Cadeirantes: esporte tem poder de transformar vidas

Texto e foto: Viviane Reis

De acordo com o diretor e treinador do time de basquetebol sobre rodas do Centro de Assistência Profissional ao Amputado e Deficiente Físico de Imperatriz (Cenapa), José Augusto, atletas deficientes adquirem maior independência no seu dia a dia, além de conhecimento da sua potencialidade e aumento de estima. “O esporte ajuda a trazer o indivíduo de volta à sociedade. Hoje eles são atletas que levam o nome da cidade e do estado, pois antes não passavam de ‘um cadeirante’, apelidados de ‘aleijado’ pela sociedade.”

O coordenador dos Jogos Escolares Imperatrizenses-JEI’s 2018, Pedro Antonio, conta que apesar desse ano ser a 37º competição, somente agora portadores de necessidade especiais participaram do evento. Segundo ele, antes estes só se evolviam como telespectadores, mas hoje são os personagens principais e não mais coadjuvantes. “O esporte traz benefícios psicológicos para eles. A inclusão na competição certamente fará com que se sintam capazes de vencer, de superar obstáculos e acreditar em seus sonhos”, enfatiza Antônio.

No aspecto físico, a prática de modalidade esportiva promove a melhora da condição cardiovascular, aprimora a força, a agilidade, a coordenação motora, o equilíbrio e o repertório motor. No âmbito social, o esporte proporciona a sociabilização entre pessoas com necessidades especiais ou não. Marty Baiano, educador físico da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Imperatriz (Apae), aponta ainda que o esporte inclusivo pode exercer um papel importante na sociedade atual. “O esporte é muito importante na vida dessas crianças especiais, pois ajuda no tratamento de cada um de forma positiva. Sendo assim, essa inclusão é o primeiro passo para se aceitar que elas são especiais apenas no nome”, ressalta Baiano.

Transformação

O esporte, além de trazer inúmeros benefícios para a saúde física e mental, melhora a qualidade de vida de quem se propõe fazê-lo. No bairro Bacuri, mais precisamente na Praça da Bíblia e na Maçonaria, as atividades para cadeirantes se revelam como um escape dos preconceitos e valorização de suas qualidades.

O pontapé inicial foi dado por uma professora de Educação Física que sonhava com a reintegração de pessoas que se viam desmotivadas e incapazes de conquistar algo. Sendo assim, Jezabel Zanata, em 2009, montou um grupo de basquetebol para cadeirantes. Porém, anos mais tarde, adquiriu uma doença e teve que viajar para cuidar da saúde.

Os atletas ficaram sem saber o que fazer, mas Jezabel mostrou uma solução: o atual treinador do basquetebol de cadeira de rodas, José Augusto. Ele sempre visitava os treinos acompanhando um amigo, que ficara paraplégico depois de um tiro na coluna durante um assalto.

Augusto não cogitava ser técnico, mas como todos sabiam do seu passado de vitórias como ex-jogador de basquete, o chamaram para ajudar. Sendo assim, mesmo habilitado em outra área, o comércio, ele aceitou a proposta e se tornou responsável pelo time.

Para além da formação de atletas profissionais, o jogo de basquetebol visa transformar vidas a partir do esporte inclusivo. É por ele que amputados, paraplégicos e deficientes físicos se encontram e desenvolvem suas habilidades durante os treinos, competições e relacionamento interpessoal.

O projeto atende cerca de 16 alunos com características, idade, deficiências e realidades diferentes. Para participar, é necessário ser cadeirante, ou seja, todos aqueles que possuem alguma deficiência da cintura para baixo. Os treinos acontecem nos períodos da noite, de segunda-feira à sexta-feira, com aquecimento e aulas práticas.

De forma semelhante, a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Imperatriz (Apae) busca por meio do esporte reintegrar seus alunos no âmbito social, pois muitas vezes eles já não acreditam em seus potenciais. Atualmente a associação assiste pelo menos 600 usuários, entre alunos e aqueles que necessitam de acompanhamento terapêutico, como 15 portadores de microcefalia.

Quem pratica o esporte inclusivo?

A história de Tiago Pimentel, 29, com o esporte adaptado, começou há nove anos, quando conheceu o grupo de basquetebol de rodas de Imperatriz, exatamente, no primeiro período de adaptação. Diferente de deficientes de nascença, até seus 17 anos se via como uma pessoa normal, sem sequelas e limitações.

Porém, em 24 de agosto de 2001, ao cair de uma árvore e bater as costas em um tronco, perdeu os seus movimentos da cintura para baixo. Hoje, se dedica inteiramente ao esporte, à sua família e, recentemente, ao seu próprio negócio. Para Tiago, quando se tem algum tipo de deficiência as dificuldades são em dobro, mas se aceitar já é um passo rumo à auto-realização.

“As dificuldade dobram, mas é lutando que a pessoa vai se achar. Então, temos que aceitar o fato, e viver a realidade. Se é para viver dessa forma, temos que nos adaptar da melhor maneira possível. O primeiro passo é: se aceite da forma que você está. Não se esconda, venha para o meio da sociedade, se mostre. Mostre do que você é capaz, que as pessoas vão ter respeito por você”, destaca o atleta.

Para Fernando Santos, 32 anos, deficiente intelectual, o esporte tem ajudado muito no desenvolvimento de novos amigos. A sua deficiência não interfere em seus sonhos, além de atleta grupo de futsal masculino da Apae, toca bateria muito bem. Ele acredita que o esporte abre portas e sonha em ganhar a competição estadual no Rio Grande do Sul.

“Estamos confiantes que vamos passar de fase e ganhar. Estamos nos preparando. Meus pais me apoiam bastante. Sou muito feliz por participar desse grupo, tenho muitos amigos”, conta Santos, com empolgação.

Nem tudo são flores

Segundo o DECRETO Nº 6.949, de 25 de agosto de 2009, portadores de necessidade têm o direito de participação na vida cultural e em recreação, lazer e esporte. Já o artigo 30, 5º parágrafo, assegura que “as crianças com deficiência possam, em igualdade de condições com as demais crianças, participar de jogos e atividades recreativas, esportivas e de lazer, inclusive no sistema escolar.”

Porém, esse direito constituído por lei não acontece em muitas escolas de Imperatriz. Isso se dá pela falta de materiais didáticos e professores qualificados, o que leva muitos alunos portadores de necessidade especiais a serem automaticamente excluídos das aulas de Educação Física.

Para o coordenador dos Jogos Escolares Imperatrizenses-JEI’s 2018, Pedro Antônio, com o sistema de ensino vigente, é mais fácil um professor excluir um aluno deficiente do que mudar todo seu plano de ensino. “É por isso que a inclusão muitas vezes só fica no papel, porque muitos professores e educadores não se esforçam para incluir aquele único aluno nas suas aulas. Mas, estamos lutando para que essa inclusão saia do papel e vire realidade definitiva”, declara.

Contudo, José Augusto, diretor e treinador do time de basquetebol sobre rodas, conta que mesmo com todas as dificuldades, não cansa de sonhar com a reintegração de seus “guerreiros”. “Meu maior objetivo é ver esses caras, como vejo hoje, como atletas, voltando a se reintegrar a sociedade e conquistar. Porque você se ver numa cadeira do nada, você pensa que sua vida acabou. Meu objetivo não é trazer um troféu de Campeão Brasileiro. Sim, não seria mal, porém meu maior objetivo é trazer eles à sociedade”, ressalta Augusto.