Texto e foto: Kellen Ceretta

É fã de música eletrônica. Foi a um dos maiores festivais do mundo, o Tomorrowland, um festival de música eletrônica realizado na cidade de Boom, na Bélgica e que teve sua primeira edição no Brasil em 2015. Tem referências musicais como Avicii, Dimitri Vegas e Alok. É DJ. É padre. Isso mesmo, PADRE!

A paixão, desde o começo da juventude, pela música eletrônica não atrapalhou a sua vocação religiosa. Muito pelo contrário, hoje ele a usa como meio de evangelização atuando como DJ em eventos cristãos, como a festa ““Cristoteca””, uma balada cristã, com músicas eletrônicas com conteúdo cristão e que tem como objetivo levar os jovens a terem uma experiência com Deus. Foi criada no ano de 2003, em São Paulo, e hoje acontece em vários outros estados do Brasil. Em uma de suas edições, em São Paulo, mais de 3 mil jovens estiveram presentes.

Natural de Goiânia-GO, o padre Rômulo Leal, de 39 anos, veio morar no Maranhão, quatro anos atrás, na pequena cidade de Santa Luzia. E, há cinco meses residindo em Imperatriz, é pároco da Paróquia Santa Cruz. Nessa entrevista ele fala sobre sua vocação, sua atuação no meio jovem, a aceitação do “Padre DJ” entre os fiéis mais velhos e a experiência de ir ao Tomorrowland. 

"E se a pessoa fala “ah, caí em tentação porque a carne é fraca”, opa, tem limite! Eu tenho o meu limite, eu sei onde está o meu limite..."

“E se a pessoa fala “ah, caí em tentação porque a carne é fraca”, opa, tem limite! Eu tenho o meu limite, eu sei onde está o meu limite…”

 

IN: O senhor ficou conhecido em Imperatriz depois de promover uma edição da festa “”Cristoteca””, que é muito famosa entre os jovens católicos brasileiros. Como surgiu a ideia de trazer esse tipo de festa para a nossa cidade?

RL: Eu entrei no seminário com 24 anos. Tem outros que entram mais novos, eu ainda considerei como uma vocação tardia já, porque entrei com 24 anos. Por isso que trabalhei com música, porque antes de entrar para o seminário eu vivia na “noite”. Saí da noite, fiz minha experiência com Deus, comecei a trabalhar só com a igreja e deixei a música de lado. Depois que fiz toda a parte formativa do seminário, fui para Santa Luzia, como padre. Lá eu ia perguntando para os jovens: “O quê que vocês fazem aqui? O que vocês têm como diversão?” E o divertimento que eles tinha lá, além das festas, era o de ir pra praça beber cachaça ou então, aqueles que eram da igreja, iam pra igreja e depois voltavam pra casa. E isso me preocupou um pouco, porque não tem uma atividade assim. Tinha uma danceteria lá, mas que fechou. Aí chegou a época que os padres dehonianos promoveram o EJD (Encontro da Juventude Dehoniana), que são jovens que vivem nosso carisma de padre dehoniano. E eu fiz uma proposta pros jovens: “vamos montar uma festa do EJD? A gente monta atividades durante o dia e à noite a gente faz uma “Cristoteca”!” E assim nós fizemos. Essa primeira “Cristoteca” deu filas e filas de gente querendo entrar, porque era uma novidade né. Olha, por incrível que pareça, eu esperava somente 50 jovens e deu 300 jovens! Então esse foi um grande “chamar de atenção” ali em Santa Luzia. A partir disso eu comecei a fazer mais “Cristoteca”s, fui trabalhando mais.

IN: E quanto ao equipamento de DJ, o senhor tem tudo?

RL: A partir da “”Cristoteca”” eu comecei a comprar todo o equipamento, porque eu não tinha mais. Fui comprando tudo para a paróquia. Eu não tenho uma mesa completa, tenho só o que nós chamamos de controlador, que funciona como um controle de videogame. Tem tudo no computador pelo virtual DJ e eu controlo da mesa. De Santa Luzia pra cá, não fiz mais música mesmo, montando, mixando… Eu só toco os meus sets, que eu já tenho, e de outros amigos de São Paulo, que também fazem “Cristoteca”s, e mandam aqui pra mim.

Quando cheguei em Imperatriz o comentário que tinha aqui na paróquia era “meu Deus, ele que é o padre?” (risos).

Quando cheguei em Imperatriz o comentário que tinha aqui na paróquia era “meu Deus, ele que é o padre?” (risos).

IN: Além de Santa Luzia, o senhor também fez uma edição da “”Cristoteca”” aqui, em Imperatriz, no dia 27 de abril, com um público de, mais ou menos, 360 pessoas. Quais os resultados alcançados por esses eventos promovidos para a juventude?

