Voz Literária · Quem vive conta

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Bloco da Vaca transforma tradição em patrimônio da Vila Fiquene 

Criado por moradores, o bloco cresceu ao longo dos anos e hoje representa a cultura da comunidade

Amanda Nascimento

O que começou como uma simples roda de amigos reunidos para beber em frente de casa tornou-se uma das manifestações culturais mais tradicionais do bairro. Em 2002, moradores da Vila Fiquene, em Imperatriz, decidiram que não precisariam mais atravessar a cidade para viver o carnaval. Em vez disso, levariam a festa para dentro da comunidade. A iniciativa foi tão aceita que hoje reúne cerca de 2 mil pessoas.

Há 24 anos, um grupo de amigos resolveu mudar a forma como a festa era vivida na Vila Fiquene. O fundador do Bloco da Vaca, Júlio César Ferreira de Souza, conta que tudo começou de maneira espontânea, durante uma conversa entre amigos: “A gente tinha dificuldade de sair daqui para o Centro. Então decidimos fazer o nosso próprio carnaval”.

Foi assim que nasceu o tradicional “Jogo dos Casados contra os Solteiros”, considerado até hoje o grande marco de abertura do Bloco da Vaca. Desde então, os homens entram em campo vestidos de mulher. “Os casados de vestido e os solteiros de suitinhazinho, sainha, shortinho. E assim começou. Foi o primeiro grito de carnaval do Bloco da Vaca”, comenta Julio Cezar.

O nome do bloco se inspirou em uma agremiação de Recife, cidade natal do fundador Júlio Cezar. A irreverência do grupo pernambucano serviu de inspiração para  definir a vaca como mascote oficial da festa. A ideia permaneceu, mas ganhou identidade própria, tornando-se símbolo da Vila Fiquene. “Aí, a gente tinha uma musiquinha lá dele. Era assim: ‘A vaca caga no meio da rua. Ela não tem vergonha, ela só anda nua’. Aí, ela cagava a rua inteira”, relembra Júlio Cezar com alegria.

O primeiro carnaval reuniu apenas moradores da região. Hoje, o evento atrai milhares de pessoas e se tornou uma referência entre os blocos comunitários de Imperatriz. “A ideia é que o nosso projeto não morra e siga por muitas gerações”, afirma Júlio Cezar.

Um dos primeiros registros do Bloco da Vaca mostra os participantes ao lado da mascote que se tornou símbolo. (foto: acervo Júlio Cesar Ferreira)

Embora aconteça em apenas um dia, a festa exige meses de preparação. Segundo um dos organizadores, Diegu Ferrari, o planejamento começa cerca de quatro meses antes do Carnaval. Durante esse período são definidos o local do evento, as atrações, a estrutura, os abadás e toda a documentação necessária para que o bloco aconteça com segurança. Mesmo consolidado, o grupo enfrenta desafios.“A maior dificuldade é a burocracia e a parte financeira para fazer o evento acontecer”,  informa Diegu Ferrari.

Os organizadores destacam a dificuldade de criar a festa sem o suporte dos órgãos públicos e com o obstáculo de buscar parcerias, como comenta Júlio Cezar: “Porque como a gente participa, tem Associação dos Blocos de Imperatriz, né? Mas é um projeto que ainda não funciona. Eu sou cadastrado mesmo, o nosso CNPJ tem tudo automatizado. Mas a gente não tem o apoio financeiro do governo”.

Sem um financiamento fixo, a realização da festa depende principalmente de patrocinadores locais, lojistas e parceiros da região. “Isso incorporou tanto a comunidade nessa região, que os próprios comerciantes, hoje, do bairro, todo mundo, eles ajudam”, complementa  Diegu.

Mesmo diante das dificuldades, a organização garante que o compromisso com a comunidade é o que mantém o projeto vivo ano após ano. O que começou de forma acanhada expandiu-se e moldou a identidade cultural do bairro. Antigamente, a concentração acontecia na rua General Vitorino e os jogos ocorriam na Arena Fiquenão. Hoje, o ápice do bloco se concentra no centro do bairro na Praça Pedro Abreu, reunindo DJs locais, diversos carros de som e foliões de todas as idades.

