Texto Lucas Calixto

Fotos arquivo pessoal do artista

Natural de São Luís do Maranhão, Rafael Paz, aos 25 anos de idade, vive a Drag Queen Frimes, criada em 2016 quando ainda fazia teatro na Universidade Federal do Maranhão. Após alguns problemas pessoais que viveu e a dificuldade por ter deixando o curso de teatro, nasce o personagem que mistura música, dança, teatro einfluencias do reality show “RuPaul’sDragRace”. Em 2012 começou a produzir suas primeiras batidas, que misturava alguns estilos, onde também nasceu o primeiro projeto musical o “Pornografairy” (A fada do pornô).

Depois do seu primeiro projeto, Rafael decidiu liberar EP “Kawaill Dildo ”, um material experimental que já havia produzido ao longo de cinco anos. No primeiro semestre de 2018 Frimes publicou uma de suas produções audiovisuais no seu canal do YouTube, intitulada “Fadinha”. O videoclipe conta com mais de 434 mil visualizações, uma mistura de vários estilos musicais como Pcmusic e Funk e algumas referências cinematográficas de Tim Burton. Na segunda versão do videoclipe, Rafael trouxe uma abertura politicamente diferente, pois a primeira versão teve alguns problemas com as regras de conteúdo e políticas do site onde o vídeo foi hospedado e foi retirado do ar.

As suas referências musicais vão de Charli XCX a MC Carol, no seu processo de produção, Grimes é sua maior influência, também sendoreferência para o seu nome de drag. Rafael cria seus próprios looks e compõe todo seu processo de produção, exatamente como Grimes faz em sua careira. Toda sua influência vem de uma gama de artistas alternativo como Björk, Kerli, Briney Spears, Lily Allen, SOPHIE, Silva, Jaloo.

No dia 26 de outubro de 2018 Frimes pela primeira vez veio para se apresentar como DJ na festa Trópico, na cidade de Imperatriz. Neste momento aproveitamos para conversar e conhecer sobre as dificuldades como drag, preconceitos vividoscomo artista que produz suas próprias artes audiovisuais. Ela também falou sobre questões políticas, seu mundo e processos de criação.

 

Imperatriz Notícias: O que levou a Frimes entrar no meio musical e lançar seu primeiro EP “Kawaii Dildo”?

Rafael Paz: Hey, eu comecei a fazer música antes mesmo de fazer drag, eu já produzo música hácinco anos e já tive um projeto de música anteriormente a Frimes chamado “Pornografairy”. Era um projeto mais alternativo com uma sonoridade mais obscura que chama Witchhouse. E esse projeto me abriu muitas portas como produtor, já produzi para outros artistas e já fiz alguns featuring. O ep Kawaii Dildo na verdade foram vários experimentos no qual fui fazendo ao longo dos anos como produtor. Eu criei o codinome Frimes não para ser uma Drag Queen porque minha drag se chamava Alice, na verdade, então eu criei esse codinome para liberar essas demos que eu tinha guardadas e assim que surgiu o Kawaii Dildo.

IN: Seu nome de drag é uma referência a cantora canadense Claire Elise Boucher, popularmente conhecida como Grimes. Quem é a Grimes para você?

RP: A Grimes tem sido uma inspiração desde o começo, desde que comecei a produzir. Conheci o trabalho dela em 2012, fiquei apaixonado pela sonoridade dela e como ela propõe a arte e como está envolvida cem porcento em tudo o que faz. Ela é responsável por toda a produção do álbum dela, pela capa do álbum e agora pela direção dos videoclipes e eu acho isso sensacional, sabe. Ela é uma artista que domina mesmo o material que está fazendo. Por ser uma mulher, sabe, é pouco valorizada dentro do cenário da música, que é um lugar muito machista e sexista, infelizmente, ela é uma grande inspiração, um grande símbolo de resistência. Ela é fenomenal e eu tenho me inspirado muito, muito, muito nela. Eu não poderia ter escolhido um outro nome para homenagear isso, porque também produzo tudo sozinha, as minhas produções eu mesmo que faço, eu mesmo que construo, eu mesmo que edito. Então acabo me virando em “n” formas sabe… Mas eu que quis fazer esse trocadilho porque o F vem antes do G (risos) e é isso eu coloquei Frimes em homenagem a Claire Elise Boucher.

IN: Sobre o vídeo de “Fadinha”. Na introdução do seu videoclipe, você aborda questões políticas e exclama “A revolução está apenas começando”. Fale sobre essa revolução Frimes.

RP: A introdução do vídeo de Fadinha não existia, ela foi feita depois que o vídeo foi censurado no YouTube. Eles alegaram que o vídeo não estava dentro das diretrizes deles e acabaram retirando do ar. A, aí essa introdução veio a existir. A gente fez toda uma conexão coma repressão de 64, época da ditadura militar. E caramba, a gente vê agora isso se repetindo com esse candidato à presidência é muito frustrante. Eu acredito que infelizmente vamos passar por períodos ainda mais obscuros e a gente precisa se unir e lutar juntos, porque não vai ser fácil.A gente precisa estar atenta para essa revolução e se manter forte psicologicamente, manter o corpo bem, continuar produzindo arte que é para mudar o mundo, tentar mudar a cabeça das pessoas. Então é isso a revolução.

