Quando estava quase na hora de fazer as perguntas, veio um nervoso “E se ela for indiferente?”, “E se ela não me der atenção?”, “E se ela não quiser responder as questões?”. Essas foram algumas das inquietações que passaram pela minha cabeça no caminho até o local combinado: A loja, alvo de muitos comentários pela cidade.

Ao chegar, às 10h30, uma das vendedoras me disse para esperar, pois, a proprietária (quem eu fui entrevistar) tinha saído para tomar café da manhã – só tinha conseguido ir às 10h oras!- mas já estava quase voltando. Foi o que eu fiz: sentei em um dos puffs que estavam por ali e fiquei observando a movimentação. Não demorou nem cinco minutos, ela estava de volta e logo pediu para uma vendedora levar outro puff pra que eu sentasse perto dela, atrás do balcão de recepção, para então, podermos começar. Mas isso não foi possível logo de início.

Muito expansiva, recebia calorosamente cada mulher que entrava na loja e essas pediam dicas e opiniões sobre o que estavam prestes a comprar. As vendedoras perguntavam onde cada coisa deveria ficar e ela, muito apurada, respondia todas elas. De certa forma, minhas preocupações dispersaram, pois, pude ver o quanto ela é ocupada e mesmo assim arranjou um tempo para me receber e isso não é característica de alguém indiferente. No decorrer do encontro, ficou muito claro que, pelo contrário, eu estava diante de uma mulher firme, simpática, positiva e dona da própria vida.

Mãe, solteira, empresária e modelo plus size são palavras que caracterizam Paula Amaral, 32 anos, dona da loja de roupas e artigos femininos Paula Bijoux, mas se pudesse complementar essa lista, adicionaria a palavra autêntica ao seu currículo.

Na entrevista a seguir, Paula fala um pouco sobre sua vida como mulher de negócios, à frente e por trás dos holofotes, além do preconceito enfrentado pelo seu biotipo e pela causa que defende.

 

Texto e fotos de Mariana de Paula

 

Como você se sente com relação ao seu corpo?

Eu me sinto ótima. Eu adquiri peso antes da gestação, continuou durante ela e depois não consegui baixar, aí continuei gordinha. Aceito bem.

Você é uma das poucas lojistas em Imperatriz que vende roupas de todos os tamanhos. Qual o principal motivo que levou você a investir, também, na moda plus size?

Devido à carência. Devido à exclusão. As pessoas não querem vender roupas maiores. O público brasileiro está todo maior, a população engordou e esse é um público fiel. Eu vi a necessidade de criar uma loja que pudesse mostrar para as pessoas que moda é pra todo mundo. A pessoa gordinha entra em todo lugar e não tem roupas pra ela. Eu sou gordinha e sei a dificuldade que toda gordinha passa. Então, por eu saber da necessidade, apostei nisso.

". Eu vi a necessidade de criar uma loja que pudesse mostrar para as pessoas que moda é pra todo mundo"

“. Eu vi a necessidade de criar uma loja que pudesse mostrar para as pessoas que moda é pra todo mundo”

Existe preconceito por parte das pessoas sobre a forma como uma mulher que usa tamanho GG deve se vestir?

Ah, com certeza minha filha! Levantei uma causa de pessoas que são muito discriminadas. Outra coisa, depois que eu saí no comercial, apareceu muitas clientes com tamanho especial, muitas delas sofrem depressão, não saem de casa, não querem sair pra comprar porque em quase todos os lugares que vão não são aceitas. Porque a maioria das pessoas acha que, por uma mulher ser gordinha, não pode usar uma roupa mais justa, mais curta ou decotada; Então levantei uma bandeira de pessoas que estavam excluídas. Eu vou continuar usando tamanho 44 e mostrando que todas podem ficar bem com o que querem usar.

Você se considera modelo feminino de autonomia?

Com certeza! No início minha mãe fabricava as roupas que a gente vendia. Só o jeans vinha de fora. Depois minha mãe se mudou pra outro Estado e eu fiquei tocando os negócios. Hoje, está ficando maior, graças ao meu trabalho e das pessoas que trabalham comigo. Ela não fabrica mais, vem tudo de fora, mas, entre uma viagem e outra, já recebi várias propostas para trabalhar em São Paulo com meus fabricantes que mexem com a moda plus size… E eu já aceitei!

Na descrição da página do Facebook da loja diz, entre outras coisas, que se a cliente achar necessário pode ligar para a loja ou mandar mensagem no whatsapp para marcar uma hora para ser produzida pela proprietária, Paula Amaral. Você tem algum curso na área da moda?

Não, eu fiquei a concluir Administração. A consultoria de moda que eu ofereço é uma coisa que eu adquiri com a prática mesmo. É porque minha mãe teve lojas aqui por muitos anos, então eu fui criada dentro de lojas, entendo um pouco sobre esse universo.

O jeito que você se veste influencia na escolha das peças plus size que são comercializadas?

Com certeza! A minha loja é toda a minha personalidade embutida: é tudo que eu acho bonito, o que eu acho que vai ficar legal na minha cliente, o que eu mesma usaria. Se eu gosto, vou lá e compro pra vender.

E suas clientes,  já chegam sabendo o que querem?

Não! Todas chegam querendo assessoria da Paula Bijoux, algumas ainda são inseguras com relação ao que usar.

Além de dona, você é uma das garotas propagandas da sua loja. Como surgiu a ideia?

Minha irmã, isso aí foi por conta que nenhuma das minhas clientes gordinhas queria sair no vídeo, aí o jeito foi sair eu mesmo [risos]. Não, aí eu disse “vai ter que ser eu!”. E agora, como o primeiro foi muito estourado, foi muito sucesso, vai ser sempre eu.

Reconhecem você?

É assim: o pessoal reconhece a modelo Paula, mas não sabe que eu sou a proprietária da loja Paula Bijoux. Em todo lugar que eu vou começa um “tititi”, aí um olha pra outro e mais outro e eu acabo acenando, falando “oi” pra pessoas que eu nem conheço. Até fico sem graça às vezes, mas aquela pessoa que fica olhando muito é porque já tá me reconhecendo do comercial, então tenho que cumprimentar mesmo.

O que é mais fácil: administrar o negócio ou modelar?

Mulher, com certeza modelar é mais fácil que administrar, mas ambas são muito difíceis… Porque, minha filha, você sobe no salto, desce do salto, sobe no salto… Não é brincadeira não, mas, no fim o mais difícil é administrar mesmo.

E o que você prefere?

Prefiro administrar [risos]. Tem muita gente que me ver no VT, mas, não sabe quem eu sou como empresária porque eu não faço questão de aparecer. Só que agora eu tenho que aparecer por causa das roupas.