RL: Sim, foi no domingo da ressurreição, na Páscoa. E vai ter 2ª edição agora em junho, no Louvor Resgate. Da “Cristoteca” em Santa Luzia, graças a Deus, eu consegui trazer muitos jovens pra dentro da igreja, porque eles observaram que podem se divertir, podem fazer festa naquilo que é próprio nosso, evangelizando. Então isso chamava atenção, não só pela festa em si, mas porque tinha momento de adoração, tinha momento de pregação da palavra… E os jovens gostavam! O resultado que tive em Santa Luzia era que eu não tinha jovens nenhum dentro da igreja comprometidos, com a “Cristoteca” eu consegui jovens comprometidos, pela experiência que eles fizeram. E aí nasceu o grupo 24horas com Cristo, onde eles montam retiros com apenas 24 horas. Aqui em Imperatriz, por eu estar apenas há 5 meses, ainda não vi um resultado, a não ser esse de ser conhecido (risos). E isso chamou atenção porque, primeiro, sou um padre. Uma das coisas que me admirou muito aqui, depois de tocar em Santa Luzia, Santa Inês, Bela Vista, no Tocantins, e em São Luís, é que em Imperatriz foi diferenciado… Porque o pessoal não para! Todas as músicas que eu tocava, o pessoal estava dançando! Até as vovozinhas estavam dançando na pista (risos).

IN: Como tem sido a resposta dos fiéis mais velhos diante do estilo de vida que o senhor prega. O senhor tem ideia do que eles acham do “padre DJ”?

RL: Para eles soou como novidade. Quando cheguei em Imperatriz o comentário que tinha aqui na paróquia era “meu Deus, ele que é o padre?” (risos). E se vocês virem outros que trabalham comigo, como o fráter Júnior e o Eduardo… Nós três somos muito jovens. O fráter Júnior tem 20 e poucos anos, não é padre ainda, mas está estudando para ser. O Eduardo tem uns 26, 27 anos e vai ser ordenado padre agora em agosto. Então somos todos jovens. Mas o pessoal tem um respeito muito grande por mim e gostam de mim aqui. E eu tenho orgulho de dizer isso! Não por mim, mas porque o pessoal é muito afetuoso, muito carinhoso e me acolheram muito bem. Então a receptividade foi ótima! Teve também uns fiéis que falaram assim : “Padre, na hora que vi o senhor, encima do palco tocando, eu pensei ‘não é o padre Rômulo!’(risos)”.

IN: Hoje em dia, temos visto uma aproximação do líder religioso com relação aos fiéis, como, por exemplo, o padre Fábio de Melo, que se utiliza de ferramentas como o Twitter e o Snapchat para se aproximar dos jovens. Como o senhor observa essa nova postura dos líderes religiosos?

RL: Na verdade é porque surgiu uma nova psicologia religiosa, vamos dizer assim. Primeiro, a psicologia religiosa, que meu formador padre Guido falava para nós, é que éramos formados para sermos rígidos, fechados, não havia aproximação. Tínhamos medo da aproximação. Agora não, nós estamos vivendo uma outra psicologia. Um autoconhecimento, um domínio maior de si, uma tranquilidade maior… E se viu que esse lado afetivo, do lidar com o outro, o lado carinhoso, o lado próximo nos ajuda na evangelização. Então foi mudando o jeito de pensar e assim uma nova psicologia religiosa nasceu da proximidade e da solidariedade. Isso trouxe os novos padres mais próximos do povo, vivendo aquilo que é próximo do povo. Eu me recordo de um dia que fui no show da Ivete(Sangalo), em Taubaté, e na hora que me viram lá no show falaram “padre, o senhor aqui!!!” E eu disse “sim, to aqui” e até brinquei pegando no meu braço (risos). Eu estava lá, é claro, com todo cuidado que um padre deve ter, pelo zelo com a própria vocação. Se ele (o padre) tem firmeza da sua vocação, sabe o que escolheu, vai ser a mesma coisa que casamento. E é isso o que falo para os casais… Pra mim não tem diferença entre a vida de padre e a vida de casado. Assim como o rapaz e a moça, quando resolveram casar, escolheram, no meio de todos, um só e jurou fidelidade, o padre, no meio de todo o encantamento da vida dele, largou tudo para viver dessa forma. E eu sabia quais eram os compromissos que eu deveria viver nesse estilo de vida. Não fui obrigado. Eu escolhi viver assim e, graças a Deus, digo para você, sou muito feliz. E se fosse pra voltar lá no início e largar namorada, pais, trabalho, a noite pra fazer tudo outra vez, eu faria!

IN: Padre, o senhor foi para o Tomorrowland, que é maior festival de música eletrônica do mundo. Como foi a experiência de participar de um evento assim?

"Cristoteca" foi alternativa para atrair jovens para a Igreja, garante o padre

“Cristoteca” foi alternativa para atrair jovens para a Igreja, garante o padre

RL: E é porque eu tentei guardar isso a sete chaves… To brincando! (risos) Já imaginou se as pessoas do Tomorrowland, que estavam perto de mim, soubessem quem eu era, um padre? Com certeza iam ficar muito assustados (risos). Bom, o Tomorrowland era o grande sonho da minha vida! Desde quando ele ganhou uma repercussão maior em Boom, na Bélgica, eu sempre acompanhei e até mesmo os trabalhos dos DJs que lá estavam, como o Dimitri Vegas e outros tantos… Quando surgiu o auge do tomorrow eu ainda não era padre, eu era fráter. E, ainda antes de ser padre, minha irmã chegou pra mim e perguntou “Rômulo, qual presente você quer de ordenação?”. Aí eu virei pra ela e disse “Se for possível, eu ainda quero ir pro Tomorrowland!”. Só que meu pensamento ainda estava na Bélgica, mas pra lá não tinha condições de eu ir. Depois que me tornei padre, começaram os rumores de que o evento iria vir para o Brasil e eu pensei: “agora eu vou”. Liguei para minha irmã e pedi meu presente. Na primeira edição que teve aqui, não consegui comprar o ingresso, pra minha frustração. Na segunda edição eu consegui, no ano passado! Eu ficava ansioso esperando a caixinha chegar com a chave e tudo mais… E na hora que peguei no boxe, com o ingresso, a pulseira eu pensei “Não acredito, agora eu vou de verdade!”. E fui. Resumindo, foi uma das melhores experiências que eu já tive! O Tomorrowland, em termos de estrutura e de organização, é fantástico. Mas vai depender muito do teu foco! Tem gente que vai pra usar drogas, outros vão pra namorar, mas o meu foco era a música eletrônica, ver os melhores DJs que foram selecionados para vir para o Brasil. Alguns paroquianos até perguntaram “padre, o senhor indicaria pra eu ir?”, eu falei “Indico!”. Vale a pena fazer essa experiência de solidariedade num meio que não é religioso, um pessoal onde um cuida do outro… é bonito ver isso! (…).

IN: Depois que o senhor chegou, apareceu alguém falando algo como “ah, mas esse padre serve a dois senhores, está na igreja e ao mesmo tempo no mundo…”?

RL: Ah, eu não ouvi isso. Não fui repreendido para tanto. Mas, assim, eu não tenho esse pensamento. Não é servir a dois senhores. Umas das coisas que nós perdemos, e que aprendi desde quando tocava na noite, é que, hoje em dia, fora da igreja existe uma criatividade muito grande e que é o atrativo. (…) E eu fui pro Tomorrow pra ver um pouquinho disso: o quê que eles têm como equipamento, quem é o pessoal que está lá, quais são os sonhos que eles plantam pra fazer as pessoas irem para lá (…). Eu não quero trazer esse mundo pra dentro da igreja, de jeito nenhum.

IN: Mas o senhor não acha que está se expondo demais às tentações?

RL: Agora, me defina o que são “tentações”. É o risco de eu ficar com alguma garota ou largar o sacerdócio…?

IN: Bom, o senhor sofre assédios?

RL: Não muito pesado, mas uma cantada aqui ou outra eu sofro.

IN: Então o senhor não acha que isso seria um tipo de tentação?

RL: Eu acho que até já respondi essa tua pergunta antes. Quando a gente tem uma identidade cristã, não é qualquer coisa que vai te levar assim… E se a pessoa fala “ah, caí em tentação porque a carne é fraca”, opa, tem limite! Eu tenho o meu limite, eu sei onde está o meu limite… Então daqui pra cá não ultrapasse. E eu já não permito que chegue nesse limite, por causa disso. Perguntar, conversar e brincar não é problema nenhum, agora passou disso eu faço uma cara de que não estou entendo e puxo outro assunto, e se insistir muito eu já falo “vamos colocar os pingos nos ‘is’: eu sou padre e daqui eu não passo!” e já encerro logo o assunto. Como já fiz muitas vezes, desde o meu tempo de fráter. Sempre trabalhei no meio do povo, ajudando muito nos trabalhos que se tinham na igreja, mas eu sempre dou limite pra pessoa. É um cuidado para comigo mesmo e para com ela. E ter esse senso é um autoconhecimento.