De vigilante a vendedor ambulante: João Barbosa enfrenta dupla jornada para sustentar sua família

Por Lívia Santos

Vigilante enfrenta jornada dupla para complementar a renda e garantir o sustento da sua família em Imperatriz.

O Calçadão da Getúlio Vargas, onde João Barbosa atua como ambulante, reúne trabalhadores informais em busca de renda extra, mesmo sob risco de fiscalização.(Foto:Lívia Santos)

João Barbosa da Silva, 50 anos, vive uma rotina intensa para sustentar a família. Ele trabalha como vigilante em escala 12×36 um dia sim, outro não e nos dias de folga vai cedo ao Calçadão da Avenida Getúlio Vargas, no Centro de Imperatriz (MA), para vender frutas e garantir uma renda extra. A atividade se tornou uma alternativa para obter uma renda extra diante das despesas do dia a dia.

Essa busca por uma renda extra é uma realidade para muitos brasileiros. Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgado em abril de 2024, o número de brasileiros com dois ou mais empregos cresceu 15% na última década, passando de 2,7 milhões em 2013 para 3,2 milhões em 2023. Assim como ele, milhões de trabalhadores buscam uma segunda fonte de renda para complementar o orçamento mensal.

O Calçadão da Avenida Getúlio Vargas, no Centro de Imperatriz, é um ponto tradicional de comércio na cidade. Além das lojas fixas que ocupam o espaço principal, uma parte da rua é tomada por vendedores ambulantes que oferecem uma variedade de produtos de frutas frescas a lanches, açaí, salada de frutas e muito mais. Essa convivência entre comércio formal e informal dá vida ao local, mas também gera tensões, principalmente pela falta de regulamentação clara e pela fiscalização frequente que tenta organizar o espaço.

Nos dias de folga do serviço de vigilante, João começa cedo: às 5h da manhã, sai de casa, no bairro Cafeteira, em direção ao mercadinho a maior feira da região Tocantina onde compra as frutas que irá revender. Em seguida, paga um carroceiro para transportar os produtos até o Calçadão, no Centro da cidade. Lá, ele organiza a mercadoria no carrinho e dá início às vendas.

O carrinho e as frutas pertencem a Antônio José, vendedor veterano que atua há mais de 30 anos no local. João trabalha por comissão e conta que a parceria nasceu de uma amizade construída ao acaso, mas que hoje garante o funcionamento diário do carrinho de frutas. Após o expediente, ele deixa o carrinho guardado em um espaço alugado no Centro, onde permanece guardado durante a noite.

A vendas funciona em sistema de revezamento com Antônio, o que permite manter as vendas ativas todos os dias. Mas, apesar da dedicação, o trabalho ambulante na área é cercado de incertezas. Segundo João, a fiscalização de vez em quando para tirar os vendedores do local, pois é proibido , mas é o suficiente para manter os vendedores em alerta. Como a venda dentro do Calçadão é proibida, a qualquer momento eles podem ser retirados do local. Além dele, outros ambulantes também enfrentam essa realidade, vendendo açaí, salada de frutas, batata frita e lanches em geral.

Mesmo sob a pressão da fiscalização, João permanece no Calçadão não por opção, mas por necessidade. “Todo mundo tem família, conta para pagar. Trabalhar é mais bonito do que fazer coisa errada, né?”, afirma.

A venda de frutas representa, para ele, a chance de garantir o sustento com dignidade. Em meio às incertezas da informalidade, é o esforço diário que mantém não só a própria família, mas também a esperança de uma vida honesta, mesmo diante dos desafios.