Café do Mercado Bom Jesus conjuga tradição e sabor há 36 anos

Histórias jamais reveladas marcam uma famosa receita de família em Imperatriz

Thamyres Carvalho

No coração do Mercado Bom Jesus, um dos espaços mais históricos de Imperatriz, encontra-se um café que há mais de três décadas preserva receitas e sabores que remetem à tradição e à memória afetiva dos imperatrizenses. Com iguarias típicas como o bolo de orelha, o cuscuz em taiada e o famoso bolo de arroz, o estabelecimento segue conquistando gerações, mantendo-se fiel às suas origens.

Mercado Bom Jesus funciona há mais de 30 anos com mesas, cadeiras e self -service para todas as iguarias. (foto: Thamyres Carvalho)

O Mercado Bom Jesus sempre foi ponto de encontro para comerciantes, viajantes e famílias. Muitos dos recém-chegados a Imperatriz paravam ali para tomar um café e degustar as delícias locais antes de seguir viagem ou estabelecer-se na região. Segundo registros do livro Enciclopédia de Imperatriz: 150 anos (1852-2002), de Edmilson Sanches, o mercado desempenhou um papel crucial no desenvolvimento econômico e cultural da cidade. “No final da década de 1950, e na década de 1960, tornou-se um centro comercial com pequenas mercearias e quiosques que vendiam comida caseira. Demolido em 1971, foi reconstruído e ampliado pelo prefeito Renato Cortez Moreira”, informa a obra.

Tradição Familiar

O café do Mercado Bom Jesus tem suas raízes na história da família Barbosa. Ony Barbosa, filha dos fundadores, relembra como tudo começou: “Meu pai iniciou há 34 anos vendendo apenas pão no mercado. Com o tempo, minha mãe percebeu que poderia ampliar as opções e incluir outras receitas para garantir uma renda extra.”

Assim surgiram os pratos que se tornariam a marca registrada do café. Entre as iguarias mais queridas, o bolo de arroz se destaca. Inicialmente, uma senhora que vendia bolos na região compartilhou algumas dicas, mas a mãe de Ony aprimorou a receita, tornando-a única. “Ela começou com poucos ingredientes, aprendeu sozinha e foi aperfeiçoando até chegar ao sabor que temos hoje”, conta Ony.

Cuscuz de arroz em taiada, tradicional do Mercado Velho, ao lado bandejas de bolo de arroz no preparo para iniciar as vendas. (foto: Elson Araújo)

O diferencial do café também está na produção artesanal do cuscuz em taiada. Diferente das versões industrializadas, feitas com flocão de milho, o cuscuz do Mercado Velho é preparado a partir do arroz, conferindo-lhe um sabor autêntico e inconfundível.”É o verdadeiro cuscuz de arroz. Não é fácil produzi-lo, mas fazemos questão de manter essa tradição”, destaca Ony.

Sabor e confiança

Com uma clientela fiel, o café se tornou ponto de encontro para muitos moradores da cidade. Há aqueles que frequentam o espaço desde a infância, acompanhados por seus avós, e outros que, mesmo morando em outras cidades, fazem questão de voltar para matar a saudade do sabor nostálgico.

Família Barbosa atendendo os clientes no café. Na imagem, o irmão de Ony ajuda a cortar a taiada de arroz para os clientes. (foto: Fernando Cunha)

“Tem clientes que vêm aqui desde pequenos e, quando retornam a Imperatriz, sempre passam para tomar café. Dizem que é como sentir o gostinho da infância”, conta Ony. A fidelidade dos clientes também se deve à preservação das receitas originais. “Nunca mudamos a receita. Desde o primeiro dia, o bolo de arroz tem o mesmo sabor”, afirma. O segredo, no entanto, continua guardado. “Muitos já pediram a receita, mas não podemos revelar. É um patrimônio da família.”

Bolo de arroz do Mercado Velho tem uma receita nunca revelada pela sua criadora. É uma das iguarias mais pedidas no local. (foto: Fernando Cunha)

Futuro

Manter um negócio tradicional por tantos anos não é tarefa fácil. Ony relembra os desafios enfrentados, como a pandemia da Covid-19, que exigiu adaptações para continuar atendendo os clientes. “Tivemos que nos reinventar, oferecendo delivery para os imperatrizenses que não podiam sair de casa”, relata.

Outro obstáculo enfrentado pelos comerciantes locais é o aumento no custo dos insumos. “O preço do café subiu muito em 2025, e isso impacta diretamente o nosso negócio. Tentamos segurar os preços para não afastar os clientes”, explica Ony.

Além disso, a incerteza sobre o futuro do Mercado Velho preocupa a família Barbosa. Há rumores sobre uma possível reforma do espaço, o que poderia impactar a permanência dos comerciantes tradicionais. “O mercado precisa de melhorias, mas nosso receio é que isso acabe nos tirando daqui. Este lugar é nosso sustento há mais de 30 anos”, desabafa.

Apesar dos desafios, a família segue firme, mantendo viva a tradição e o sabor que conquistaram gerações. O café do Mercado Bom Jesus é mais do que um simples ponto gastronômico: é um símbolo da cultura imperatrizense, um lugar onde cada xícara e cada pedaço de bolo contam uma história de perseverança, memória e afeto.

Esta matéria faz parte do projeto da disciplina de Redação Jornalística do curso de Jornalismo da UFMA de Imperatriz, chamado “Meu canto também tem histórias”. Os alunos e alunas foram incentivados a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. Essa é a primeira publicação oficial e individual de todas, todos e todes.