Por: Renata Sousa e Rita Maria Sousa
O Natal em Imperatriz não cabe apenas nas vitrines de lojas iluminadas, nas mesas fartas ou nos cultos lotados da véspera. À medida que o dia 25 de dezembro se aproxima, a cidade revela múltiplas formas de celebrar, algumas silenciosas, outras coletivas, muitas delas atravessadas pela fé, pela solidariedade e pela tentativa de reconstruir vínculos rompidos. Entre tradições familiares, ações comunitárias e projetos de acolhimento social, o Natal ganha sentidos que extrapolam o calendário religioso e o consumo.
Além das missas, cultos evangélicos, confraternizações e encontros familiares, a data também se transforma em gesto concreto de cuidado com quem vive à margem. Em Imperatriz, uma dessas expressões é a atuação da Pastoral do Povo da Rua, iniciativa da Diocese local que, há três anos, desenvolve ações voltadas a pessoas em situação de vulnerabilidade. Segundo a coordenadora da entidade, Ivanete Cabral Pereira Ornelas, de 55 anos, o trabalho da pastoral busca levar “acolhimento, cuidado e esperança às pessoas em situação de vulnerabilidade”.
No período natalino, esse acolhimento se materializa de forma especial. No dia 16 de dezembro, a Pastoral realiza sua tradicional ceia de Natal, ofertada anualmente na sede localizada na Rua Antônio de Miranda, 215, no Centro da cidade. Para muitos dos participantes, pessoas que, em grande parte, perderam vínculos familiares ou vivem em situação de rua, a ceia representa mais do que alimento. É uma experiência de pertencimento, afeto e reconhecimento.
“A comida nos aproxima, mas nosso objetivo é ajudá-los a sair da situação de vulnerabilidade e recuperar suas histórias”, explica Ivanete Cabral. À frente da coordenação há dois anos, ela ressalta que, desde a fundação da Pastoral, em julho de 2023, a missão do grupo é estar junto das pessoas em situação de rua, “reconhecer os sinais de Deus em suas histórias e desenvolver ações que ressignifiquem suas vidas”.
Embora a ceia natalina concentre visibilidade, o trabalho da Pastoral do Povo da Rua se estende ao longo de todo o ano. Equipes de voluntários realizam visitas frequentes às praças e vias públicas onde essa população se concentra, oferecendo diálogo, oração e serviços básicos considerados essenciais para a recuperação da autoestima e da dignidade. Entre as atividades desenvolvidas estão o jantar semanal, realizado às terças-feiras, que alterna entre a entrega de marmitas nas ruas e o acolhimento na sede da pastoral. Quando recebem as pessoas na casa, os atendidos têm acesso a banho, troca de roupas e higiene pessoal.
O projeto conta com apoio da Diocese de Imperatriz, sob a liderança do bispo Dom Vilson Basso, e mantém diálogo constante com instituições públicas e privadas, escolas, universidades, órgãos do Judiciário e grupos voluntários que contribuem com doações e força de trabalho.
Entre a ação social e a tradição familiar
Paralelamente à atuação da Pastoral, outras iniciativas da sociedade civil também se mobilizam no período natalino para atender famílias em situação de vulnerabilidade. Empreendedores, voluntários e lideranças comunitárias organizam campanhas de arrecadação de alimentos, cestas básicas e brinquedos para crianças cujas famílias não têm condições de garantir sequer o básico para a ceia. Entre essas ações está a “Ação do Bem”, coordenada há 18 anos pela radialista e ex-vereadora pelo PTB, Claudia Batista.
O projeto já alcançou diversos bairros periféricos de Imperatriz, como Sebastião Régis, Itamar Guará, Vila Machado, Vila Redenção, Vila Macedo, Nova Imperatriz, JK e Vila Conceição. Ao longo dos anos, a iniciativa distribuiu brinquedos, lanches e cestas básicas, especialmente em datas simbólicas como o Natal, o Dia das Crianças e o Dia das Mães.
Claudia relembra que, durante um período, a Ação do Bem contou com o apoio de empresários do comércio local por meio do Cofre Solidário, uma estratégia criada por ela. Pequenos cofres eram distribuídos em lojas parceiras, e os clientes eram convidados a doar o troco de suas compras. O valor arrecadado era convertido integralmente em doações. A iniciativa, no entanto, foi interrompida devido à necessidade de uma grande equipe para distribuição e recolhimento dos cofres, além da diminuição da circulação de moedas após a popularização do PIX.
Atualmente, Claudia mantém o projeto com recursos próprios e com a colaboração voluntária de familiares e amigos. Para ela, a motivação é espiritual. “Deus nunca nos abandona, o Senhor nunca nos desampara. A forma de dizer ‘obrigado’ é amando o próximo. Foi por isso que decidimos promover esse tipo de ação.” Ela também reforça que o impacto da solidariedade não deve ser medido apenas por números. “Mesmo que não consigamos atender muitas pessoas, se cada um fizer um pouco, se cada um se dispuser a ajudar um pequeno grupo, já estaremos levando leveza e alegria para aquela família, para aquela criança.”
Enquanto parte da cidade vive o Natal nas ruas e em ações coletivas, outras celebrações acontecem dentro das casas, sustentadas por rituais familiares que atravessam gerações. É o caso da família Macatrão. Na casa moram seis pessoas: Camyle, seus pais, o irmão e os dois avós maternos. No Natal, os tios que moram em São Luís e Teresina costumam viajar para Imperatriz, reunindo toda a família.
A matriarca, Marlivia Macatrão, é quem organiza a dinâmica da celebração. Ao longo dos anos, algumas tradições se tornaram marcas da família. Já houve Natal em que todos passaram a noite vestindo pijamas iguais. Outra prática mantida há mais de uma década é a escrita da cartinha para o Papai Noel, com os pedidos colocados dentro de uma meia pendurada na sala. Neste ano, a tradição ganhou uma adaptação: Marlivia comprou uma caixa postal do Papai Noel, que será colocada na porta da casa para que o “bom velhinho” recolha as cartas.
A celebração inclui ainda cantar parabéns para Jesus Cristo, com direito a bolo de aniversário, além de momentos de karaokê que envolvem toda a família. Neste ano, a família decidiu acrescentar uma gincana: divididos em dois grupos, os participantes irão montar e decorar casas de biscoito com glacê. A casa mais criativa e colorida será premiada, embora o prêmio permaneça em segredo.
Entre ceias comunitárias, ações solidárias e rituais familiares, o Natal em Imperatriz revela uma cidade múltipla, onde a data ultrapassa fronteiras físicas e simbólicas. Ele se manifesta nas ruas, nos trailers de banho, nas mesas improvisadas, nas orações feitas em praças e nas salas de estar onde histórias são recontadas ano após ano. Mais do que uma celebração única, o Natal imperatrizense se constrói em camadas, algumas marcadas pela fé, outras pela urgência social, todas atravessadas pelo desejo de partilha, presença e cuidado.