagram faz o maior sucesso. “O amor que eu passo para as roupas, que eu transfiro para as roupas, minhas clientes percebem, isso se torna o diferencial do meu brechó. Desde lavar, arrumar um defeito até fotografar as peças sou eu que faço tudo”, comenta Ludmilla. Ela vê a internet como uma plataforma de conscientizar o consumo de roupas. “Do mesmo jeito que as redes sociais influenciam a gastar, a sempre querer o novo, a sempre querer a tendência, da mesma forma isso pode conscientizar as pessoas de que elas precisam pensar antes de querer precisar comprar alguma coisa”. Depois da criação do perfil do Achadinhos, Ela ainda destaca que mudou da água pro vinho e que agora ela é extremamente consciente do consumo.

Estudo estima que, até 2050, 150 toneladas de roupas sejam aterradas ou queimadas; brechós são alternativas para reduzir o consumo (Créditos: Google Images)

 

Quem usa e recomenda

A paixão por comprar roupas usadas começou bem cedo na vida da professora de geografia Margarida da Conceição, que com 13 anos adquiriu sua primeira peça de brechó, daí em diante nunca mais parou. E ela vai além de usar, Margarida dá de presente itens que acha legal e sempre compartilha nas redes sociais o que compra nesses ambientes para incentivar essa tendência. “O interessante desses locais é que você compra uma roupa que se identifica, e aí ela vira uma extensão de você”, diz Margarida. Ela já passou por momentos constrangedores por usar roupas de segunda mão, mas diz não se importar com isso. “Parece que há um estigma na roupa por ser de brechó, e sempre vai ter alguém que fala mal e fique desmerecendo essas roupas”, comenta. Margarida fala que tinha uma guarda-roupa lotado e que isso a fez repensar bastante para onde suas roupas iam depois que ela não usasse mais, então começou a frear o consumo exacerbado e começou a fazer um caminho regresso a isso. A geógrafa vê essas peças como um conceito de consumo consciente. “A peça de brechó é um meio de construção de uma nova configuração de moda sustentável”, conclui.

E se engana quem acha que brechó não tem roupa de qualidade. E quem compra afirma que tudo é preconceito de quem não conhece todo o trabalho por trás da garantia de uma boa peça. “As pessoas pensam que as peças de brechó não são higienizadas, são sujas, e sem generalizar, atualmente é muito difícil isso acontecer”, relata Marcus Alencar, atendente de padaria, que em 2017 começou a usar roupas de segunda mão e sente que essa atitude pode fazer com que as pessoas não sejam mais vítimas do consumismo midiático.
Pedro Igor, estudante de enfermagem, fala que que sua visão sobre o consumo da moda mudou quando fez sua primeira compra em brechó, ele comenta que pode salvar uma roupa que ia para o lixo e usar perfeitamente sem nenhum problema.

E quanto impacto, hein!

Um caminhão de roupas é desperdiçado por segundo no mundo. Assustador, não? É o que revela o relatório A New Textiles Economy, de 2017. Esse relatório aponta as negativas causas provocadas pela indústria têxtil para o planeta, que são extremamente preocupantes. Isso acontece por conta do chamado fast fashion adotado pela maioria das grandes marcas e lojas de departamento em função da rotatividade de roupas para o consumo. Consiste basicamente em um clico de se extrair-produzir-descartar. O documento ainda traz informações de que cerca de 500 milhões de dólares são desperdiçados por simplesmente a indústria da moda não reaproveitar peças e muito menos reciclá-las. Mais dados impressionantes apontam que no cenário atual da indústria, já que a produção em grande quantidade chega a ser uma ousadia, mais de 150 milhões de toneladas de roupas vão ser queimadas e aterradas até 2050 e que o peso dessas roupas entre os anos de 2015 a 2050 se acumularia para 10 vezes a população mundial de hoje.

Outro ponto que o relatório destaca é que o setor têxtil é o que menos faz reciclagem, perde até mesmo para outros ramos como o do plástico. Menos de 1% do material usado para produzir as roupas são reciclados em roupas novas. Isto inclui a reciclagem de roupas após o uso, bem como a reciclagem de restos de fábrica. Vale ressaltar ainda que a indústria têxtil além do desperdício, também tem lados negativos na sua produção. Segundo o estudo, a produção têxtil utiliza 93 bilhões de metros cúbicos de água por ano, isso contribui para problemas em algumas regiões para a escassez de água.