Com quatro barracas, feirinha da Vila Nova sobrevive em meio a declínio

Feirantes lembram passado próspero, e esperam reativação deste mercado local

Bruna Thassara Silva Teixeira

– Quanto tá o pequi?

-Tá oito o quilo!

– Êh pequisão vistoso!

– Pode misturar a cebola com tomate. Olha, ali tem mamão bonito!

– Quanto deu aqui?

– Deu R$ 15,50, mas deixo por R$ 15. O que é mais, minha patroa?

Diálogos que se escutam facilmente em qualquer feira. Mas, na da Vila Nova, estão se perdendo, acabando junto com ela. Várias barracas, que há menos de dez anos aos domingos, dia de grande movimento, se estendiam por dois quarteirões, com muitos vendedores e bancas de todos os tipos, agora se reduzem a quatro a semana inteira.

Luciano Sousa Silva, de 32 anos, é barraqueiro há dez. Ele explica que acordava às  4h da madrugada para repor mercadoria, mas depois que quase foi assaltado, agora sai de casa somente às 7h e encerra o dia de trabalho por volta das 20h. O feirante declara que trabalhar com feira foi o serviço que mais gostou até agora, pois consegue tirar seu sustento. “Dá pra todo dia ter dinheiro no bolso, não dá pra se aperrear”, comenta.

Para ele, umas das causas de a feira ter diminuído, deixando tão baixo o movimento, foi que muitos feirantes desistiram, indo trabalhar em outras profissões e, além disso, outros morreram. Um outro motivo foi o fato de a rua Dom Marcelino, onde está localizada, ter acesso ruim, com as vias de acesso esburacadas.

Luciano argumenta, ainda, que a instalação do supermercado Mix Atacarejo, do grupo Mateus, na avenida Babaçulândia, também influenciou no cenário atual. Luciano não trabalha só, tem a ajuda do pai, Pedro Rocha da Silva, de 67 anos. O seu auxiliar conta que às seis horas da manhã já está de pé, e seu expediente acaba às sete da noite todos os dias: “Não tem feriado, não tem nada”. Ele afirma que gosta de tratar os clientes com educação e cuidado para que sempre retornem.

Luciano e Pedro, pai e filho, são parceiros e se ajudam tirando o sustento do dia a dia (foto: Bruna Thassara)

Pedro afirma que todos os barraqueiros se dão bem, sempre se ajudando mutuamente. “Quando aqui não tem, a gente pega no outro e se resolve”. Quanto às mercadorias, alguns produtos são entregues e outros são buscados, ambos no Mercadinho.

O feirante era merendeiro no setor Mercadinho, vendendo salgados, pastéis, sucos, coxinha, bolos, vitaminas e parou por conta da pandemia de Covid 19, em 2020. “Eu vou dar um tempinho, daqui 10, 15 dias eu volto… Aí não voltei mais, fiquei com medo de morrer”, relembra. Pedro, não pensa em ter outra profissão, e enquanto puder, vai continuar sendo feirante, ajudando o filho.

Na opinião dele, a feira foi reduzindo por conta da baixa demanda que não permitia que os feirantes mantivessem suas barracas. “Vende hoje e não tem dinheiro pra repor”. Pedro não concorda que o Mix Atacarejo da Babaçulândia tenha influenciado na diminuição da feira. “Não, tem muita coisa que a gente vende mais barato do que lá. Olha: uma uva dessa aqui, no supermercado, é R$ 13. A gente vende aqui de R$ 10”.

Cleide Souza Lima, de 52 anos, trabalha na feira desde 2000. Antes não tinha profissão, só seu marido trabalhava. Ela conta que depois que o cônjuge ficou desempregado e adoeceu, teve que aprender a se “virar”, mesmo contra a vontade dele. “Eu vou tentar, aí comecei a vendendo cheiro-verde, umas verdurinhas”. Logo alugou um ponto na feira, conseguiu aumentar, e assim, criou os quatro filhos.

Os clientes que conquistou há 20 anos ainda frequentam seu estabelecimento. Cleide enfatiza que gosta muito de ter contato direto com eles e da mesma forma, tenta conquistar outros, sempre com uma conversa, fazendo amizade. “Pra mim já é uma família”. Nunca presenciou rixas entre os colegas de profissão, mas observa que não deixa de haver uma certa concorrência, porém não liga tanto pra isso. “Eles lá, eu cá, não mexa comigo que eu não mexo com você”.

Cleide precisou persistir para enfrentar e superar os desafios da vida como feirante e como mãe (foto: Bruna Thassara)

Passado

Luciano conta que nos anos 2010 eram muitas bancas, além de pequenos boxes alugados, e agora só resta uma pessoa com barraca móvel. “Ele vem com o carrinho cheio, só encosta ali e vende. Depois desmonta tudo e vai pra casa”. Hoje resistem quatro barracas fixas, uns pontos maiores de venda de verduras e legumes, outros com foco em brinquedos, açougue e até minis-mercearias.

Na época em que começou, Cleide explica que a feira era muito boa, com o faturamento alto e a demanda exigia a contratação de cinco funcionários para ajudá-la. Ela recorda que antigamente acordava às 2h da madrugada, e neste horário já havia clientes. Hoje em dia, só abre por volta das 7h. Depois que o marido faleceu, há 10 anos, trocou de ponto e as vendas foram caindo com o passar do tempo.

Ronaldo dos Santos Ferreira, de 27 anos, tem um ponto na feira há sete. Começou trabalhando com o tio, gostou do ofício, e posteriormente abriu uma barraca própria. Levanta-se às 5h30 e vai para casa somente às 20h. Ele relembra que antes as vendas eram melhores. “Dia de sábado nós pegávamos dez caixas de banana, agora pegamos três e ainda sobra pra segunda-feira”.

Ronaldo aguarda a entrada de clientes em sua banca enquanto observa o baixo movimento. (foto: Bruna Thassara)

Expectativa

Pedro observa que apesar de a feira ter reduzido drasticamente, ainda consegue suprir as necessidades financeiras por meio dela, mas acredita que esta, na Vila Nova, em breve não existirá mais. “Hoje em dia já fez foi acabar, porque se contava 60, 80 bancas, e aqui tá tendo uma, duas, três… tem quatro bancas”.

Aos domingos, Ronaldo afirma que era comum encontrar várias “senhoras pra lá e pra cá comprando”, e agora o movimento de clientes está escasso. O feirante, que nunca pensou em ter outra profissão, imagina que tenha possibilidade de a feira acabar de vez, mas isso depende dos barraqueiros. “Se nós não estivéssemos aqui, ela já teria acabado”.

Construção particular de boxes para aluguel, na esquina da feirinha da Vila Nova (foto: Bruna Thassara)

Cleide diz que não queria que esse comércio local acabasse. Mesmo achando que está muito fraco, tem esperança de que não chegue ao fim. Até já pensou em parar, trabalhar em outra profissão, mas suas filhas não querem que ela preste serviço para uma outra pessoa, por isso insiste.

Na opinião de Luciano, as coisas ainda vão melhorar, porque existe uma construção particular na esquina, em que haverá no futuro boxes, pontos para locação, oferecendo mais oportunidade e deixando o espaço mais bonito. “Creio que alguém vai se interessar, alugar e vai crescer mais a feira um pouco”.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2025.2, contou com a colaboração, nas correções finais, da aluna estagiária Milena do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul.