Jornalista conta, em livro-reportagem, a história de uma das chacinas ocorridas na ditadura militar

Escritor desenvolveu um profundo trabalho de pesquisa para o seu livro-reportagem

Texto: Andréia Liarte

Fotos: Divulgação

Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o jornalista pernambucano Luiz Felipe Campos, 31 anos, conta em seu  livro-reportagem O massacre da Granja São Bento (Editora Cepe, 2017), os detalhes de uma chacina promovida pelo governo militar brasileiro (1964-1985).  José Anselmo dos Santos, vulgo cabo Anselmo, liderou uma emboscada que assassinou seis militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), em janeiro de 1973, em uma propriedade rural em Pernambuco, nos tempos sombrios da ditadura militar. “Eu queria contar a biografia inteira do cara, desde o cenário antes do caso, o que foi propício pro caso acontecer, o contexto político, como que era o embate de guerrilhas no começo dos anos 1970. Porque, num primeiro momento, a guerrilha urbana pegou a ditadura de surpresa, eles não estavam preparados”, explica o autor.

Em seu livro, Luiz Felipe resgata um pouco da história de seus personagens. “Então eu vou contar a história de Rafael Bytes até Soledad [Barret], para depois chegar na vida de Soledad. E, de certa maneira, conto a história de uns cem anos e tento fazer isso com todos os personagens: quem eles eram, como se sentiam, como se relacionavam, qual a causa deles. Creio que tenha avançado muito nas respostas, mas a ideia do livro foi essa. A biografia desde os antepassados das vítimas até as pessoas que vieram depois as vítimas”, detalha o escritor.

O jornalista relembra que tudo começou quando ele estava fazendo seu projeto de conclusão de curso. “Eu consegui conversar com vários parentes que toparam conversar comigo, amigos das vítimas, as filhas de algumas das vítimas, viúvas. E fui tentar conversar com essas pessoas para saber como foram os últimas dias da vida das vítimas, que elas conheceram. Quando eu apresentei meu TCC já estava muito claro para mim mesmo que a história era muito maior e a própria orientadora falou que, de repente, rendia o livro. E eu disse: ‘Vou tentar fazer isso.”’

Personagens

O escritor ressalta que as declarações dos personagens entrevistados, em grande número no caso de um livro-reportagem, são fundamentais no processo de desenvolvimento de uma obra desse tipo. “Você não faz sem as pessoas principais, que são as suas fontes. Essas são as pessoas que fazem o texto de não ficção possível. A matéria-prima são as pessoas. De certa maneira, é um trabalho de muita pesquisa. E é um trabalho que envolve conversar com muita gente o tempo inteiro, para mais de 50 pessoas, pelo menos, ou cem, talvez, no meu caso”.

O jornalista relembra que na época em que o livro estava sendo lançado, o país estava vivendo um dos momentos mais conturbados da política brasileira recente. “O livro saiu em 2017 e era um momento pós governo do PT, em que rolou um certo flerte com o militarismo. O governo de Michel Temer teve isso, já teve movimentos de rua pedindo intervenção militar. Então teve momentos que as pessoas que são mais de esquerda estavam muito mais interessadas nesse tipo de memória da ditadura”, contextualiza Luiz Felipe.

De acordo com o autor, o formato livro tem uma grande importância na história. “É em formato de texto que o conhecimento da humanidade, de certa maneira, está armazenado, porque em boa parte da história não houve televisão. As pessoas escreviam, não havia cinema, não havia rádio. Todas essas coisas são criação do século XX. Até então, os grandes pensadores da humanidade, se queriam de alguma maneira deixar algo registrado para o futuro, precisavam escrever”.

A entrevista original com o jornalista foi feita no contexto da pesquisa Jornalistas escritores de livros-reportagem no Nordeste, desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa Jornalismo de Fôlego, do curso de Jornalismo da UFMA de Imperatriz, pelo estudante e pesquisador João Marcos dos Santos Silva.