IN: Ainda na introdução do seu vídeo, você dá as boas-vindas ao seu mundo. Conte para nós sobre o mundo da Frimes.

RP: O mundo da Frimes é basicamente um mundo paralelo, onde as coisas são extremamente ampliadas, malucas e possíveis, onde os sonhos se tornam realidade, onde você pode se expressar artisticamente. Onde você pode ser quem você quiser ser, sem se preocupar com olhares tortos, sem repressão, sem toda essa merda jogada em cima das nossas cabeças que nos fazficar doentes. Esse é o mundo no qual eu acredito ser o mundo da Frimes. Um mundo dúbio onde tudo pode, exceto as coisas que a gente classifica como ruim,porque aí já não pode (risos).

“A Frimes ainda não consegue me sustentar. Todas as festas na qual eu toco, todos os shows que faço, é muito pouco o cachê”

IN: Em uma entrevista feita pelo PortalPopline você contou sobre as dificuldades sobre a arte drag e falou que os trabalhos com a Frimes ainda não dão para sustentá-la. De onde vem os recursos para deixar a Frimes viva?

RP: Bom, infelizmente continua sendo a minha realidade. A Frimes ainda não consegue me sustentar. Todas as festas na qual eu toco, todos os shows que faço, é muito pouco o cachê. E a gente, infelizmente, não valoriza esse tipo de arte. Porque inclui não só um tipo de arte, são muitas coisas, é bem fragmentado, sabe? Maquiagem, peruca, é música, dança. Então, é muito investimento para pouco retorno, de fato. E, cara, a Frimes vai existindo, assim, com o que eu tenho, de verdade. Às vezes eu não tenho nada para fazer uma montação e eu pego uns retalhos de pano que tinha por ali e vou criando. Assim eu vou me virando, e isso também dentro da produção da música. Porque eu não tenho um estúdio, não tenho home estúdio, não tenho computador bom. Seria um computador ideal para uma produção, com fones de ouvido. Vira e mexe eu me reclamo disso nas redes, mas, é isso, a gente vai fazendo dentro das limitações.

IN: As dificuldades encontradas quando você começou na arte drag ainda são as mesmas encontradas nos dias de hoje?

RP: Bom, acho que a maior dificuldade, até então, era encontrar coisas, e ainda é, porque apesar dos pesares, São Luís é muito pequena. A gente não encontra as coisas como facilidade por aqui, sabe? Tipo, um sapato maior. Porque, é um pé de homem, né (risos) a gente não calça 33 igual as garotas. Encontrar uma peruquinha melhor, e fora essa parte mais fútil entre aspas, né, a gente ainda tem essa dificuldade, né, de ser visto como uma arte marginalizada, as pessoas ainda olham um pouco torto, ainda tem aquele medo, né. E agora ainda maior, com todo esse caos rolando e… caramba, dá até um pesar assim no coração, sabe? Mas eu acredito que as coisas podem melhorar sim se a gente conscientizar as pessoas e abrir a mente. No mais, eu ainda acho que é difícil no quesito grana também, é muito complicado. Tem sido uma resistência muito grande continuar fazendo o que eu estou fazendo e sem recurso nenhum, sem retorno financeiro nenhum. Mas isso a gente vai se virando, né, importante é estar fazendo e eu acho que eu não pararia de fazer mesmo sem não ter esse retorno.

IN: Sendo uma drag da capital do Maranhão. Como você se sente em se apresentar no interior do estado pela primeira vez?

RP: Para mim é uma honra estar conhecendo esses lugares no qual achei que minha arte nunca fosse chegar. É muito doido um dia acordar e ver o que está fazendo na cozinha da tua casa, chegando a outras pessoas. E eu agradeço muito a internet por conta disso. Por me proporcionar esse deslocamento mesmo sem sair do lugar, e para que, enfim, eu possa visitar fisicamente esse lugar. E para mim está sendo surreal e eu estou amando essa experiência, essa troca. Porque é uma troca, né. Eu vou aí conhecer as pessoas e ver que estão ouvindo e gostando, e conversar, abraçar, porque eu gosto muito de contato. Para mim é uma das partes mais divertidas da profissão. Então, eu fico muito grato por causa disso.

IN: Como você se sente sendo uma DJ em festas?

RP: Ser DJ é muita responsabilidade né, porque a gente é responsávelpor animar as pessoas na festa, para deixar uma marca para eles lembrar sempre dessa noite, então eu me sinto muito responsável mesmo e eu fico muito feliz porque é uma troca de energia. Então a gente fica essa coisa mútua, eu fico sempre muito encantada, muito feliz e grata com isso.