Histórias jamais reveladas marcam uma famosa receita de família em Imperatriz
Thamyres Carvalho
No coração do Mercado Bom Jesus, um dos espaços mais históricos de Imperatriz, encontra-se um café que há mais de três décadas preserva receitas e sabores que remetem à tradição e à memória afetiva dos imperatrizenses. Com iguarias típicas como o bolo de orelha, o cuscuz em taiada e o famoso bolo de arroz, o estabelecimento segue conquistando gerações, mantendo-se fiel às suas origens.

O Mercado Bom Jesus sempre foi ponto de encontro para comerciantes, viajantes e famílias. Muitos dos recém-chegados a Imperatriz paravam ali para tomar um café e degustar as delícias locais antes de seguir viagem ou estabelecer-se na região. Segundo registros do livro Enciclopédia de Imperatriz: 150 anos (1852-2002), de Edmilson Sanches, o mercado desempenhou um papel crucial no desenvolvimento econômico e cultural da cidade. “No final da década de 1950, e na década de 1960, tornou-se um centro comercial com pequenas mercearias e quiosques que vendiam comida caseira. Demolido em 1971, foi reconstruído e ampliado pelo prefeito Renato Cortez Moreira”, informa a obra.
Tradição Familiar
O café do Mercado Bom Jesus tem suas raízes na história da família Barbosa. Ony Barbosa, filha dos fundadores, relembra como tudo começou: “Meu pai iniciou há 34 anos vendendo apenas pão no mercado. Com o tempo, minha mãe percebeu que poderia ampliar as opções e incluir outras receitas para garantir uma renda extra.”
Assim surgiram os pratos que se tornariam a marca registrada do café. Entre as iguarias mais queridas, o bolo de arroz se destaca. Inicialmente, uma senhora que vendia bolos na região compartilhou algumas dicas, mas a mãe de Ony aprimorou a receita, tornando-a única. “Ela começou com poucos ingredientes, aprendeu sozinha e foi aperfeiçoando até chegar ao sabor que temos hoje”, conta Ony.

O diferencial do café também está na produção artesanal do cuscuz em taiada. Diferente das versões industrializadas, feitas com flocão de milho, o cuscuz do Mercado Velho é preparado a partir do arroz, conferindo-lhe um sabor autêntico e inconfundível.”É o verdadeiro cuscuz de arroz. Não é fácil produzi-lo, mas fazemos questão de manter essa tradição”, destaca Ony.
Sabor e confiança
Com uma clientela fiel, o café se tornou ponto de encontro para muitos moradores da cidade. Há aqueles que frequentam o espaço desde a infância, acompanhados por seus avós, e outros que, mesmo morando em outras cidades, fazem questão de voltar para matar a saudade do sabor nostálgico.

“Tem clientes que vêm aqui desde pequenos e, quando retornam a Imperatriz, sempre passam para tomar café. Dizem que é como sentir o gostinho da infância”, conta Ony. A fidelidade dos clientes também se deve à preservação das receitas originais. “Nunca mudamos a receita. Desde o primeiro dia, o bolo de arroz tem o mesmo sabor”, afirma. O segredo, no entanto, continua guardado. “Muitos já pediram a receita, mas não podemos revelar. É um patrimônio da família.”

Futuro
Manter um negócio tradicional por tantos anos não é tarefa fácil. Ony relembra os desafios enfrentados, como a pandemia da Covid-19, que exigiu adaptações para continuar atendendo os clientes. “Tivemos que nos reinventar, oferecendo delivery para os imperatrizenses que não podiam sair de casa”, relata.
Outro obstáculo enfrentado pelos comerciantes locais é o aumento no custo dos insumos. “O preço do café subiu muito em 2025, e isso impacta diretamente o nosso negócio. Tentamos segurar os preços para não afastar os clientes”, explica Ony.
Além disso, a incerteza sobre o futuro do Mercado Velho preocupa a família Barbosa. Há rumores sobre uma possível reforma do espaço, o que poderia impactar a permanência dos comerciantes tradicionais. “O mercado precisa de melhorias, mas nosso receio é que isso acabe nos tirando daqui. Este lugar é nosso sustento há mais de 30 anos”, desabafa.
Apesar dos desafios, a família segue firme, mantendo viva a tradição e o sabor que conquistaram gerações. O café do Mercado Bom Jesus é mais do que um simples ponto gastronômico: é um símbolo da cultura imperatrizense, um lugar onde cada xícara e cada pedaço de bolo contam uma história de perseverança, memória e afeto.
Esta matéria faz parte do projeto da disciplina de Redação Jornalística do curso de Jornalismo da UFMA de Imperatriz, chamado “Meu canto também tem histórias”. Os alunos e alunas foram incentivados a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. Essa é a primeira publicação oficial e individual de todas, todos e todes.