Associação de moradores, voz do Parque Alvorada há 25 anos, luta por direitos e sede

Entraves fundiários, questões políticas e baixa adesão limitam a AMPA hoje

Ângela Marques

José Bruno Pereira dos Santos

Com mais de duas décadas de mobilização comunitária, a Associação de Moradores do Parque Alvorada (AMPA) mantém vivo o esforço de organização popular desde 1999 em um dos bairros mais populosos de Imperatriz. Mesmo enfrentando entraves fundiários, desafios políticos, falta de sede própria e baixa participação dos moradores, o grupo segue atuando como ponte entre a comunidade e o poder público, um trabalho sustentado quase inteiramente por voluntários.

Atualmente a entidade é liderada pela presidente, Lauriane Vieira Campelo, a vice-presidente Eliene Borges, as secretárias Carla Frazão e Ivanilda Lima e a tesoureira Kelly Soares. A ex-presidente Joelma, que liderou a AMPA por oito anos, e o morador Antônio, que apoia a organização “desde o início”, também são figuras centrais.

 A diretoria atual considera a documentação como sua principal ferramenta de trabalho: “O sentimento da associação é o poder que a gente tem para poder cobrar quem pode nos ajudar, obrigar eles a nos ajudar”, garante a presidente. Com raízes que remontam há mais de 25 anos, a Associação Comunitária do Parque Alvorada sempre foi um ponto de organização para os moradores.

O nome atual, AMPA, foi legalizado em 2013, com CNPJ, o que confere à organização a legitimidade necessária para lutar por melhorias. “A Associação do Parque Alvorada sempre foi uma das mais atuantes que inspirou outros bairros de Imperatriz”, afirma Joelma, orgulhosa do legado. No entanto, a principal barreira para o desenvolvimento da comunidade é a questão territorial.

Segundo à direita, o então secretário de Regularização Fundiária, Carlos Hermes, junto a membros da AMPA (foto: acervo pessoal AMPA)

“O Parque Alvorada é um bolo. Um bolo cheio de cortes”, descreve Antônio. A área, que se originou de uma doação não formalizada, é considerada pela prefeitura como “bairro de invasão” por ainda não possuir título definitivo para a maioria das residências e espaços comuns. “O que os órgãos públicos dizem é que não pode trazer nada para cá porque aqui não tem título definitivo. A área da prefeitura é muito pequena”, relata Lauriane.

Essa insegurança jurídica é o motivo principal pelo qual o bairro, por exemplo, ainda não possui um Posto de Saúde em sua área central: “Por que nunca veio? Não tem uma área legalizada para a construção”. A associação, em parceria com o então secretário de Regularização Fundiária, Carlos Hermes, está em processo de negociação para que as terras do governo e do político José Lamarck de Andrade, doadas informalmente à população, sejam repassadas ao município, permitindo, assim, a documentação das casas e a execução de obras essenciais.

Da Escola aos Bloquetes

Apesar das dificuldades burocráticas, a persistência da AMPA resultou em vitórias significativas para a comunidade. A principal delas foi a construção do Centro de Ensino Amaral Raposo, escola de nível médio, obra entregue em 2016 pelo governo do Estado, por intermédio da Secretaria de Estado da Infraestrutura (Sinfra).

A presidente, Lauriane, e a ex-presidente, Joelma, detalham a luta que envolveu abaixo-assinados e ganhou urgência após a morte de uma jovem estudante que precisava se deslocar para longe. “A primeira vitória que a gente conquistou foi a tão sonhada escola de nível médio, que nós não tínhamos aqui”, reconhece Joelma.

Placa de obra instalada, marco inicial para a construção da nova escola Amaral Raposo (foto: divulgação)

Apesar de ter sido construída no vizinho Parque Imperial (pela facilidade de documentação do terreno), a escola atende prioritariamente os jovens do Alvorada I e II e Vilinha. Outras conquistas incluem a instalação de bloquetes em algumas ruas e a reforma da Praça da Voz, um pedido feito no primeiro Aniversário do Parque Alvorada – um evento criado em 2017 pela AMPA para trazer visibilidade e união ao bairro, que já realizou nove edições.