O impacto cultural do grupo serviu de inspiração para o surgimento de outras quatro agremiações menores na região. O Bagaceira e os blocos do Torrão, do Tomate e o Sextaneja, hoje também participam e brincam juntos dentro da celebração. Para o fundador, a existência do projeto é sinônimo de realização profissional e comunitária: “Rapaz, vejo o bloco como um projeto que suportou as dificuldades, que todo mundo vai, sabe que existe, que acontece… Então, para mim hoje é uma realização.”

Cartaz oficial do Bloco da Vaca convida a comunidade para o Carnaval de 2016. (foto: divulgação)

Grito de Carnaval

Antes dos shows e da concentração do bloco, um evento já anuncia que o Carnaval começou: o tradicional jogo entre “Casados e Solteiros”. A partida ocorre sempre no período da manhã, entre 9h e 10h, na Arena Fiquenão,  reunindo mais de 40 jogadores e uma multidão de espectadores com o único intuito de fazer graça e se divertir.

O diferencial está nas fantasias. Enquanto os casados entram em campo com vestidos das esposas, os solteiros usam saias, shorts e roupas curtas. Mais do que decidir um vencedor, a competição busca divertir o público e reunir moradores de todas as idades. “É um jogo de alegria, de brincadeira mesmo, da comunidade”, diz Diegu  Ferrari. Independente do placar, a festa continua logo após o apito final, com carros de som, DJs e apresentações musicais que dão início ao Bloco da Vaca.

Comunidade se reúne para o jogo dos Casados x Solteiros. (foto: acervo Júlio Cezar Ferreira)

Fonte de renda

Embora seja conhecido pela animação, o Bloco da Vaca também exerce um importante papel econômico. Todos os anos, comerciantes locais aproveitam o movimento para vender alimentos, bebidas, doces e outros produtos durante a festa.

A organização faz questão de manter o bloco aberto à comunidade, permitindo que qualquer morador possa comercializar seus produtos. A festa atrai pessoas de bairros vizinhos, como o Ayrton Senna, Parque Santa Lúcia, Vila Independente e Recanto Universitário. No último ano, cerca de 10 barracas comerciais foram montadas na praça. Júlio César destaca essa abertura: “A gente faz o evento e dá para a comunidade. Eles vendem o que eles querem, do cachorro-quente ao caviar, se tiver”.

A brincante Mônica Rodrigues endossa a relevância econômica do festejo para os trabalhadores autônomos da região: “Acaba trazendo fonte de renda para muitas famílias também. Muitas trabalham, vendem suas comidas, alguma coisa, cerveja, água, tudo. Então é uma coisa importante, muito importante”. Anualmente, cerca de duas mil pessoas participam da programação, fortalecendo o comércio local e atraindo visitantes de outros bairros de Imperatriz.

Patrimônio afetivo

Ao longo dos anos, o bloco deixou de ser apenas uma festa, se tornando um espaço de convivência. Pais que participaram da primeira edição hoje assistem aos filhos entrando em campo, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações. Essa continuidade é percebida pelos próprios brincantes.

Mônica acompanha o grupo desde que o filho Vinícius era pequeno. Hoje, os dois dividem a mesma paixão pela festa. Para ela, preservar o bloco significa manter viva a cultura do bairro. “É uma coisa que vai passando de geração em geração.” Já Vinícius acredita que a renovação é o que garante o futuro da brincadeira . “Imagino o bloco com pessoas novas e sempre se renovando”. Ele define o evento e a sua emoção com uma palavra: “É apaixonante.”

Após 24 anos, o festival da Vaca ultrapassou a condição de um simples grupo carnavalesco. Tornou-se uma manifestação cultural construída pela comunidade, capaz de preservar memórias, fortalecer vínculos sociais e mostrar que a tradição continua viva. A festa simboliza pertencimento construído coletivamente.

Em tempos em que muitas festas tradicionais desaparecem por falta de apoio ou renovação, o bloco segue encontrando força justamente onde nasceu: na comunidade. Como diz Júlio César: “A gente quer que mais pessoas se juntem na ideia e levem o bloco pra frente”

A intenção sempre foi garantir que o projeto continue existindo por muitos anos. Porque, no fim das contas, o maior patrimônio do Bloco da Vaca não é a festa. É a certeza de que a tradição também se constrói com amizade, resistência e participação popular.

Foliões tomam as ruas da Vila Fiquene durante o cortejo do Bloco da Vaca. (foto: acervo Júlio Cezar Ferreira)

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Dra. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.