As irregularidades dificultam a mobilidade dos moradores desde as mães com carrinhos de bebê até os mais velhos
Por Eduardo Jorge e Henry Adrian
A disputa constante por espaço entre pedestres e veículos nas vias urbanas de Imperatriz coloca em evidência os desafios da mobilidade e da segurança pública na cidade. A escassez de passeios públicos adequados em diversos bairros força moradores a caminharem pela via pública, espaço esse em que automóveis, motocicletas e ciclistas dividem o que aumenta o risco de atropelamentos. A vulnerabilidade de quem anda a pé ganhou repercussão em setembro de 2026, quando uma mãe e seus dois filhos gêmeos em um carrinho de bebê foram atingidos por um automóvel no bairro Bacuri.

O atropelamento ocorreu no dia 19 de setembro de 2026. A influenciadora Nath Fernandes caminhava com os filhos gêmeos, Filippo e Sophia, acomodados em um carrinho de bebê, e precisou mudar seu trajeto habitual por causa do fluxo intenso e da largura reduzida da via. “O movimento tava bem grande de carro, aí eu falei assim: ‘Não, não vou voltar pelo mesmo caminho porque tá bem movimentado de carro, aí é bem estreita a rua que eu tava vindo’”, relata a mãe.

Ao tentar cruzar a via nas imediações de uma feira no bairro Bacuri, a família foi surpreendida por um veículo que avançou subitamente. Nath tentou puxar a estrutura para afastar as crianças antes do impacto. “Na minha cabeça só passou que eu queria salvar eles ali com medo do carro passar por cima deles, o meu instinto só foi puxar os dois. Eu não sei nem como que eu tive essa capacidade”.
Nath conta que o carrinho virou e as crianças caíram no asfalto. “Foi um susto muito grande. Quando eu peguei eles, a primeira coisa que eu fiz foi olhar para ver se estavam acordados. O Filippo caiu e já foi arrastando o rosto no asfalto”, detalhou Nath. Testemunhas relataram que o condutor apresentava visíveis sinais de embriaguez e deixou o local sem prestar socorro, mas foi localizado e preso pela Polícia Militar após a placa do carro ser anotada. Ele foi liberado posteriormente.
Apesar do susto, as crianças se recuperaram após atendimento médico. “Meus bebês estão bem, para a glória de Deus. Filippo teve um arranhão no rosto e Sophia, no braço, mas eles estão bem, e eu também”, informou a mãe. Ela reforça a necessidade de conscientização sobre os riscos no trânsito. “Que isso sirva para conscientizar as pessoas e que bebida não combina com volante”.
A realidade vivida por quem trabalha diariamente nas ruas traz outra dimensão aos problemas de infraestrutura urbana. O vendedor ambulante José Antônio Mendes, de 72 anos, atua há três décadas comercializando sorvete nas esquinas da cidade e acompanha de perto os perigos da circulação de pedestres.
Ele destaca a má conservação do passeio público e o risco constante de quedas. “Eu acho muito mal a estrutura de calçada dentro de Imperatriz. Eu mesmo já tropecei algumas vezes em declive de calçada, às vezes em diferença de centímetro”.
Com o passar dos anos, os obstáculos nas calçadas tornam-se ainda mais perigosos para quem precisa se deslocar a pé. “A visão não é mais a mesma. Depois disso, a resistência, a gente vai ficando mais cansado. Eu ainda tenho saúde, ainda batalho muito, mas a resistência já não é mais a mesma”, reflete o comerciante.
Ao residir e trabalhar em Imperatriz desde março de 1973, José Antônio aponta a raridade de obras de padronização ao longo das últimas décadas. “Essa ideia [de padronização de calçadas] eu só vi ali no calçadão, ali na saída do calçadão. Só vi um pequeno pedaço que foi padronizado, foi a única ideia que eu vi até hoje dentro de Imperatriz”, observa.

Direitos do pedestre e responsabilidade dos motoristas
No Brasil, a norma técnica ABNT NBR 9050 fixa os parâmetros de acessibilidade urbana, estabelecendo a obrigatoriedade de superfícies planas, contínuas e sem obstáculos para garantir a circulação de idosos, pessoas com deficiência e adultos conduzindo carrinhos de bebê.
No âmbito municipal, o Código de Posturas e o Plano de Mobilidade Urbana de Imperatriz estipulam que a construção, conservação e manutenção das calçadas são de responsabilidade do proprietário do imóvel limítrofe, deste modo os passeios devem permanecer livres de degraus, rampas abusivas, entulhos ou mercadorias. A ocupação irregular das calçadas e a falta de continuidade da malha de passeios forçam o pedestre a abandonar a calçada e utilizar a pista de rolamento, o que sujeita os infratores a notificações e sanções administrativas.
Em nota oficial a Prefeitura de Imperatriz, por meio da Secretaria Municipal de Planejamento Urbano (SEPLU) e da Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes (SMTT), informa que desenvolve fiscalizações periódicas nos bairros e corredores comerciais para orientar e notificar proprietários quanto ao cumprimento do Código de Posturas e à desobstrução de calçadas.
O poder público destaca que ações de reordenamento urbano e ampliação da acessibilidade constam no planejamento municipal de mobilidade urbana, buscando promover melhorias graduais nas vias públicas e coibir o estacionamento irregular de veículos sobre os passeios. As secretarias ressaltam ainda a importância da conscientização e cooperação da população para manter os passeios livres e garantir o trânsito seguro de pedestres.