A associação também se destaca em ações sociais, como a mobilização durante a enchente de 2019, quando a igreja Santa Luzia se tornou ponto de apoio por 30 dias. E a ajuda na construção de, pelo menos, três casas para famílias carentes.

Registro da grande enchente do Parque Alvorada em 2019, uma lembrança de profunda vulnerabilidade (Foto: acervo pessoal José Bruno)

Críticas

A maior dificuldade enfrentada pelas lideranças é o desinteresse e a falta de participação dos moradores, que se traduzem em apatia para projetos como a Feira Comunitária, que já tem barracas gratuitas, mas não consegue engrenar.

Entrega oficial das barracas, proporcionando mais dignidade e estrutura para moradores (foto: acervo pessoal Ampa)

A região tem mais de 10 mil moradores, mas a AMPA conta com apenas cerca de uma centena associados. “Dessas, não aparecem 20. Mas nos grupos de WhatsApp, é todo mundo pedindo nas redes sociais, todo mundo é leão criticando”, aponta Lauriane. Ela lembra que todos na associação são voluntários, dedicando tempo e recursos próprios. “Eu sempre falo que nós estamos loucos. É só pra botar dinheiro”, desabafa. Diz também que com frequência precisa se ausentar do trabalho formal para resolver as demandas do bairro.

A segunda maior dificuldade é a falta de uma sede física. Sem um ponto fixo, a associação perde oportunidades de parcerias e verbas com grandes empresas, como Caixa Econômica e Suzano, que exigem uma estrutura formal para investir.

Esperança na juventude

Joelma ressalta que a legalização do CNPJ da AMPA é o que garante à associação a função de cobrança e a voz legítima perante as autoridades. Embora as lideranças se renovem ao longo do tempo, o sentimento é de que o esforço vale a pena, especialmente pela confiança depositada na nova geração. Para a ex-presidente, “a gente sempre acreditou que a juventude tem o poder, a força e o momento de fazer a diferença e de mudar”, mantendo viva a continuidade da luta comunitária.

Esse entendimento se reflete na avaliação de Lauriane, que destaca o papel da entidade como instrumento formal de reivindicação. “A associação dá voz pra gente cobrar melhorias. É nossa forma de lutar legalmente”, reforça, ao confirmar que o empenho se mantém pela crença no impacto positivo dessas ações sobre o bairro. O sonho coletivo, segundo ela, segue o mesmo: ruas pavimentadas, posto de saúde, escola acessível e, acima de tudo, mais moradores engajados.

A luta segue com objetivos bem definidos. Para a atual presidente da AMPA, o horizonte é claro: “O nosso sonho é esse: ruas organizadas e pavimentadas, posto de saúde e uma escola dentro do Parque Alvorada”. Mais do que apresentar demandas, a entidade faz um chamado direto à participação popular. “A associação é um veículo, não um destino. Ela só anda se vocês empurrarem”, reforça, ao destacar que o avanço das conquistas depende do engajamento coletivo.

Para viabilizar esses planos, a associação pretende reabrir o ponto físico e retomar o cadastramento de associados, com a fixação de uma taxa simbólica de R$ 5 mensais. A estratégia é ampliar a adesão de moradores para garantir recursos mínimos que permitam custear o aluguel de uma sede própria e, a partir disso, oferecer cursos profissionalizantes, cursinhos preparatórios para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e outros benefícios concretos à comunidade.

Segundo Lauriane, o cálculo mostra que a meta é possível. “Se pelo menos 10% dessa população, 10% de 14 mil eleitores, derem R$ 5, dá mais de R$ 5 mil, o suficiente para pagar o aluguel e começar a construir uma sede que traga mais benefícios para o bairro”, explica. Assim, entre desafios históricos e expectativas renovadas, a AMPA encerra mais um capítulo de sua trajetória reafirmando o mesmo princípio que a sustenta há 25 anos: organização comunitária, participação popular e persistência como caminhos para transformar o Parque Alvorada.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2025.2, contou com a colaboração, nas correções finais, da aluna estagiária Milena do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul.