Costureiras de Imperatriz enfrentam situações de desvalorização

Modistas relatam desmerecimento da mão de obra e exigência por preços baixos

Kawana Oliveira

Maria Viana

De acordo com os resultados da pesquisa Costureiras Autônomas de Reparo de Roupas da Aliança Empreendedora (2024), a costura informal desempenha um papel fundamental no sustento de muitas famílias no Brasil. A maioria dessas profissionais atua sem formalização e cerca de 62% trabalham de maneira informal, sem CNPJ ou registro oficial. Essa atividade tem representado, no entanto, uma importante fonte de renda para famílias, em especial aquelas geridas por mulheres.

Do primeiro molde até os últimos ajustes, Joselma Gomes do Nascimento, 56 anos, costurou sua trajetória durante 32 de profissão. Autodidata, Joselma aprendeu  observando outras trabalhadoras em uma pequena facção familiar, como é conhecido o serviço terceirizado que produz confecções de roupas para marcas. Dona de um ateliê de vestidos de noiva, ela dedica cerca de dez horas diárias de atendimento ao cliente e à produção de moda nupcial. “O retorno financeiro não acompanha o esforço. O trabalho artesanal perde espaço, porque o ofício é desvalorizado na cidade de Imperatriz”, pondera.

Joselma costurando o peito de um vestido de noiva desenhado com pedrarias ao redor da renda (foto: Maria Viana)

Nascida na cidade de Caxias (MA), e há algum tempo residente de Imperatriz (MA), Celma Maria Pereira dos Santos, 55 anos, revela como a costura continua sendo saída e sustento para muitas mulheres brasileiras.

“Transformei o que sobrava em sustento”, resume ela, lembrando que, há 28 anos, transformou necessidade em ofício, ao desmontar  camisolas usadas para aprender, criando roupas infantis com pequenos retalhos. Em meio a uma crise financeira, encontrou na venda dessas peças uma alternativa para garantir a estabilidade da família. Contou, ainda, com o apoio do marido, que trabalhava como vigia em uma fábrica de costura e facilitava com o acesso a materiais.

Enquanto isso, uma nova geração tenta renovar o setor. Taináh Gomes do Nascimento, 30 anos, atua com vestidos festivos e buscou aperfeiçoamento em São Paulo, onde estudou costura e bordado em 2022. Com foco na alta costura, ela diz que seu trabalho recebe valorização, mas observa um desafio crescente, já que muitos consumidores desconhecem a complexidade de criar uma roupa sob medida. Segundo Taináh, essa falta de informação aumenta a distância entre o público e o processo artesanal. “A tendência é que só pessoas com maior poder aquisitivo terão acesso a peças feitas à mão”, alerta.

Fast Fashion

Um estudo conduzido pela Bangladesh Labour Foundation mostrou que a rápida transformação da indústria da moda tem sido impulsionada por um avanço tecnológico que redefine o papel das costureiras informais. Máquinas industriais, capazes de realizar até 1,2 mil pontos por minuto, contra cerca de 70 feitos de forma manual, vêm substituindo etapas antes inteiramente dependentes da habilidade humana. Essa disparidade de produtividade não apenas acelera a produção, como reduz a necessidade de costureiras artesanais, abrindo espaço para um modelo de trabalho mais barato, repetitivo e terceirizado.

Lixo têxtil descartado em regiões vulneráveis revelando impactos ambientais e sociais (foto: Martin Bernetti)

Taináh aponta que o maior desafio da costura hoje é se posicionar em um mercado que desconhece a complexidade da produção sob medida, o que contribui para a desvalorização do trabalho artesanal. Ela avalia que, nos próximos anos, a profissão tende a se tornar mais escassa, restringindo o acesso a esse serviço a pessoas com maior poder aquisitivo.

Essa percepção é reforçada por dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que indica que a expansão da produção padronizada tem reduzido oportunidades para trabalhadores independentes da cadeia da moda, ampliando a informalidade e enfraquecendo a sustentabilidade econômica de costureiras e pequenos produtores.

Taináh em seu ateliê nos mostrando o processo de moulage para um vestido de noiva (foto: Kawana Oliveira)

Segundo Joselma, o maior desafio na profissão é o medo de não alcançar os próprios objetivos. Sempre projetando metas altas, ela relata a insegurança de não obter o reconhecimento pelo seu trabalho. “Eu tento alcançar, porque a moda está sempre correndo”, desabafa. A percepção da costureira dialoga com dados de um estudo publicado em 2021, pela revista Poliedro, que aponta que a rapidez e a mudança estrutural do setor da moda intensificam o ritmo do fast fashion, modelo de produção rápida, ao mesmo tempo em que empurram profissionais qualificados para a informalidade ou para funções com menor valorização técnica.

Em sentido oposto, Celma encara sua trajetória como um processo contínuo de aprendizado. Para ela, não há desafios, mas experiências que constroem caminhos. Ao longo dos anos, deixou de prestar serviços para outras empresas, investiu na compra de sua própria máquina, fruto do próprio trabalho, e passou a atuar de forma independente, terceirizando seus serviços para lojas de roupas modinha. “Cada passo que dei trabalhando por conta própria foi um aprendizado que me fez seguir em frente”.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2025.2, contou com a colaboração, nas correções finais, da aluna estagiária Milena do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul.